Opinião

Em busca do silêncio perdido

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Não sei bem como, nem quando o perdemos e se, por acaso, ainda o podemos reencontrar, algures, impondo normas à convivência, educando a sociedade de outra maneira.

27/07/2021  Última atualização 08H05
De um dia para o outro permitimos que houvesse mais barulho, sem nos importarmos de que uma das coisas que mais incomoda aos vizinhos de qualquer bairro, rua, condomínio ou prédio é quando, em horários e em momentos nada apropriados, um ou vários deles "obrigam” os outros a ouvirem música alta e de géneros, muitas vezes, nas antípodas do que os outros gostam ou até mesmo consideram como música e, ainda por cima, muitas vezes, sem aviso prévio.

Geralmente, quando isto acontece dá-se o caso que, mesmo quando o que os outros querem é, mesmo, a falta de critério e de uma educação musical que nem podemos considerar de básica, estarem em silêncio, se conformam com isso, se for possível, pelo menos, que os ponham a ouvir músicas que não fujam muito dos seus gostos, para que possam aguentar aquela circunstância, em parte, despropositada e, vezes sem conta, inesperada.

O correcto seria que quando pusesse música, cada vizinho o fizesse para si num volume que se circunscrevesse à sua moradia, ao âmbito familiar e, neste sentido, às características da casa, do tipo de muro e de paredes ou até mesmo o tipo de janelas e portas que tem, muitas vezes, ajudariam a insonorizá-las o suficiente como para que, quando o ruído não fosse exagerado, ninguém desse por ele. De um modo geral, ainda estamos longe deste patamar.

O certo é que, quando acontece o que vimos contando no bairro, na rua, no condomínio ou no prédio, - muitas vezes há mais do que dois vizinhos a darem o seu show -, a maior parte das pessoas não sabe lá muito bem o que fazer, assume a afronta, se possível  junta-se à festa ou, simplesmente, se resigna, dada a falta de alternativas para além da opção, quase sempre de último recurso, que é queixar-se à Polícia.

Há quem nestas circunstâncias de altíssima poluição sonora, com a música posta para furar qualquer tímpano, não consegue ler em condições, nem estar suficientemente concentrado e sereno para fazer qualquer outra coisa e, então, fecha-se em copas, à espera do dia em que possa retribuir pela  mesma moeda.

 Outros há que, quando há música alta na sua vizinhança, muitas vezes optam por ver um filme e levantar o volume do televisor tão alto como para que, ao menos na sala da nossa casa, a única banda sonora que se ouça seja a do filme: o fazem como um modo de confrontação já que, mesmo assim, assiste o filme constrangido, numa bolha barulhenta, isso até pode acontecer com mais frequência aos fins-de-semana.

Ao longo da semana, a dinâmica é outra e, normalmente, há menos barulho. Nas estradas mais próximas das casas, os carros passam acelerados e tão indiscretos que é como se, mais bem arrotassem, são eles que, para muitos de nós, anunciam o amanhecer do dia, despertam parte da vizinhança, enquanto a outra parte ouve o barulho dos veículos como se fosse algo que lhes dissesse respeito: sabem identificá-los perfeitamente, mas não os consideram nocivos nem incomodativos.

Depois há aqueles barulhos de proximidade, quando confundindo autoridade com exagero confrontamo-nos, diariamente, com pessoas que falam a gritar: elas só nos assustam com os seus maus modos e as suas maneiras. Em nossa casa ou na do vizinho ao lado ouvimos como portas que abrem ou fecham de modo estrondoso e até o volume do televisor sobe ou desce a seu bel-prazer.
Estamos habituados ao barulho, mas talvez nos fizesse bem reencontrar o silêncio perdido e reflectirmos melhor sobre a convivência colectiva e a educação individual que necessitamos.

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