Entrevista

Encarnação Pimenta : “Estados de emergência estão previstos em psicologia”

ADra. Maria da Encarnação Pimenta recebeu-nos no portão da sua residência, algures numa das zonas de expansão de Luanda.Ela convidou-nos a lavar as mãos e encaminhou-nos para um jango, no enorme quintal transformado numa lavra densa, em que sobressaíam as culturas do milho, banana, feijão, ginguba, palmeiras... “Fiz um furo e tenho água em abundância”, disse, explicando que distribui, gratuitamente, o precioso líquido pela vizinhança. Solicitámos o encontro para que ela nos elucidasse sobre a dimensão psicológica do confinamento obrigatório por causa da pandemia da covid-19. A psicóloga respondeu às perguntas com a frontalidade que a caracteriza .

12/04/2020  Última atualização 07H14
José Cola|Ediçoes Novembro

Que conselhos dá às pessoas, que, por força do Estado de Emergência, estão obrigadas a manter-se em casa?

A primeira coisa que as pessoas devem fazer é realizar não só as tarefas de rotina. Há actividades que nós, os angolanos, geralmente, não temos o hábito de fazer. Uma das coisas que aconselho é que leiam, escolhendo livros bons, por exemplo, romances. Há livros muito bons, que devem ser lidos. Este é o momento ideal, por exemplo, para os pais estarem mais próximos dos filhos. É o momento dos filhos conhecerem bem os pais,das mães conhecerem bem os filhos, dos pais e os filhos realizarem tarefas domésticas que nunca foram realizadas. Por exemplo, pintar a casa, fazer reparações na casa... O pai deve fazer aquelas tarefas de canalizador, trocar lâmpadas, mudar a posição da mobília... É o momento ideal para os pais contarem estórias aos filhos, para falarem da sua infância aos filhos. Fazendo tudo isso, o tempo até acaba por ser pouco.

Mas estar em casa, nas circunstâncias actuais, não é um idílio. Há a ansiedade, a sensação de cerco, o pânico, a incerteza...
Os estados de emergência estão previstos em psicologia. Depois de sairmos disso, as pessoas deveriam fazer uma psicoterapia. Mas a psicologia também prevê a prevenção. Há uma previsão de que, quando tudo isto acabar, observaremos comportamentos bizarros, não normais. Teremos situações de stress pós-traumático, como observado nas guerras. Os sintomas são os níveis elevados de ansiedade, que irão culminar com comportamentos de depressão. Há a depressão agitada e a catatónica, fechada, em que as pessoas não vão querer falar, dependendo do tipo de personalidade de cada um. Cada pessoa, dentro da sua estrutura mental, vai exibir um determinado comportamento. Nos jovens, como têm muita energia, e geralmente comportamentos de risco, vamos observar uma agitação muito elevada. Se reparar, não há acidentes automobilísticos...

De facto, o trânsito nas principais vias diminuiu muito...
Há uma cessação dos acidentes automobilísticos. Mas quando o Estado de Emergência acabar, vai haver uma euforia. Comparando, é como quando o pastor abre o curral e toda a manada corre para o pasto. Vai haver elevados níveis de ansiedade, uma grande euforia, excessos, os acidentes automobilísticos vão acontecer. As pessoas estão privadas de fazer as coisas que faziam no dia-a-dia, como por exemplo, beber muito com os amigos, ir a festas, dançar muito, realizar isto, procurar aquele... Quando tudo isto acabar, as pessoas vão ficar como quem saiu da prisão. Aliás, essa foi a linguagem usada pelo ministro Adão de Almeida, quando falava das medidas do Estado de Emergência. Ele disse que as pessoas ficam “privadas da sua liberdade”. A minha mente começa logo a pensar que estou presa. E a tendência é de as pessoas evadirem-se. Infelizmente, o nosso governo não fez aquilo que hoje se faz aquando de uma cirurgia. Quando se faz uma cirurgia, o paciente passa pela fase do pré-operatório, onde se faz a sua preparação psicológica, dizem-lhe que a sua perna vai ser amputada e é-lhe feita a psicoterapia para aceitar essa condição. Segue-se a operação e depois uma nova psicoterapia. O nosso governo teve tempo de fazer uma mínima preparação, com psicólogos mesmo.

Está a dizer que as questões psicológicas, mentais, deviam fazer parte das medidas do Estado de Emergência? Ou ser tidas em conta mesmo antes do Estado de Emergência?
O Estado, até dia 20 de Março, devia ter pagado já os salários e dito às pessoas para, obrigatoriamente, fazerem compras. Quando é que entramos no Estado de Emergência? Foi no dia 27 de Março. Mas antes do dia 20 já se sabia que entraríamos numa situação mais difícil, aliás, já se tinha pedido para as crianças ficarem em casa e não irem a escola. Não estou a atacar o governo, estou a falar como psicóloga e gostaria que me compreendessem assim. Somos um país que teve tempo para se preparar, tanto psicológica como materialmente. Por outro lado, mesmo até um criminoso preso tem direito a água. Se o Estado fizesse uma preparação em função do que, em psicologia, chamamos prognóstico, não teria necessidade de usar a musculatura que se está a usar agora, dizer “vamos bater, não vamos dar rebuçados nem chocolate”. Não era preciso isso.

Então, os profissionais da área da psicologia deviam ter sido chamados para estarem representados nas comissões multisectoriais anti-covid-19?
Com certeza.

Não se pode remediar isso?
Pode-se remediar, logicamente. Todo o mundo sabe que a polícia não dá beijinhos, é um órgão de repressão que deve ser usado num caso extremo. E admira-me muito o senhor ministro [do Interior] Laborinho, que até é um psicólogo, membro da Ordem dos Psicólogos. A linguagem que ele usou não foi a mais adequada. Não estou a criticá-lo, ele até é meu amigo, foi meu colega de carteira. Como dizia, podia-se evitar isso.Convém que se use essa área da ciência. O Ministério da Saúde tem psicólogos, em momento algum foram chamados. Estão a chamar psico-pedagogos, sociólogos... Porquê? Por uma questão de capricho, não se chama o fulano porque não se simpatiza com ele, senão vai dizer muita verdade.
O ser humano tem duas componentes importantíssimas que não podem ser descuradas, a orgânica, essa que estamos a defender do coronavírus, mas também temos a componente mental. É o que todo o mundo está a dizer, “podemos não morrer da covid-19, mas de fome ou de sede”. Antes dizia-se “Em África temos muito sol, só são os velhos que estão a morrer e em África não há muitos velhose além disso por sermos negros...” Refastelamo-nos e quando vimos que a coisa aqueceu, saímos então com os músculos de fora e os tanques de guerra. Não é assim que se deve tratar as pessoas. Até porque mesmo nos países onde o coronavírus já está em muitas pessoas, não estão a ser tomadas essas atitudes.

O Estado está a ser excessivo no uso da força contra as pessoas?

Está a exceder-se, desnecessariamente. Agora tem de ser como um pai carrasco, que bate porque não se preparou. O Estado devia trabalhar com profissionais da área mental, para preparar a população. Se isso acontecesse, as pessoas compreenderiam melhor o fenómeno. A força humana acaba onde começam a actuar as leis da física. E a fome e a sede são fenómenos físico-fisiológicos.

Corre-se o risco da guerra contra o coronavírus se transformar numa guerra contra as pessoas, que vão à rua procurar água e comida?
Sem exageros, mais de 80 por cento da população de Luanda não tem água corrente. O que é a psicologia? É a ciência do comportamento humano e animal e dos processos da mente. Quando falamos do ser humano, estamos a falar da interacção que ele estabelece com o outro, através de atitudes, comportamentos. Se descurar esse lado, então você está a tratar as pessoas como se estivéssemos há dois mil e tal anos. E vou ser franca. Há dois mil e tal anos aqueles iluminados Platão e Aristóteles já estavam preocupados com os processos da mente. O comportamento humano é importante. O nosso governo – estou a mandar recado - tem de considerar que o ser humano é composto de corpo e mente. Não é só corpo para apanhar porretadas. É também uma pessoa que pensa “eu não vou fazer isso”. Mas para tal é preciso prepará-la, para criar o que se chama habituação. E o hábito é destituído de consciência. Com isso, quero dizer que quando estou habituado a realizar uma acção, não preciso de ir aos processos da mente para realizar tal acção. Se o Estado me diz “Fica em casa”, eu fico. Mas isso acontece quando tenho água canalizada, gás canalizado, luz 24 horas por dia, uma padaria a menos de 500 metros de casa e serviço de entrega de comida. Quando importas um comportamento, diametralmente oposto ao teu, isso é um comportamento contra natura, contra as leis da própria natureza humana.

Reformulo a pergunta: o Estado está a ir longe de mais?
Ao decretar a quarentena, o Estado está a mostrar que está preocupado com a saúde pública da sua população, com os seus cidadãos. Isso é de louvar, apesar de ser sua obrigação. Mas, ao realizar essa acção, não criou as condições para o efeito. As medidas são tão rígidas, que as pessoas podem não morrer da covid-19, mas dessas medidas. É o que às vezes ocorre, os pacientes morrem não pela doença mas pela medicação.

Qual é então a solução?
O Estado tem de cumprir as promessas que fez. A primeira grande promessa é levar, de facto, no sentido lato, água a todos os recônditos do país. O Decreto do Estado de Emergência é para todo o país, não só para a baixa de Luanda. A outra promessa é fazer com que os produtos cheguemàs lojas, aos supermercados. O Estado tem de garantir uma cesta básica, porque as pessoas não vão ficar quinze dias sem comer. Estes dois produtos, água e comida, são básicos para as pessoas estarem confinadas.

Isso não é mais um motivo para se incrementar o trabalho psicológico?
Sim. Mas ninguém vive só de palavras. Marx dizia: “A consciência material determina a consciência social”. Isso quer dizer que tens de dar de comer às pessoas, para que consigas a sua privação social. No mundo há pessoas que preferem ficar presas. Porquê? Porque na cadeia ele, se calhar, está bem, come bem, tem água, está seguro. Nós vimos, durante a guerra, que muitas pessoas morreram quando iam a procura de comida. Quantas pessoas morreram assim? O Estado deve respeitar a população, porque é essa mesma população a quem, daqui a poucos anos, se vai pedir para ir votar. Temos de ter muito cuidado, para evitarmos os votos em branco.

Ninguém sabe qual será o curso do novo coronavírus no nosso país. Na pior das hipóteses, o que é que poderá acontecer às pessoas confinadas durante muito tempo?
Um dos grandes problemas será a irritabilidade, resultante da frustração. A frustração é a incapacidade da pessoa realizar um determinado objectivo. Quando isso acontece, a tendência da pessoa é descarregar a sua energia na pessoa que estiver ao lado. Nos primeiros dias parece tudo muito bonito, muitos terão a sensação de que o Estado deu férias gratuitas, mas depois as pessoas cairão na real. A quarentena tem um peso económico, vai tocar na economia das famílias. E também sabemos que temos em Angola muitos casos de poligamia. Muitos homens, nessa condição, vão ficar irritados por não poderem estar com a outra mulher e com os filhos da outra relação.E as mulheres vão ficar frustradas e irritadas, por não poderem estar com o companheiro, que estará com a outra. Tudo isso,vai levar à violência doméstica.

Nota importante

Como se pode depreender, esta entrevista foi feita antes da prorrogação, na quinta-feira, do Estado de Emergência. É de sublinhar que, no mesmo dia, o Executivo adoptou medidas no sentido de aliviar os agregados familiares que “vivem sob a ameaça do aumento dos custos dos bens básicos”. Uma dessas medidas é a de disponibilizar recursos, num total de 315 milhões de kwanzas, para apoiar as famílias carenciadas com bens da cesta básica. Foi ainda anunciado o início, em Maio próximo, da primeira fase do Programa de Transferência Social e Monetária em benefício das famílias economicamente vulneráveis.