Cultura

Em foco a vida e a obra de Cornélio Caley

Manuel Albano

Jornalista

A plateia do Memorial, composta maioritariamente por estudantes, foi bastante interventiva, o que provocou um debate aceso sobre a vida e obra de Cornélio Caley.

21/11/2021  Última atualização 09H10
Historiador e político Cornélio Caley © Fotografia por: Vigas da Purificação | Edições Novembro
Na narrativa do escritor António Fonseca, que actuou como moderador e apresentador, o evento permitiu trazer à reflexão a história de conquistas graduais de um escritor com créditos firmados tanto ao nível do ensaio como do pensamento histórico e sociológico angolano e ainda da literatura, com as obras "A Rola de Tchingandu”, "Kandundu” e "O Julgamento do Homem”. 


Para António Fonseca, que é também o PCA do MAAN, foi através do texto oral onde tudo começou. "Foi aí que percebi e conheci o autor que em toda a sua obra literária não abdica do recurso ao conhecimento e à tradição ancestral, e, de forma particular, ao texto oral, para trazer para a actualidade muitos elementos matriciais da angolanidade, que, ancorados na diversidade cultural que caracteriza o nosso país, tal como um rio e seus afluentes, constituem os fundamentos sobre os quais se ergue a nação e que, portanto, precisam de ser cada vez mais valorizados e promovidos em favor da paz e do bem estar social”.


Aliás, fundamentou António Fonseca, "para lá do habitual recurso que Ulika faz dos provérbios, do mesmo modo recorre à informação que detém sobre as instituições do poder tradicional e às práticas das sociedades tradicionais que se expressam em umbundo, particularmente das comunidades do Huambo, ou se quisermos, dos antigos reinos do Planalto Central”.


A obra de Timóteo Ulika, disse António Fonseca, pode e deve ser abordada para além do ponto de vista da análise do texto literário, devendo buscar o outro lado ou os outros lados, que por vezes escapam aos especialistas da análise literária.  "Refiro-me à literatura como fonte auxiliar da história, a par da linguística e de outras ciências, tantas vezes esquecidas nessa tarefa, o que leva à persistência dos erros tantas vezes presentes nas fontes escritas coloniais”, alertou.


Divisões sociais

A par das características literárias e estéticas já invocadas por prefaciadores e estudiosos vários, de acordo com António Fonseca, a obra de Timóteo Ulika impõe-se como fonte para a compreensão da História de Angola dos, pelo menos, últimos 60 anos. "A par de documentos escritos e fontes orais, é aconselhável aos estudiosos não descurar a literatura, pois nela poderão encontrar pistas para o entendimento e enquadramento dos factos históricos que pretendem abordar”, recomendou.


O livro "Discursos do Tempo”, argumentou António Fonseca, é um bom exemplo, por permitir ajudar a conhecer o que foi, na verdade, a divisão da nossa sociedade entre indígenas e assimilados, ou, doutra maneira, entre indígenas e cidadãos, processo que em larga medida ajuda a compreender a actualidade linguística angolana.

António Fonseca lembrou que essa divisão, consagrada através do Acto Colonial de 1930 e refinado através do Decreto-Lei nº 39:666, de 2 de Junho de 1954, só viria a ser extinto formalmente em Setembro de 1961, como consequência do início da Luta Armada de Libertação Nacional, situação que no entanto, na realidade, continuou a existir.

 
"Discursos do Tempo”

Para quem, face às dificuldades do quotidiano, romanticamente evoca o tempo colonial como um tempo áureo e de coexistência racial pacífica, António Fonseca convida a ler "Discursos do Tempo”, que é, na verdade, "um conjunto de textos literários de grande alcance histórico que nos permitem compreender a questão do contratado e do contrato, que, envolvendo angariadores de mão de obra barata, forçou muitos sulanos a trabalhar nas fazendas do Norte, em regime de cativeiro gerando conflitos e  incompreensões entre filhos da mesma pátria”.

A Luta de Libertação Nacional, os métodos e tácticas, as formas de organização e do trabalho clandestino, as contradições dentro do sistema da administração e do exército colonial, as alianças e os antagonismos na causa comum contra o regime colonial, a descrença e a esperança, são elementos importantes, segundo António Fonseca, para compreender as situações que estiveram na origem do conflito armado no país e que Timóteo Ulika narra literariamente com mestria. "Há livros que passam despercebidos até que um dia alguém neles repare”, sentenciou.

A obra de Timóteo Ulika, para lá de ser literatura que nos permite grande fruição estética, muito tem para ensinar em termos de conhecimento da história verdadeira, evitando assim que erros se repitam, sublinhou o PCA do MAAN. O conjunto da obra literária do autor, alimentando-se umbilicalmente  da história e da tradição, disse, é também um avivar de muitas memórias. "O escritor, através da literatura traz-nos muitos factos para a compreensão da história contemporânea de Angola”.


Timóteo Ulika por Cornélio Caley (e vice versa)

Na sua intervenção Timóteo Ulika foi bastante cuidadoso, para garantir que o seu discurso pudesse atingir a comprensão dos presentes, a maioria estudantes do Ensino Médio, ancorando-se numa linguagem fluída, clara e com algumas deixas do seu pensamento filosófico.

A entrada para o "clube dos escritores” é, para o escritor, historiador e sociólogo Cornélio Caley   concretizada por incentivo de António Fonseca. Ainda a viver na província do Namibe, em 1979, Timóteo Ulika, acompanhava o programa radiofónico "Antologia”, apresentado por António Fonseca.

A trajectória literária de Timóteo Ulika está assim "umbilicalmente” ligada ao escritor António Fonseca, não sendo possível falar de si mesmo, disse o próprio, sem fazer referência ao amigo, irmão, companheiro e colega de letras. Caley lembrou que na época António Fonseca promoveu um concurso que o levou a meditar se deveria ou não participar. "Decidi enviar um texto, não o meu primeiro escrito, mas foi aquele que mereceu algumas críticas do apresentador do programa ‘Antologia’ no ano de 1979”.

Desde aquela data, encorajado, decidiu levar a peito a escrita. Por orientação de António Fonseca fez arranjos ao ensaio "A Rola de Tchingandu”, que mais tarde, em 1980, foi publicada sob a chancela do Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD). "Foi das mãos de António Fonseca que me lancei no mundo dos escritores, por isso, o meu agradecimento é eterno”.

Segundo Timóteo Ulika, nenhum país entra para a modernidade quando não sabe valorizar a cultura do seu povo, sobretudo as línguas nacionais.  Com uma linha literária endógena, como fez questão de frisar,  Timóteo Ulika disse ser importante que a juventude saiba valorizar a cultura nacional, para conseguir se impor e defender o seu património cultural.  

No contexto da preservação identitária, o escritor descreveu as suas origens e por que optou por Timóteo Ulika como pseudónimo literário. "O meu avô foi ‘Caley Cavalundu’, que significa secretário de Estado do Reino do Bailundo. Quando cresci, as minhas tias chamavam-me ‘Caley Cavalundu’. Com o passar dos tempos decidi assumir-me como um verdadeiro filho do Reino do Bailundo.

Quando assumi o cargo de vice-ministro da Cultura pedi por escrito ao então Presidente da República, José Eduardo dos Santos, que me autorizasse a me identificar com o mesmo nome, embora criasse alguma confusão…”
E explicou que Timóteo Ulika é uma homenagem ao seu falecido pai. "Queria elevar o seu nome como uma forma de o homenagear por tudo que representou para a edificação familiar”, disse.


PERFIL

Cornélio Caley fez mestrado em Estudos Africanos pelo ISCTE, em Lisboa, com um estudo sobre A Problemática do Petróleo em Angola e posteriormente concluiu o doutoramento em Sociologia do Desenvolvimento. É membro da União dos Escritores Angolanos (UEA) e da Academia Angolana de Letras.

Como ficcionista assina com o pseudónimo Timóteo Ulika, tendo publicado as seguintes obras: "A Rola de Tchingandu”, "Kandundu”, "O Julgamento do Homem: Fábula Para Todas as Idades” e "Os Discursos do Tempo”.
Como ensaísta publicou: "Os Petróleos e a Problemática do Desenvolvimento: uma visão económico-social” (2000) e "Contribuição para o pensamento histórico e sociológico angolano - Intervenções e reflexões” (2005).

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