Reportagem

Entre a estabilização e conservação dos empregos

Leonel Kassana

Jornalista

No caminho das operações mineiras na Lunda Norte, vinte anos depois, o Jornal de Angola volta ao Projecto Luô, hoje Sociedade Mineira do Lunhinga. A alcançamos a mina, depois de uma passagem pelos kimberlitos do Kaixepa, no município do Lucapa e Chitotolo, esta mais virada a exploração diamantes aluvionares no Nzaji, Cambulo.

06/09/2021  Última atualização 08H19
Minas do Lunhinga e Uari © Fotografia por: Agostinho Narciso |Edições Novembro
O respectivo contrato de concessão dos direitos mineiros (prospecção, reconhecimento, exploração e comercialização) foi rescindido na sequência de constatações da sua pouca rentabilidade. Pelo meio, o Luô passou, depois, à Sociedade Mineira do Camatchia-Camagico, que tinha sido criada em Marco de 2003.

A cerca de 1.300 quilómetros de Luanda e 75 da vila do Lucapa, na comuna do Capaia, a Sul da Província da Lunda Norte e 80 de Saurimo, Lunda Sul, pois, encontrámos uma companhia em franca recuperação, depois de um período vivido com alguma ansiedade, primeiro devido à instabilidade na região, que retraiu os investimentos e, ultimamente, a pandemia da Covid-19.

A pandemia, sobretudo, trouxe desafios logísticas relevantes, com a reconfiguração das equipas devido a limitação na movimentação trabalhadores dentro da mina. Para lidar com a situação inesperada à escala mundial, desencadeou-se um cuidadoso processo de confinamento e trabalho em turnos nas áreas tidas como vitais para a empresa.
Esses factores, associados, tiveram um impacto particularmente severo na produção de diamantes e, em consequência, nos lucros da Lunhinga.

Como, aliás, em todos os outros projectos diamantíferos.
Um detalhe de reportagem: Pela concessão da Sociedade Mineira do Lunhinga, com 325 quilómetros quadrados, passam rios como Chicapa, Luô, Lunhinga, Carambala e Cula, e em cujos vales se julga haver importantes reservas de diamantes.
A antiga mina do Luô é considerada em meios competentes como estando entre as 10 maiores do mundo. Companhias como a Escom Mining, Alrosa, a própria Endiama, Hipergesta e Angodiam constituíam a antiga sociedade gestora dos direitos mineiros.

Na altura (1997), fizemo-nos à mina do Luô de helicóptero, idos directamente do então Projecto Catoca, hoje transformado em sociedade mineira e que representa 85 por cento de toda a produção de diamantes de Angola. A situação aconselhava a cuidados redobrados, pois havia intensa actividade de garimpeiros e de grupos armados. A região se apresentava alguma instabilidade.

Se naquele ano, os mineiros achavam-se acampados em tendas, agora fomos "surpreendidos”, com uma funcional vila residencial, a traduzir os investimentos sucessivos, feitos para garantir uma exploração sustentável das minas da concessão do Lunhinga. Com serviços essenciais, como óptimo serviço de Internet, foi essa vila foi o "poiso” dos jornalistas por vinte e quatro horas.

Estudos geológicos A concessão do Lunhinga estende-se por uma área de 275 quilómetros quadrados, mas há anos que exploração está apenas concentrada no kimberlito de Camatchia, com trinta hectares, na confluência dos rios Chicapa e Luô.

Não se sabe, ao certo, quando tempos levarão os actuais estudos geológicos adicionais, num outro kimberlito, o Camagico, para futura exploração.

Do que se tem certeza, segundo dados que compulsamos, é que no Camagico já foram feitos alguns estudos preliminares, a apontarem para a ocorrência de kimberlitos, a profundidade de 100 metros, com reservas que se aproximam dos 1,5 milhões de metros cúbicos de minério e de 2,4 milhões de quilates de diamantes Sempre no Lunhinga. A partir do miradouro, onde estavam expostas imagens com mapas e números do Camatchia, o presidente do Conselho de Gerência, Adérito Gaspar foi explicando, ao detalhe, o funcionamento da mina. Imagens impressionantes de máquinas, em constante movimento no interior da chaminé foram captadas, antes de seguirmos para as centrais de tratamento de minério.

Depois da sua passagem à Sociedade Mineira, concluídos todos os trâmites legais, essa companhia está agora em condições de encetar um caminho para se tornar numa das minas mais produtivas do país, a crer no optimismo do actual corpo de gerência.

Uns para a escavação, outros para o transporte do mineiro em direcção a unidade de tratamento, são muitos os equipamentos disponíveis na Camatchia. Quer no exterior, como nas áreas mais fundas do kimberlito, dezenas os técnicos, num movimento quase imparável, garantem a exploração dos diamantes.


Empregos assegurados

A alteração verificada na estrutura societária no antigo Projecto Luô, foi consequência de uma decisão dos sócios, com a Ediama-E.P a ficar  com uma participação de 92, 2 por cento e a Hipergesta com a 7, 5 por cento.
Antes disso, funcionou sob liderança de uma comissão de gestão liderada pelo engenheiro, Aderito Gaspar, antes de ser elevado a presidente do Conselho de Gerência e director-geral do Lunhinga.

A nova equipa tratou de assegurar todos os postos de trabalho (372) e manteve os processos directamente ligados à produção e outras actividades conexas.

Dados que Aderito Gaspar partilhou com os jornalistas, deixam poucas dúvidas, sobre a consolidação do Lunhinga. Douco mais de oito mil quilates por mês, a produção de diamantes situa-se actualmente acima dos 12 mil, algo considerado como um salto importante no caminho para a recuperação plena.

"Desde o início do ano que vínhamos a produzir, basicamente, a volta de oito mil quilates por mês, devido quer a Covid-19, bem como a situações climatéricas, sobretudo chuvas intensas, mas actualmente estamos perto de 12 mil”, refere Adérito Gaspar, adiantando que a transformação em sociedade tornou a empresa mais estável.

Adérito Gaspar, que também detém um curso sobre desvio de rios para minas aluvionares de diamantes, adianta que está prevista a colocação em operação de uma segunda central de tratamento de minério até final do ano, algo que pode elevar a produção mensal de diamantes para 15 mil quilates. "Vamos ter um aumento significativo”, acrescenta.

A recuperação da central de tratamento de minério, depois de cinco anos de inactividade, representa, também, outro ganho em matéria responsabilidade social da companhia, numa região onde o desemprego, sobretudo entre os jovens, atinge níveis assustadores. É esperado, com efeito, o ingresso de pelo menos 30 jovens na mina.

O número pode parecer insignificante, mas é particularmente impactante nas regiões mineiras, onde, na falta de oportunidades de emprego, um significativo número de jovens envereda facilmente para o garimpo de diamantes, com as consequências que se conhecem.

Constrangimentos operacionais Entre os meses de Setembro a Abril, chove muito naquela região do país, sendo esse um período, geralmente, considerado como menos produtivo para sociedades mineiras. A situação torna-se mais crítica, sobretudo nos meses de Novembro, Dezembro, Março e Abril, com os equipamentos mineiros a ficarem atoladas na lama. Com as devias diferenças, essa é a realidade muito presente em todos os projectos diamantíferos de Angola.

O presidente do Conselho de Gerência explica, no entanto, que a despeito dessas dificuldades, a produção do primeiro semestre da Sociedade Mineira do Lunhinga situou-se muito próximo dos 51 mil quilates de diamantes, com as receita a ficarem em cerca de 15 milhões de dólares.

Esses dados são o resultado directo da estratégia operacional da companhia, tendo como referências principais a disponibilidade de níveis de engenho, remoção do estéril, transporte e tratamento do minério, situação económica e financeira e, também, os constrangimentos resultantes da pandemia.

Recentemente o Lunhinga foi citado pelo presidente do Conselho de Administração da Endiama - EP, Ganga júnior, ao lado de outros projectos diamantíferos, como estando "bem”, a confirmar a reversão da situação de empresas que em anos sucessivos não traziam os dividendos esperados.


Vários desafios

Como se diz mais cima, Lunhinga pode contar com uma nova central de tratamento no último trimestre deste ano, algo que pode colocar a produção nos 15 mil quilates por mês. "Até final deste ano, vamos perfazer cerca de 120 mil quilates de diamantes», sublinha o mineiro.

A manter-se o actual nível de investimentos, os gestores da Sociedade Mineira do Lunhinga acreditam que a capacidade de recuperação de diamantes pode chegar aos 20 mil quilates por mês. É algo que está em linha com a estratégia traçada para a reestruturação da companhia, depois de anos sucessivos a funcionar, primeiro como projecto e, depois, como mineira.

Segundo o líder da empresa, actualmente estão em curso investimentos, sobretudo, em equipamentos de remoção e centrais de tratamento, que vão viabilizar o aumento da produção. Em paralelo, significativos recursos são direccionados para estudos geológicos dentro da própria concessão, para a descoberta e exploração de novos corpos de kimberlitos.

Aliás, no passado falou-se da identificação, dentro da concessão do Luô, dos kimberlitos Lunhinga I, Lunhinga II, Carambala e Cacula. E é isso que torna mais excitante o trabalho da equipa dos geólogos envolvidos na prospecção.
Aqui, fala-se de investimentos estimados em cerca de 12 milhões de dólares, dos quais metade já utilizado, segundo Adérito Gaspar, com vasta experiência na indústria diamantífera, depois de uma licenciatura em engenharia de minas pela Universidade Agostinho Neto.
 "Pedras especiais” do Uari Cambange

Antigo Projecto Camutwe, o Uari Cambange é considerado como um dos projectos mais relevantes no segmento da exploração de diamantes no país, ao lado do Catoca, Kaixepa, Chitotolo, Cuango, a Somiluana, Lunhinga, Furi e outros.
Emprega 400 pessoas, sobretudo da região do Lucapa e arredores.
Atingimos o Uari, no mesmo dia em que passamos pela mina do Kaixepa, um kimberlito com o histórico dos diamantes mais valorizados de Angola.
Mina de grande cascalho (Calonda, Colina, terraços lezílios e rios), garantia bastante para alimentar continuamente as lavarias ao longo do ano, o Projecto Uari Cambange, viu também a sua produção a ser seriamente afectada pelo impacto da Covid- 19, que despoletou em 2020.

A manutenção dos equipamentos, ampliação das áreas de exploração, abastecimento de materiais e insumos e aquisição de equipamentos e peças sobressalentes, maioritariamente importadas, ficaram comprometidas.
Famosa pelas suas "pedras especiais”, o Uari não conseguiu materializar o seu programa de reforço em novos equipamentos de mineração, como lavarias e central de escolha, depois que estalou a pandemia, o que permitiria uma produção a volta de 11 mil quilates por mês.

"Para 2020, estavam projectadas a aquisição importantes equipamentos para a mina, mas o surgimento da pandemia inviabilizou o processo”, referiu o director técnico do Uari Cambange, o engenheiro Tomé Joaquim, em conversa com os jornalistas, antes de leva-los a algumas frentes de operações.

Indicou que, para lidar com a pandemia, o número de trabalhadores em serviço na mina foi reduzido para metade, o que se reflectiu nos níveis de produção, que caíram para sete mil quilates por mês.
Novos Investimento
Tomé Joaquim afirma, no entanto, que a Endiama Mining, actual operadora da mina, está a fazer os investimentos necessários em novos equipamentos, alguns dos quais já estão a produzir, algo que pode indiciar o crescimento dos números de diamantes recuperados.
O volume dos investimentos não nos foi precisado, apesar da nossa insistência, ficando, em compensação, a referência feita pelo director técnico, sobre a aquisição de duas lavarias de pré-tratamento, uma de meio denso, que devem chegar brevemente.

"A Endiama Mining está a fazer investimentos em novos equipamentos, alguns dos quais já estão a produzir”, palavras de Tomé Joaquim, considerando que se não fosse a pandemia, a esta altura a mina estaria já num "outro patamar”.
O preço dos diamantes do Uari tem estado a volta dos 800 dólares o quilate. Um preço considerado "bom”- as aspas são propositadas, a ter em conta a volatilidade do mercado dessa commodity.

O mineiro renova a necessidade de novos investimentos, ao indicar que os equipamentos utilizados pela Tranx-Hex, no anteriormente denominado Projecto Luarica praticamente já estão em estado obsoleto, carecendo, por isso, de renovação.
Nesta altura, no Uari Cambange trabalha-se em três frentes: Oeste, Leste e na preparação do desvio de um rio, esta uma tarefa gigantesca, que permite a exploração de mais recursos, no que é considerado uma mais-valia para a mina.

Nessa estratégia, preparada a pensar num crescimento sustentável, pretende-se a redução do risco e melhor previsão de receitas, a descoberta de novos blocos de minério, construção de modelos geológicos e a integração dos dados históricos com imagens e mapas actuais, segundos dados disponibilizados aos jornalistas.

Na mesma linha, destacam-se a programação e acompanhamento da produção e frentes de exploração, modernização dos meios necessários (sotwares, hardwares e equipamentos de apoio), gestão contínua dos dados de produção, para a sustentabilidade das operações, alem da aquisição de novos equipamentos de exploração e metalurgia.
Compromisso social

A integração com as comunidades é já uma marca das empresas mineiras, por onde passamos na Lunda Norte. A responsabilidade social, além de estatutária, também serve para minimizar eventuais conflitos nas zonas de implantação dos projectos diamantíferos.

Se a Somiluana, por exemplo, anualmente investe cerca de 500 mil dólares a área social, no Lunhinga, o valor é mais modesto, perto de 200 mil, mas serve a reforçar a rede de escolas, postos de saúde, instalação de chafarizes e reabilitação de diversas de vias de ligação as comunidades. O apoio social estende-se, também, às autoridades tradicionais, que recebem regularmente cestas básicas.

Adérito Gaspar não duvida a importância dessa interacção com as comunidades. "As comunidades são sempre boas parceiras e nós tentamos manter ou melhorar permanentemente essa relação”, diz, destacando a oferta, em período de pandemia, de equipamentos de higienização das mãos e de biossegurança, distribuição de água, além da prioridade de empregos.

Já no Uari Cambange é destacado, entre outras acções de responsabilidade social, a construção de uma escola de quatro salas para as comunidades, assistência sanitária aos dependentes dos trabalhadores no Posto de Saúde da mina.
Em minas de maior porte, como Catoca e Chitotolo os desembolsos para o sector social são significativamente maiores.

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