Entrevista

“Em Luanda, há centralidades construídas em áreas que são susceptíveis a inundações”

Roque Silva

Jornalista

O Jornal de Angola publica, uma entrevista concedida pela geóloga Gabriela Pires, tendo como foco a importância do mapeamento das áreas de riscos hidrológicos. De acordo com a entrevistada, os mapeamentos dessas áreas ajudam, em parte, a prevenir os riscos de inundações e cheias. Em Luanda, de acordo com um estudo, citado pela entrevistada, entre as zonas consideradas susceptíveis a inundações estão a Cidade do Kilamba e as urbanizações Vida Pacífica e KK-5000. “Se uma cidade não estiver preparada para receber grandes quantidades de precipitação, ocorrem efeitos indesejados”, alertou a geóloga

26/01/2022  Última atualização 04H45
© Fotografia por: Eduardo Pedro | Edições Novembro
Como professora da Faculdade de Ciências Naturais da Universidade Agostinho Neto, a doutora Gabriela Pires pertence a um Departamento que tem trabalhado no mapeamento das áreas de riscos hidrológicos. Que articulação pode fazer entre os resultados das suas investigações e os propósitos do Dia Mundial da Água?

A água é benéfica, mas, quando se trata de precipitações, tem as suas consequências, que são as cheias e inundações, principalmente nas áreas urbanas. Há ainda que ter em conta os aspectos indesejáveis da água, provocados pelas precipitações abundantes. Os resultados das investigações levam-me a chamar a atenção para os riscos relacionados com as precipitações, que são naturais, entre as quais as inundações e cheias. Elas (inundações) consistem na submersão de uma área, que, normalmente, se encontra imersa, enquanto a cheia é um processo que consiste num transbordo do curso da água relativamente ao seu leito normal ou ordinário. As consequências de ambas são sempre desagradáveis, porque produzem, em geral, nas áreas povoadas, constrangimentos, nomeadamente a imobilização e alteração na dinâmica da vida das populações, a degradação do espaço físico e a contaminação, podendo afectar a saúde pública.  


É possível transformar em zona habitacional uma área susceptível à inundação?

As precipitações são causas naturais, existem. São sempre bem-vindas a um terreno que não é habitado, pois as consequências não se fazem sentir. Não há risco de perdas de vida ou de degradação ambiental. A água vai seguir o seu curso normal. O contrário acontece em zonas habitadas, seja ela uma povoação, cidade, vila, aldeia ou um campo agrícola, cuja água recebida tem impedimentos para transcorrer o seu processo. Se uma cidade não estiver preparada para receber grandes quantidades de precipitação, ocorrem os efeitos indesejados. Uma cidade que apresenta susceptibilidade à inundação, cuja terra tem características que não permitem a penetração da água, como ser muito plana, com declive de dois por cento, e terreno argiloso, a susceptibilidade de inundação é alta. Daí ser, à partida, um risco transformar em zona habitacional, devido às consequências. Mas é possível construir. Só que em terrenos do género, quando adjudicados para serem transformados em projecto habitacional, as infra-estruturas de saneamento básico têm de ter a capacidade de atender a essa vulnerabilidade natural à inundação.


Os estudos com vista à preparação de uma zona susceptível à inundação devem ser feitos com maior acuidade?

É indispensável que se façam estudos de impacto ambiental com muita antecedência, em qualquer que seja o terreno. Nesses estudos é incluído o risco, que é feito através do mapeamento, que vai permitir delimitar e identificar no território as áreas que apresentam essa susceptibilidade à inundação. E podemos usar as infra-estruturas de saneamento para drenar as águas pluviais.


Qual é o objectivo do mapeamento de áreas com potenciais riscos hidrológicos?

Os mapeamentos dessas áreas ajudam, em parte, a prevenir os riscos de inundações e cheias. Existem registos de inundações carregadas de detritos e areia, em quase toda a zona da Baixa de Luanda e no Cazenga, devido às chuvas. Se o terreno já apresenta essas susceptibilidades e, se houver ocupação antrópica (ocupação de zonas terrestres pelo homem e a decorrente exploração, segundo as necessidades e as actividades humanas, dos recursos naturais) cabe-nos pensar em infra-estruturas de drenagem das águas pluviais, para evitar inundações, com capacidade de escoar, sob pena de haver degradação do espaço físico, com charcos, que se apresentam como um atentado à saúde pública, por serem um ambiente propício para a multiplicação de mosquitos. E essas inundações podem ser abundantes se atendermos às situações das alterações climáticas. Por isso, o ideal é a realização de estudos antes das ocupações.


Pela vasta experiência que carrega, resultante dos anos de investigação, conhece certamente outras áreas de risco, além das que mencionou, a Baixa de Luanda e o Cazenga. Sente que, em Angola, existe a preocupação com a necessidade de haver, primeiro, um estudo do terreno antes da implementação de uma zona habitacional?

Há outras áreas que, muito recentemente, foram ocupadas pelas autoridades de forma dirigida e com planos concebidos, cujos problemas deviam ter sido acautelados. Temos os primeiros resultados de um estudo feito em algumas zonas e podemos concluir que a área onde foram construídos a Cidade do Kilamba e o KK-5000 é problemática, porque, do mapeamento feito, concluímos haver susceptibilidade à auto-inundação. Do estudo feito, entre as zonas consideradas susceptíveis a inundações figura, também, a área onde está a urbanização Vida Pacífica, no Zango. Naquelas zonas, os equipamentos de drenagem de águas pluviais podem ajudar a resolver os problemas que se registam, mas é lamentável o que se vê.


Os equipamentos de drenagem de água existentes nas novas urbanizações da província de Luanda não resolvem totalmente o problema?

Uma equipa de investigadores de várias especialidades, integrados por estudantes e docentes da Faculdade de Ciências Naturais, acompanhou algumas obras de instalação desses equipamentos e constatou que os mesmos são colocados tendo em conta a precipitação máxima que se pode registar num dia. Um dos grandes problemas tem a ver com a falta de manutenção regular e eficaz desses equipamentos. As infra-estruturas de saneamento básico só funcionam de forma eficiente com manutenção. Nós, os geólogos que trabalham no ordenamento do território, fazemos sempre essa fotografia e apresentamos a quem de direito. Com as informações apresentadas numa Cartografia Geotécnica, chama-se a atenção para os riscos e perigos da ocupação de uma determinada área.


"Nós devemos ser desafiados a ajudar a propor soluções”


A ausência de planeamento e ordenamento territorial pode ser um factor de risco hidrológico?

Não, não está sempre associado. Estamos a levar a cabo um mapeamento, no Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências Naturais, e nele estão incluídas as áreas susceptíveis de inundar. Estão incluídos ainda outros aspectos, como a Litologia (ciência que estuda as rochas, incluindo a origem, idade, composição, estrutura e distribuição no planeta). Construir no Cazenga não é o mesmo que construir na Cidade do Kilamba, por serem áreas que apresentam situações litológicas diferentes, devido às características intrínsecas dos próprios materiais.


Qual é a realidade de Angola ou, pelo menos, das localidades que estão no centro das investigações do Departamento de Ensino e Investigação (DEI) de Geologia da Faculdade de Ciências Naturais da Universidade Agostinho Neto?

A "Geologia das Áreas Urbanas” é um projecto que surge para fazer cartografia, mapeamento, delimitação, incluindo as áreas de risco, para a produção de uma Carta Geotécnica. Existe, ainda, o Plano Nacional de Geologia (PlanaGeo), do qual consta, entre outras tarefas, a realização de estudos geotécnicos, com a colaboração da Faculdade de Ciências, responsável pela elaboração das cartas geotécnicas. O PlanaGeo, aprovado numa resolução, pode ser extensivo a todo o território angolano, sobretudo, nas províncias mais afectadas por vários tipos de riscos, entre os quais o de inundação, nomeadamente Luanda, Bengo, Benguela, Bié, Cuando Cubango, Cunene, Huíla, Cuanza-Norte, Cuanza-Sul, Moxico e Namibe.


Qual é a província onde mais se registam inundações?

Destaca-se a província de Luanda, onde os problemas são pontuais. Temos a seguir, e mais recentemente, Benguela e, algumas vezes, o Cunene, tanto por cheias e por seca, um fenómeno contrário ao da nossa abordagem.


Os riscos de inundações estudados pelos investigadores da Faculdade de Ciências Naturais são apenas os resultantes de cheias de rios ou, também, da água das chuvas que caem sobre as áreas urbanas em Angola, a maioria das quais não está próxima de rios?

No caso específico de Luanda, as inundações são provocadas pelas precipitações (chuvas), porque a capital não tem rio. Já noutras províncias com rio ou atravessadas por rio, a chuva é mais incremento na quantidade de água. Nas províncias com probabilidade e histórico de cheias, elas (cheias) só ocorrem quando há chuva.


O desenvolvimento urbano pode trazer consigo efeitos indesejáveis, extremamente prejudiciais à população, quando associados às alterações sofridas pelo ciclo hidrológico?

A ocupação pelo homem é uma acção que deve ser feita de forma pacífica, porque temos que conhecer o terreno que se ocupa, para que o processo de coabitação e a relação com o meio seja pacífica. Uma ocupação não concertada, de forma pouco consciente, com desrespeito às características e a aptidão de um território, provoca riscos, por isso deve haver sempre um plano bem delineado.


Os resultados das investigações até agora realizadas pela Faculdade de Ciências Naturais da Universidade Agostinho Neto têm contribuído para a criação de políticas, estratégias e planos de prevenção de desastres e de ordenamento territorial na gestão de riscos de inundações?

O modelo que tem sido adoptado para prestarmos serviço não é o mais adequado. Temos sido apenas informados da elaboração de trabalhos ligados à nossa área de especialidade por técnicos de várias instituições, como das administrações locais, e somos chamados a apresentar contribuições. Mas este modelo de colaboração não é o modelo mais correcto para a parceria que precisa de ser desenvolvida em Angola. Nós devemos ser desafiados a ir ao terreno para ajudar a propor soluções. Temos que ser mais partícipes e intervenientes na solução ou na proposta de solução, uma vez que somos sociedade civil. Queremos ser parceiros integrantes para a resolução dos problemas que se verificam um pouco por todo o país. Nós propomos sempre, mas…


Tem sido difícil a aquisição de meios e apoios à investigação?

Os nossos estudos continuam a ser documentais. Mas tem sido possível realizar alguns trabalhos práticos, decorrentes da actividade lectiva normal, no interior da província de Luanda, com o apoio da direcção da Faculdade. Porém, existem algumas limitações que nos impedem de ir a zonas longínquas. Muitas vezes precisamos de adquirir meios e apoios, o que tem sido muito difícil. 


Há dificuldades de apoio para que o trabalho seja feito fora da província de Luanda?

Há dificuldade no orçamento de apoio para os trabalhos de campo. Mas há uma co-participação activa dos estudantes. É importante referir que existem projectos financiados pelo Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação, através da Unidade de Projectos de Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia, e pelo Banco de Desenvolvimento, da República Federal da Alemanha, cujos trabalhos finais resultaram em teses de mestrado e de doutoramento, realizados a nível da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).


Há anos, um responsável do sector da Energia e Águas declarou que o processo de monitorização do comportamento estrutural das barragens não era o mais desejável por falta de recursos humanos e financeiros. O rompimento de uma barragem no Brasil, em 2019, não devia ser encarado pelas autoridades angolanas como um alerta em torno da necessidade de aumento da segurança estrutural das barragens?

Um acidente dessa natureza é sempre um aprendizado e do qual devemos tirar alguma lição. Talvez seja necessário investir num sistema de segurança, que, além de monitorizar, alerta e previne catástrofes do género, caso as nossas barragens apresentem vulnerabilidades.


Tem sido possível quantificar, nas investigações académicas, o impacto negativo para a economia e o ambiente causado por inundações em áreas com potenciais riscos hidrológicos em Angola?

Nós, na Faculdade de Ciências Naturais, não fazemos estudos de impacto de custo, com perdas e prejuízos. Mas essa tarefa é necessária para quantificar o valor da perda. Os economistas e sociólogos têm as respostas e são pouco animadoras, pois existem muitas perdas.


Quanto custa fazer e gerir um sistema de mapeamento de áreas de riscos hidrológicos?

É relativo e complexo. Alguns problemas registados em algumas zonas em Angola não estão assinalados no mapa mundial disponível no site de Gestão de Riscos Naturais, porque a escala é muito pequena.


O Departamento de Ensino e Investigação de Geologia da Faculdade de Ciências Naturais da Universidade Agostinho Neto está bem servido de tecnologia de ponta para o mapeamento de áreas de riscos hidrológicos?

Faltam muitos elementos tecnológicos com capacidade de ajudar no trabalho de mapeamento das áreas de risco. A necessidade de usar equipamentos de última geração é maior, mas para isso deve haver investimento. Precisamos de programas e meios especializados para a aplicação de técnicas que visam permitir um trabalho mais eficiente do investigador. Mas não estamos obcecados pelos equipamentos de última geração. Daí que o nosso trabalho investigativo não cessa, porque nós fazemos ciência.

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