Reportagem

Engraxadores lutam pela vida

João Upale | Moçâmedes

Jornalista

Engraxador desde 1996, é dos mais veteranos e famosos das esquinas da cidade de Moçâmedes. Um trabalho que sabe executar com mestria e brio profissional.

01/05/2022  Última atualização 08H55
© Fotografia por: DR

Por este facto, passou a ser o "limpa-botas” mais querido destas paragens do deserto do Kalahari, entre as colinas e montanhas e o litoral mais a Sul de Angola - a terra da Welwitschia Mirabilis e da mulher mucubal.

Trata-se de João José, oriundo do município de Caluquembe (Huíla), a terra que o viu nascer há 48 anos, mas "forjado” em Moçâmedes, onde se tornou pai pela sétima vez. Disse gostar do que faz, uma profissão que para muitos, além de ser de "baixa renda” é também uma "perda de tempo”.

Dada a facilidade de aquisição no mercado nacional de instrumentos de trabalho, principalmente pomadas de diferentes cores, anilina, cera, escovas, etc., está garantida a continuidade do seu ganha-pão. João José contou ao Jornal de Angola que sempre foram os proventos deste trabalho que sustentaram a família e, inclusive, os estudos dos filhos. Lília João José é a primogénita e frequenta a 10ª classe.

O veterano engraxador deposita mensalmente mil kwanzas na Direcção Provincial das Finanças como tributação da arrecadação de receitas. Mas o jovem João, assim é tratado pelos próximos, lamenta o facto de a Administração Municipal prestar-lhe "fraco apoio”. E disse que desde que exerce a actividade, há 26 anos, apenas uma vez foi contemplado com algo:  uma caixa e uma cadeira de madeira, como kit profissional, distribuído a todos os engraxadores no âmbito da política do Estado de apoio ao empreendedorismo, incluindo a cedência de um espaço físico para realizar a sua actividade.


Ter um sonho

"A relação com as autoridades administrativas locais é boa, embora peque no tratamento que devíamos merecer”, disse. Mais do que temer pelo avanço da idade quanto ao eventual ingresso na função pública, o nosso interlocutor revela astúcia e uma visão de águia. O mundo precisa de mais sonhadores e João Cassinda é um deles. Disse ter um sonho traçado para sair da ficção à realidade. Pelo andar da carruagem, aposta na velha máxima segundo a qual "grão a grão a galinha enche o papo”. Está  a juntar, dos parcos valores que vai obtendo, o necessário para mergulhar no mundo do empreendedorismo.

"A idade que tenho já não me permite mais entrar no Estado. Penso, no futuro, criar uma cantina, vulgo ‘janela aberta’, em minha casa, uma ideia que poderá ser concretizada dentro de dois ou três anos”, revelou.

Como em qualquer outro ofício, a pontualidade é a chave do sucesso na profissão de João José, que disse ter "excelentes relações” de amizade com os seus homólogos. Informou que começa a sua actividade a partir das 6h40 para se recolher às 18h. As esquinas do Mercado Municipal, da Pensão Kilembeketa e do Hotel Moçâmedes, no casco urbano, são a "praia onde bem sabe nadar”.


Clientes "intrometidos”      

O fluxo de clientela no seu posto de trabalho é considerável, não obstante alguns "intrometidos” atrapalharem a tarefa. "Aparecem clientes bons e outros trafulheiros, que não respeitam o trabalho dos outros e ainda por cima começam a ofender depois da cobrança de uma graxa que não querem pagar”, queixou-se, acrescentando: "pessoas desse tipo, sem a mínima educação de berço, a gente só despreza; por fim cansam-se e vão-se embora”. Esclareceu que casos do género, felizmente, nunca resultaram em agressões físicas. 

João José revela que a franja da juventude com idade compreendida entre os 18 e os 20 anos "é difícil engraxar sapatos. Preferem o imediatismo na obtenção de dinheiro a todo o custo, o que por vezes leva-os a roubar e a recorrer ao uso de estupefacientes. Para eles, estar aqui é perder tempo”.

O mestre engraxador disse ter já formado cinco parentes, que agora também escalam as esquinas da urbe com o propósito de amealhar alguns trocos, que, bem aproveitados, podem ajudar a fazer muito mais. "Basta trabalhar com juízo e saber economizar o dinheiro, a vida assim vai andando”, realçou.


Pomadas da preferência  

Diariamente João José consegue encaixar Kz 4.000,00 (quatro mil kwanzas) ou mais, dependendo do fluxo de utentes. O experiente engraxador lançou um conselho aos que gostam de tirar a poeira dos pisos: "é bom usar a pomada preta, castanha ou branca, além de anilina castanha e preta. O material que estraga o sapato é o búfalo, quer castanho quer preto. Não é aconselhável aplicar nos calçados. E eu não uso para os meus fregueses”.

Fez saber que há clientes que preferem o creme branco (o mesmo dizer: pomada branca), e outros nem por isso. Mas esta cor pode ser aplicada em sapatos castanhos ou pretos, por ser universal, e o seu brilho, garantiu, "é de 5 estrelas”. E puxando a brasa à sua sardinha: "o trabalho que faço aqui na minha bancada é mesmo fantástico e o cliente sai sem reclamações, ao contrário de outros pontos onde se registam falhas na composição e no esmero do creme”.

Noutra margem da rua, a nossa reportagem ouviu o também jovem engraxador João Glória Cassinda, nascido a 24 de Maio de 1992, no bairro Cambongue, comuna do Forte Santa Rita, município de Moçâmedes. É pai de um filho. Começou a engraxar, concretamente, no dia 20 de Dezembro de 2020. Tendo terminado o ensino médio em 2016, na especialidade de Biologia/Química, tentou concorrer, em 2018, para o quadro do sector da educação, sem sucesso. E para não ficar só em casa, o seu pai, na qualidade de presidente da cooperativa de engraxadores, convidou-o a entrar na profissão.

"Aceitei o convite, vi que é bom e cá estou”. Disse que alinha no diapasão de João José quanto ao bom relacionamento com os frequeses. Segundo disse, estes agradecem depois de tudo bem feito. E minimiza os burladores porque "fazem parte da vida”. É nas lojas dos libaneses, mauritanianos ou senegaleses, a escassos dez metros da "oficina”, onde adquirem o material, no caso a pomada neutra, castanha e preta, ao preço de 250 kwanzas por cada unidade.


Segurança Social

João Cassinda relata que depois de terem sido entregues os kits profissionais pelo Gabinete da Acção Social, foram dadas, na altura, garantias de que seria resolvida a questão da inserção na Segurança Social, mas "até aqui tudo em silêncio, já não nos dizem mais nada”.

O jovem apela aos responsáveis para que essa questão seja resolvida, pois "a segurança social é muito preciosa, na medida em que a pessoa, já na velhice, não vai conseguir pegar mais numa escova e dar um brilho no sapato em troca de algum tostão”.

A esperança continua viva na alma de João Cassinda, que disse estar preparado para participar em qualquer concurso público. Mas enquanto a oportunidade tarda, adiantou: "estou aqui para um gesto qualquer que me possa sustentar”.

João Glória Cassinda assinalou que a maioria da juventude está mais preocupada com os concursos públicos, abdicando das profissões livres. "Sabemos que às vezes o Governo emprega, mas também não tem a capacidade suficiente de atender a todos”, salientou, aconselhando a que optem por profissões como a mecânica, serralharia, carpintaria e alvenaria ou pedreira.

A cooperativa de engraxadores, cuja designação oficial ainda está em estudo, foi criada muito antes de a Administração Municipal, através da Direcção de Acção Social e Igualdade de Género ter entregado os kits profissionais, e já conta com um presidente, um vice-presidente e o secretário-geral. "Estamos legalizados, resta-nos apenas estarmos inscritos na Segurança Social”, disse.

João Cassinda queixa-se da não entrega dos acessórios que estiveram em falta nos kits profissionais recebidos a 11 de Novembro de 2020, como as cadeiras para os mestres e as escovas de longa duração. As escovas então entregues  revelaram-se frágeis, tendo durado apenas um mês. Lamentou também o facto de trabalharem ao relento; tanto o mestre engraxador como o cliente ficam expostos ao sol abrasador. "Por isso, precisamos de umas sombreiras”, afirmou.


Cooperativa de engraxadores


O presidente da cooperativa de engraxadores, António Cassinda, tem 60 anos e é pai de 11 filhos, todos nascidos no Namibe. Natural de Caconda (Huíla),  começou a trabalhar no Huambo, tendo então o duplo ofício de sapateiro e engraxador, nos idos de 1968. "É com estas profissões que criei toda a família. Mesmo agora, nos meus 60 anos, ainda continuo a bater, não obstante ser o responsável da associação dos engraxadores”, disse.

António Cassinda é um ancião prudente. Contou que muito antes de passar a presidente associativo, a Administração do município seleccionou um grupo de 60 indivíduos para participar de uma acção formativa para gestão dos kits profissionais distribuídos. Tendo sido considerado o mais habilitado foi logo indicado a responsável da associação. Hoje António Cassinda dedica-se mais à sapataria, actividade que lhe rende, diariamente,  uma média de 2 mil kwanzas quando há fraca procura e entre 9 mil e 12 mil kwanzas quando há uma boa clientela. "As pessoas conhecem-me muito bem por ter apresentado o melhor trabalho”, gaba-se.

A forma de ferro (usada para concepção das meias-solas, solas corridas e os tacões), o martelo e a raspadora são, de entre outros, os utensílios utilizados para reparar sapatos. Antigo combatente e reformado pela Endiama, António Cassinda entende que a juventude de hoje "não quer aprender um ofício, nem um bocadinho só. Para eles ser sapateiro é um trabalho sujo. O que mais querem é ser professor, enfermeiro, bancário ou outra profissão de alto rendimento”.

O velho António quer ver as crianças angolanas a dedicarem-se à sapataria, à carpintaria e à alfaiataria "para o nosso país ir em frente”.               

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