Reportagem

Encalhado no calabouço por noventa e seis horas

Armando Estrela

Estavam cronometradas e tinham de acontecer, milimetricamente e com rigor, na Esquadra “Experiência” Central, as 96 horas que aferem parte do drama inicial por que passam os “passageiros” de uma bem cobiçada unidade policial.

04/07/2021  Última atualização 05H30
© Fotografia por: DR
Acabava de atravessar a "linha vermelha” e tinha como tapete e cama o cimento. Os quartos de banho, por sinal dois, são inoperantes e as necessidades menores e maiores são feitas à base de bacios inventados, cuja merda é depois transportada para uma das caixas de retenção, no quintal da unidade.


A música para descanso nocturno é completada por uma nuvem de mosquitos, que penetra e vagueia pelo interior da cela como se enxame de abelhas fosse. É cacimbo, mas o calor preenche o péssimo odor que as entupidas pias fornecem. Ainda assim, nem tudo era horripilante experiência.
Há água abundante e esse simples pormenor faz jus da elegante graça que oferece o provisório dormitório. Num cantinho perfeitamente adaptado, o "passageiro” pode, a bel-prazer, ter um banho de chuveiro por horas a fio. O que não se compreende, é porque um espaço com essas condições e com permanentemente "Caranguejos” (versão SIC - Serviço de Investigação Criminal para detidos) fica num estado de indigência humana.


O tapete e cama de cimento, o "lençol” de mosquito e o calor tiram sono a qualquer "Cavallero Andante” que pisa a "linha vermelha” da Esquadra "Experiência” Central, ainda que tal facto seja o "novo normal” de grande parte das unidades policiais espalhadas pelo país.
Na unidade policial em experiência, a pessoa pode ser colocada atrás das grades sem antes ser ouvida. Aliás, por força da pandemia os interrogatórios são feitos a partir e com a fronteira "grade”. Tudo é público e todos tomam nota do seu histórico, de qualquer jeito. Essa humilhação mistura-se com a arrogância de quem deve seguir a Lei a risca. Pessoas com extraordinário conhecimento da Lei actuam como se estivessem à época do "Faroeste”.


Em apenas 96 horas no "xadrez”, foi fácil perceber o quão imundo são tratados os cidadãos e quanta irresponsabilidade "banha” os diversos actores que interagem no circuito prisional angolano. Mesmo com a temível Covid-19, em qualquer das celas delinquentes, perigosos ou não, misturam-se com doentes e com pessoas com casos de mérito. Por um simples acidente de viação, a pessoa entra no calabouço e pode contrair doença em qualquer instante. Pior, é que ninguém se digna corrigir isso, pois, tal como se depreende da versão SIC, todos não passam de meros "caranguejos”.
Os factos e processos são aferidos e feitos a meio da anarquia. Pior, o tratamento das pessoas com alguma dignidade social e com crimes comuns confunde-se com os de carácter doloso. Aliás, um delinquente pode ser transportado à cadeia de forma afável e, o contrário, uma pessoa com admissível estrutura social é empurrada para a prisão, como se de um assassino fosse, e agarrado pela cintura, apenas para humilhar.


Destino traçado

O destino tinha sido traçado e pisou-se a "linha vermelha” do "xadrez” por volta das 16 horas de uma quinta-feira. Do outro lado da "grade” estavam dois "Mack Pugilistas”, quatro envolvidos no roubo de uma botija de gás (mais uma fora), o "Man Piqui”, que estava envolvido no caso do "bluetooth” (blutuf), o "Queimado”, achado no roubo de uma grade de cerveja, e o "Fumador”, que lá estava por ter vendido um par de sapatilhas do seu primo, com quem partilha a mesma casa e dormitório.


Os dois "Mack Pugilistas” lá estavam, há dez dias, por terem fustigado um oficial de Justiça, com chapadas e quedas brutais. Como castigo, a situação carcerária dos mesmos estava indefinida. Os dois são acérrimos amantes da luta livre. Dentro das "grades” e a qualquer altura, um deles não poupava esforço para praticar exercícios e colocar o seu forte em dia.


Bastante curiosa é a história dos cinco detidos pelo roubo de uma botija de gás, entre estes, uma mulher. O número transportou-me logo para o recente caso de contaminação de Covid-19 ocorrido na Penitenciária de Menongue, em Maio, onde um preso, ido de Luanda, passou a ser responsável pela momentânea subida do gráfico provincial (mais de cem casos), verificada em dois dias consecutivos e que permitiu a proliferação da doença entre presos e funcionários.


Muito natural, a mulher do caso botija ficou num outro ambiente e numa outra serventia, fazendo trabalhos domésticos da unidade policial. Dos cinco, dois partilhavam opinião divergente sobre a participação no roubo. A botija foi achada junto da mulher e o jovem que com ela estava negou categoricamente o seu envolvimento no caso. O caricato é que os outros dois detidos eram a parte proprietária. Isto é, os donos da garrafa de gás de 12 quilogramas.


Os proprietários estavam detrás da "grade”, por terem violentado os dois jovens achados no roubo. Curiosamente, o jovem para o qual mais suspeições pendiam negou a sua participação no roubo, até sair. O outro jovem, bastante disciplinado e educado, mostrou ser um grande interceptor de Jesus, quando a corrente de oração foi solicitada, assim que o Procurador chegou. Todos queriam sair de qualquer jeito e, com isso, foi possível verificar que, no sofrimento, todos descobrem o verdadeiro sabor de Deus.


Caso "bluetooth”


O "Man Piqui” foi acusado de ter retirado um "bluetooth”, nas imediações do seu posto de trabalho. Estava farto de estar na cadeia por cinco dias, por se considerar inocente do infortúnio que se abateu sobre si. Não perdia minuto sequer em evocar saudades pela família e pelo seu lindo trabalho - lavar carros.


Do mesmo modo, não perdia tempo em evocar o "Dabeleza” como seu detractor e o principal autor pelo crime que estava desonestamente a pagar. Nos arredores do posto de trabalho do "Man Piqui”, todos sabem quem é o "Dabeleza”. O homem tem sido protagonista de diversos roubos e há muito que o "Dabeleza” (um "expert” em crimes comuns) tira sossego a boa gente na "Placa” onde labuta o "Man Piqui”. Entenda-se por "Placa” uma área de trabalho, o mesmo código usado pelos meliantes que praticam acções relacionadas com crimes comuns ou violentos.


Quando o procurador anuncia, na sua nobre ironia, já que a cela estava apinhada, que todos os detidos seriam transferidos para a Comarca, este, também, acabou por ditar a sentença para o Inferno do "Man Piqui”. O jovem não sabia se ficava de pé ou se assentava. O ora assenta, ora de pé ocorria ao ritmo das lágrimas que escorriam. Chorava amargamente, só de pensar em como ficariam a sua rica esposa e filhos.


Era mesmo fácil, perceber que o "Man Piqui” estava sim inocente da acusação. Quando se concentra, tinha uma genial ideia: "Vamos fazer uma corrente de oração. Por favor, quem sabe fazer oração, que nos ajude a sair dessa situação. Eu não posso ficar aqui, porque a minha mulher e os meus filhos vão sofrer muito!”


De facto, havia condições suficientes para evocar Deus. As orações começaram a ser entoadas em força, incluindo a transmissão da Luz Divina pela imposição da mão (Johrei). Foi lindo de se perceber que mesmo um confesso criminoso sente a presença de Deus, nos momentos mais cruéis da sua vida.


Vinte e quatro horas depois desta experiência piloto, o "Man Piqui” é solto e nem para trás olhou. Foi como uma bala disparada e não se sabe se terá chagado a uma Igreja, para agradecer a Deus pelas orações que ele mesmo solicitou e que lhe deram conforto e paz. O certo é que com o "Man Piqui” também não deixaram rastos os cinco da botija de gás.


Dentro da cadeia, a festa aqueceu, já que a corrente de oração tinha funcionado. Contudo, a alegria deu-se mais, porque o calabouço ficou vazio e isto dava conforto na hora de dormir, algo extraordinariamente bom para um final de semana. Tinham restado cinco pessoas e o mais triste era engolir a ausência do "grande pregador” do momento. Deixou saudades, pela sua versatilidade, pois, a dada altura, este não sabia se orava em português ou em espanhol. Contudo, todos sabiam que o fazia perfeitamente em espanhol, mesmo sendo um jovem benguelense de alma, que arriscara a fala por representação.


O "Queimado”


Na manhã desse dia - uma sexta-feira, tinha se juntado ao grupo o "Puto do Cartão”. Pode não ser um caso insólito, mas é muito raro relatado à voga. Com um carácter muito vertical e de pessoa bem organizada, o "Puto do Cartão” chegou sozinho, mas, duas horas depois, juntou-se a ele outro jovem - o protector do multicaixa. Desse cómico acontecimento, essa reportagem reserva o final.
O "Queimado” acorda e sente-se incapaz de fazer alguma coisa. Apesar do descanso que a noite lhe tinha reservado, todas as energias estavam distantes do corpo. Só por isso, procura um suporte: a liamba. Fuma um "xuto”, ganha coragem e vai para a Zona Comercial da baixa. Logo que percebe que uma das lojas estava sem movimento, entra, pega numa grade de cerveja e sai.


Sorte do destino ou mesmo azar, vigilante estava a funcionária que se fazia ao local. Esta pergunta ao jovem para onde ia levar a grade? Estava desconfiada, porque este não tinha saído pela porta onde ficam os caixas. Assim sendo, facilmente a jovem percebe que havia algo de muito estranho. Mas, o "Queimado” não dá ouvidos e continuou com a sua caminhada, como se proprietário da grade fosse. O jovem não estava para conversas.


Sem mais outra alternativa, a funcionária grita, evocando a presença de um gatuno. O rapaz é agarrado e surrado, ao ponto de lhe queimarem o rabo com petróleo. O próprio "Queimado” diz ter sido agraciado por muita sorte, nesse dia. De facto, todos sabem o que seria dele, se fosse gasolina no lugar de petróleo.


Apesar desse acontecimento, não foi pelo roubo da grade de cerveja que foi parar no "xadrez”. Entrou, porque uma segunda pessoa aproveitou o momento para acusar o jovem de ser o autor do roubo de uma peruca e um plasma que sofrera, há dias. Levou o jovem à Polícia e atribuiu o infortúnio ao "Queimado”. A senhora deixou todas as indicações na Polícia, mas para lá nunca mais meteu os pés. Nem a própria Polícia pode contactá-la pelos terminais fornecidos, quando esta precisou de esclarecimentos. 


Na cadeia, o "Queimado” teve de se contentar com o nobre apoio que lhe foi prestado pela equipa do INEMA (Instituto de Emergências Médicas) e pelos serviços de saúde prisionais. Pela primeira vez, foi possível ouvir um detido defender a acção de determinados polícias. Se o problema fosse falar mal da acção dos policiais, para o "Queimado” havia uma excepção. A certeza de ter sido bem tratado pelos serviços sanitários e pelo INEMA, muda em si qualquer cenário de ostracização de um policial.

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