Opinião

Em defesa da integridade moral e física dos jornalistas

Filomeno Manaças

Se há mérito na decisão das direcções da TPA e da TV Zimbo de suspenderem a cobertura das actividades promovidas pela UNITA, na sequência dos incidentes registados na manifestação de sábado, em que jornalistas dessas duas estações de televisão foram molestados e impedidos de trabalhar, ele reside no facto de essa posição obrigar a direcção do partido do “galo negro” ao dever cívico de conduta responsável em relação aos profissionais da Comunicação Social.

17/09/2021  Última atualização 05H40
© Fotografia por: DR
É em absoluto inaceitável e condenável que militantes e simpatizantes de forças políticas dirijam insultos verbais ou de qualquer outra índole contra os jornalistas e ameacem ou ponham em causa a sua integridade física.
Quando essas situações ocorrem, trata-se de uma atitude que revela falta de maturidade política e despreparo para o jogo democrático. As formações políticas têm a obrigação de garantir que o trabalho da Imprensa decorra sem sobressaltos, cabendo às suas lideranças despoletar todos os mecanismos e meios legais ao seu alcance quando entenderem estarem os seus direitos a ser lesados.
A UNITA é, dos partidos da oposição, o que está melhor guarnecido de soluções para, no campo da comunicação social, fazer passar a sua mensagem, o que acentua a ideia de que os incidentes de sábado se encaixaram perfeitamente no ambiente de pré-campanha eleitoral que a liderança de Adalberto da Costa Júnior delineou como algo intrínseco, como mais um elemento do jogo político que tem estado a desenvolver.
Um facto que é particularmente evidente é que, com esta forma de actuação, a UNITA volta a construir uma imagem de marca associada à violência, à intolerância política. A mesma que nas eleições de 92 trouxe problemas ao país depois de o partido fundado por Jonas Savimbi alegar fraude e partir para a recusa dos resultados do pleito eleitoral pela via das armas.
Diante desta realidade, percebe-se - e é bom vincar este ponto -, a legítima atitude da TPA e da TV Zimbo em quererem marcar um "antes e depois” dos incidentes de sábado, 11 de Setembro (um dia triste pelo que ocorreu e, também, infeliz coincidência, pelo aniversário do atentado às torres gémeas…), obrigando a UNITA a tomar uma posição firme e inequívoca no que diz respeito a sua relação com a Imprensa e, em particular, com os profissionais da Comunicação Social.
A posição da TPA e da TV Zimbo de suspenderem a cobertura das actividades da UNITA não agradou algumas sensibilidades, mas a verdade é que, olhando para o caso e avaliando o risco de tratá-lo como algo de importância menor, como mais um "fait divers”, damo-nos conta de que estaríamos a banalizá-lo e a admitir que, com a mesma permissividade, outros eventos do género se produzam no futuro. E porque o mal deve ser cortado pela raiz; e porque, ao fim e ao cabo, todos os profissionais da Comunicação Social acabarão por beneficiar dos seus efeitos positivos, a solidariedade para com a TPA e a TV Zimbo não deve estar sequer em discussão.
Os jornalistas devem poder cobrir a pré-campanha, a campanha e as eleições sem qualquer tipo de constrangimentos de ordem política, salvo os legalmente estabelecidos, independentemente da linha e das práticas editoriais do órgão de comunicação social a que pertençam. Não devem ser hostilizados por pertencerem a este ou aquele órgão. É assim que se passa nos países onde fomos beber a democracia que está implantada como sistema no nosso país.
Lá, os jornalistas têm as mais diversas opiniões, umas favoráveis a um ou outro candidato, a uma ou outra formação política, o que enriquece a democracia, e assim vai andando a vida sem que alguém tenha de lhes apontar o dedo, ameaçar ou bloquear o exercício da profissão.
Este período de pré-campanha eleitoral é o apropriado para definir o tipo de eleições que queremos ter em 2022. Angola inteira não quer a repetição da experiência amarga do pleito de 1992, que foi pontilhado por cenas de violência durante a pré-campanha e na campanha eleitoral, protagonizadas pela UNITA, que foi subindo de tom na intolerância até desembocar nas ameaças de somalização do país feitas por Abel Chivukuvuku. É bom que falemos disso agora e sem tabu porque, ao fim de todos os anos de guerra que o país viveu, e depois de termos conquistado a paz em 2000 e realizado eleições tranquilas em 2008, 2012 e 2017, voltou a estar de novo no ar a ameaça de caos no pleito de 2022. Isso porque, mesmo sem irmos ainda às urnas, a UNITA e os seus parceiros já cantam vitória antecipada, já falam de fraude se não ganharem e a intimidação aos profissionais da Comunicação Social é mais um claro sinal da cultura de intolerância. Ela (a intolerância) está a ser fermentada por gente com responsabilidades na UNITA. É uma percepção que ficou patente, também, nas redes sociais, através do apoio ao golpe de Estado recente na República da Guiné e do estabelecimento de comparações forçadas entre aquele país e Angola.
Portanto e por tudo isso, é (era) preciso estabelecer um antes e depois dos incidentes de 11 de Setembro. Por isso, é de aplaudir o encontro que as direcções da TPA, da TV Zimbo e da UNITA tiveram, promovido pelo Ministério das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, e os entendimentos alcançados, no sentido de se privilegiar sempre o diálogo para resolver qualquer diferendo.

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