Entrevista

ENSA não vai despedir trabalhadores após a privatização

Em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, o presidente do Conselho de Administração da ENSA, Carlos Duarte, falou sobre o processo de privatização, numa altura em que a empresa fechou o ano de 2019 com 9,9 mil milhões de kwanzas de prejuízo (cerca de 17 milhões de dólares). Carlos Duarte afirmou que não haverá despedimentos colectivos na ENSA, com a privatização de parte do capital da empresa. A administração espera negociar soluções que permitam enquadrar os trabalhadores excedentários em novas unidades de negócio. São cerca de 650 profissionais espalhados por todas as províncias.

04/07/2020  Última atualização 22H32
Eduardo Pedro| Edições Novembro

Transitou de uma seguradora privada (Nossa Seguros) e terá de conduzir a ENSA à privatização. Sente-se à vontade com este desafio?
A actual administração tomou posse a 6 de Novembro de 2019. Temos pela frente a responsabilidade de preservar a história da empresa, superar os desafios e aproveitar as oportunidades, na perspectiva de valorizar um activo que, afinal, é de todos os angolanos.

E que outros desafios tem pela frente?

A ENSA será uma das primeiras empresas a privatizar no sector financeiro angolano. Transitámos do domínio exclusivamente público, ficando o capital disponível para investimento privado. O processo inovador no mercado de capitais angolano é reforçado pelo facto de sermos das poucas empresas com acesso às agências de notação financeira internacional.

Quais são os negócios não-nucleares da empresa?

Devo dizer que o plano Estratégico coloca um foco particular na concentração, nas actividades nucleares ou “core” (essenciais). O fundamental na nossa actividade é subscrever e gerir risco, lidar com sinistros e gerir financeiramente as provisões técnicas. Esta é a nossa essência e temos que ser os melhores nesta matéria. As actividades fora do essencial, como, por exemplo, os serviços clínicos, o parque imobiliário, as peritagens técnicas, a rede de agências e outras questões, deverão ser reestruturadas e segregadas. São negócios diferentes e merecem uma gestão diferenciada. Estamos a ponderar várias soluções, atendendo à singularidade destas actividades. Independentemente do figurino que for encontrado, iremos certificar que as pessoas serão o aspecto central e estarão devidamente protegidas.

Que leitura faz do relatório? É favorável à empresa ...

A ENSA manteve-se, em 2019, como líder do mercado de seguros, com uma quota de mercado de 35,29 por cento dos clientes, uma subida em relação ao ano anterior, de acordo com os dados da Associação de Seguradoras de Angola. A empresa inverteu a tendência de queda dos últimos anos, aumentando em 0,3 pontos percentuais a quota de mercado. O resultado também corresponde a um crescimento de 35 por cento no volume de prémios brutos emitidos.

Em que áreas tiveram melhores resultados?

O destaque recai para a Saúde, que representou 49 por cento do volume de negócios, seguida pela dos acidentes de trabalho e pessoais, com 17 por cento e pelo sector petroquímico, com 16 por cento do total. O rácio de cobertura das provisões técnicas foi o segundo mais elevado desde 2016, ficando nos 165 por cento. Registe-se ainda que, em 2019, a Standard & Poor´s (uma das principais agências de notação financeira) manteve o rating internacional da ENSA em alinhamento com o rating do país. Face à actual situação vivida em todo o mundo, só posso orgulhar-me de apresentar estes resultados, fruto da visão e enriquecimento da empresa que recebi e que quero apresentar aos investidores.

E como se justifica o resultado líquido negativo de 9,9 mil milhões de kwanzas?

O resultado negativo deveu-se ao saneamento financeiro das contas, que foi abrupto, mas necessário para a estabilidade da empresa. O esforço empreendido de saneamento financeiro das contas assentou na implementação de uma política mais conservadora quanto à constituição de provisões técnicas e de provisões de prémios em cobrança, os quais, com a conjuntura económica global desfavorável, tenderam a se agravar em volume e antiguidade. Em consequência deste saneamento, fechou-se o ano com um resultado líquido negativo de 9,9 mil milhões de kwanzas. A taxa de solvabilidade está em linha com as exigências regulatórias, sem beliscar a solidez da empresa.

Com este resultado, como foi possível a ENSA conservar a liderança do mercado?

Deveu-se a alguns factores, como o aumento dos prémios (prestação paga pelo segurado para a contratação do seguro) acima da média do mercado. Mantivemos a nossa política de aposta nos recursos humanos, tendo reforçado acções para a formação e dinamização. Fizemos um tremendo esforço de saneamento financeiro, com a implementação de uma política mais conservadora quanto à constituição de provisões técnicas e de provisões para prémios em cobrança.

É altura para avançar com a privatização da empresa?

Julgo mesmo que não pode ser adiada. Os gestores nem sempre podem escolher os momentos certos. A ENSA vai ser uma das primeiras empresas a sair da esfera pública e o mundo dos “ses” não existe. O mundo não pára. Estamos focados e empenhados em obter a maior e melhor valorização e, de acordo com os dados que demos a conhecer, acredito que estamos no bom caminho.

Como vai ser implementado o processo de privatização.

A ENSA vai passar por um processo de alienação do capital, que deverá ser adquirido por privados, ou seja, deixa de ser uma empresa exclusivamente pública para ter accionistas privados. Dada a valorização, as ofertas, a decisão e a avaliação de todo o percurso, a alienação total poderá ser uma opção no futuro. O modelo de privatização da empresa será desenvolvido em duas fases: através do “private placement”, ou seja, através da escolha directa de um investidor privado e, mais ou menos após três a quatro anos, numa segunda fase, através da entrada em bolsa.

Está identificado o parceiro estratégico?

O plano estratégico da empresa prevê a entrada de um parceiro e a dispersão de capital em bolsa, bem como a contratação de alguns quadros seniores com experiência internacional, a fim de assistirem ao processo de transformação. O trabalho para o processo de privatização, com início em 2019, teve em paralelo o trabalho de saneamento da empresa, de forma a sistematizar o processo. Tudo está a ser monitorizado pelo Banco Mundial, em observância das melhores práticas de transparência recomendadas pela OCDE - Organização para a Cooperação Económica e Desenvolvimento Económico. No futuro, esperamos fortalecer a posição da seguradora no mercado, com ganhos a nível internacional, fruto das parcerias que temos vindo a estabelecer, sobretudo no ramo da Saúde e no do Não-Vida.

Qual é o foco da gestão para os próximos anos?

O Conselho de Administração da ENSA entende que, até ao momento da privatização, é necessário optimizar o funcionamento da empresa, preparando-a convenientemente, modernizando-a nos seus modelos de “governação” comercial e tecnológica. Por outro lado, consideramos importante transferir a sede para um imóvel que permita um reposicionamento institucional e funcional, mais alinhado com os novos valores e missão da organização, simplificação da estrutura interna de direcções para uma maior eficiência interna, potencialização dos novos talentos, aperfeiçoamento dos procedimentos internos de contratação, fazendo a empresa comprar melhor, em alinhamento com as regras da contratação pública, entre outros objectivos.

E qual a situação presente e futura dos quadros da ENSA?

Queremos simplificar a estrutura interna de direcções para atingir maior eficiência interna. Também defendemos a criação de uma cultura organizacional focada essencialmente na meritocracia e na gestão por objectivos, no melhor aproveitamento do conhecimento histórico acumulado. Contamos com uma equipa coesa, fortemente motivada pela consciência de que o país tem de encontrar um caminho sustentado de crescimento económico. Os quadros da empresa são para manter.

Haverá interesse de investidores internacionais na privatização?

Acredito que sim, mas não posso fazer futurologia. Vivemos numa economia globalizada, onde as nações disputam e concorrem por investimentos. É fácil perceber que a situação pandémica global veio trazer um elemento de maior incerteza ao processo de privatização. Mas também abre outras oportunidades para investidores institucionais jogarem neste xadrez regional e manterem o crescimento sustentável dos seus negócios numa escala global.

Qual foi o impacto da Covid-19 na actividade da ENSA? O que ainda pode suceder diante das incertezas?

Acreditamos que o ramo da Saúde continue a crescer, por um lado, mas também as dificuldades para cobrar prémios, que registaram um aumento de 21 por cento, com uma tendência de perda significativa de negócio que ronda os 11 por cento. O panorama é este, com tendência a manter-se, enquanto a pandemia limita o normal funcionamento das sociedades e a respectiva circulação mundial de pessoas e bens.

Sobre a ENSA

Fundada a 18 de Fevereiro de 1978, a seguradora iniciou a sua actividade no dia 15 de Abril do mesmo ano, com a denominação de Empresa Nacional de Seguros e Resseguros de Angola - UEE (Unidade Económica Estatal), hoje transformada em sociedade anónima.

Desde então, a ENSA vem acompanhando o desenvolvimento económico e social do país. A ENSA Seguros de Angola, mais do que uma marca, faz parte da história e acumula 42 anos de actividade nos piores e nos melhores momentos do país.

 




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