Sociedade

Elisabete Ferraz André: “Nunca me deixei vencer”

Rui Ramos

Jornalista

Elisabete Ferraz André, de 30 anos de idade, nasceu no bairro Canivete, Cazenga, Luanda, onde viveu até aos oito anos. “Eu sou irmã mais velha de três irmãos, e tenho grande responsabilidade na vida deles.”

18/07/2021  Última atualização 07H40
© Fotografia por: DR
Fez o ensino primário na escola 24 e, depois, muda-se para o Golfe, devido a desentendimentos familiares, e no novo bairro deu continuidade aos estudos nas escolas 627, 618 e 619.
Elisabete Ferraz André termina o ensino de base, em 2005, e quer estudar Jornalismo no IMEL (Instituto Médio de Economia de Luanda), mas sem êxito.

"Na altura, para fazer a inscrição, cobravam 500 dólares, e a minha mãe, Maria de Lourdes Samuel Ferraz, que cuidou de nós e nos sustentou sozinha, viu o meu sonho frustrado mesmo depois de ter feito alguns pequenos negócios e vendido alguns bens para me matricular”, conta.
Desde criança, diz-nos Elisabete Ferraz André, sempre foi muito faladora, leitora e aluna aplicada, em especial em Língua Portuguesa. "O professor João, da 4ª classe, dizia à minha mãe que eu era sempre destacada nas leituras e nas redacções.”

Na adolescência, gostava de ir passar férias e fins-de-semana na Samba, em casa do tio Tito Samuel Ferraz e dos primos, com quem aprendeu a falar correctamente em português, etiqueta e boas maneiras.
"Nessa altura, eu profetizei que ia ser jornalista e o sonho realizou-se, pois sou jornalista há quatro anos.”

Era ouvinte assídua de todas as rádios e televisões e tentou sempre aprender. "Fui humilhada, rejeitada e recebi, até, palavras depreciativas, mas nunca desisti, porque sempre acreditei em mim, no meu talento e potencial.”
A mãe era o seu ponto de apoio, mesmo nas situações menos boas, pois, ajudava a filha com dinheiro para apanhar transporte quando Elisabete Ferraz André ia aos "castings”, seminários e palestras.

Em 2008, depois de reprovada num "casting”, fala com o radialista Adilson Santos, que fazia o programa "Inédito FM”, e conta-lhe o seu sonho. Este profissional, mesmo sem a conhecer, aceitou-a como assistente de produção do programa, por dois anos.
E, Elisabete Ferraz André nunca parou. A seguir faz outra tentativa, mas, desta vez, no projecto "Eu na TV”, da Semba Comunicação, com boa apreciação de Rui Unas, que, com Mara D'Alva, Pedro Nzaji e Sérgio Rodrigues, constituíam o júri.

Um dia, a Rádio Mais precisava de um substituto de Armindo Laureano, para ir ao Cuando Cubango apresentar o "Natal Infantil” e, como ela estava presente, avançou. "Foi a minha primeira experiência na comunicação social. Viajei com o DJ Sadé e o Carlos Kapapa”.
Em 2014, conhece Janeth Samuel, na altura, formanda do "Cena Livre”, projecto teatral do jornalista Walter Cristóvão Benza, que formava actores.

"Eu já era ouvinte da primeira temporada do programa ‘Show do Walter’, na Rádio Ecclésia, em 2016, e ele sentiu necessidade de remodelar o programa e fez-me o convite para ser auxiliar de estúdio. Fizemos o programa durante um ano, numa altura em que estive grávida do meu primeiro filho, mas não desisti.”

Dois anos depois, surge o convite para trabalhar como repórter na revista "Lux”, o que considera o melhor momento da sua carreira profissional.
"Quando vi na capa da "Lux” a matéria que fiz com a actriz Neide Van-Dúnem emocionei-me”, disse para avançar ter sido um momento único e memorável, que guardará para toda a vida.

"Há 26 anos, eu era muito pequena, mas lembro-me quando morávamos na nossa própria casa, no Cazenga, com a minha mãe e tivemos de sair porque pessoas muito próximas de nós decidiram, por maldade, partir a casa que se construiu com muito suor e sacrifício.”
Triste, Elisabete lembra-se de quando a mãe abandonou a casa, para ir morar no templo de um a seita religiosa. "Fomos abandonados à nossa sorte e dispersos, mais uma vez, vi o meu futuro e o dos meus irmãos acabado.”

Os momentos difíceis para Elisabete nunca terminam, explica, "porque somos sempre confrontados com situações menos boas e que não esperamos”.
Actualmente, diz, o mais difícil é ver a mãe sofrer, tentando fazer pequenos negócios. "Eu não consigo ajudar como desejo, porque tal como a minha mãe nos criou sem um pai ao lado, eu, também, crio o meu filho sozinha.”

A mãe foi uma das primeiras vendedoras do Mercado Asa Branca, no Cazenga, onde vendia calçado dos fardos e era kinguila até que a vida dela foi destruída por familiares próximos.
A partir daí, diz que a família começou a viver um calvário. Com a mãe foi obrigada a vender kissangua, gasosa, velas, massa de tomate, sumos, batata-doce, no Mercado do Divórcio, negócios que levaram, igualmente, aos Correios e Simione, neste último, onde vive a progenitora.

Actualmente, Elisabete Ferraz André é redactora e repórter de um portal, cujo nome não revela. "Como qualquer jovem, tenho sonhos, ainda não os realizei todos. Quero trabalhar num canal de televisão como apresentadora e repórter.”

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