Cultura

“Elisa, gomara saia”, a bandeira da marrabenta

A primeira e única vez que pisei o solo angolano foi em 2002, integrado na delegação da Rádio Moçambique à Conferência da SABA, a associação das radiodifusoras australo-africanas à sombra da SADC. Aproveitei todos os momentos de descomprometimento oficial para conhecer a cidade de Luanda, querida dos moçambicanos, em particular pelas suas cantigas e intérpretes, e também pela sua pujante literatura. Claro que no meu caso, já mais velhinho que muitos, falo, no que à música diz respeito, do Rui Mingas, Duo Ouro Negro, Teta Lando, Waldemar Bastos ou dos Ngola Ritmo.

06/06/2021  Última atualização 10H26
© Fotografia por: DR
Em Luanda fiz amigos e com eles calcorreei a urbe, conhecendo alguns dos seus ícones culturais, como, por exemplo, o Teta Lando e o Kituxi.
À mesa do seu complexo hoteleiro, falei ao Lando e ao amigo que me acompanhava da grande devoção que os moçambicanos dedicam à música angolana, dando ênfase ao facto de a expressão desse devotamento ter ocorrido no período anterior à Independência, o que não queria dizer que se tivesse atenuado depois.

Contrariamente, e isso já no cômputo geral da minha permanência em Luanda, não tive correspondência dos angolanos no que ao conhecimento da canção moçambicana dizia respeito. O único, e mesmo assim periclitante momento de satisfação por mim vivido foi quando um grupo de jovens presente num momento cultural colorido pela banda Kituxi resolveu exteriorizar o pouco que sabia da canção moçambicana. Lá a custo balbuciou uma estrofe da mítica canção do grupo moçambicano Djambu, "Elisa Gomara Saia”. Ainda assim, apercebi-me de imediato, as jovens não haviam bebido a estrofe da fonte, tinham-na adquirido a partir da versão do Duo Ouro Negro.

Elisa wé, Elisa wê / Elisa wê, gomara saia / A ma rapaji ni mapopa / A va minina ni Marrabenta…
(Elisa, põe a goma na saia / Os rapazes com as suas popas / E as meninas com a Marrabenta…)
Soube a pouco, pior ainda para quem vinha de um país que consome, e muito, a canção angolana. Não sendo propriamente por isso, resolvi trazer para este espaço umas linhas sobre a Marrabenta, provavelmente tida como a mais representativa canção e dança moçambicanas.
Há muitas e variadas teses sobre o aparecimento da Marrabenta na arena cultural moçambicana. João Domingos, tido com o maior percursor da Marrabenta, através da banda que exibia o seu nome, ou seja, o conjunto "João Domingos”, distingue a designação que a dança veio a ter, a Marrabenta, da denominação de que proveio, a Zucuta.

Segundo João Domingos, é da Zucuta que evoluiu a Marrabenta, também por então chamada magica. Mas se Zucuta era uma forma de dançar, Marrabenta significava, apenas e por corruptela do que se dizia nos momentos de êxtase, "dançar [zucuta] até rebentar». Para a designação da dança, foi a frase, folclórica e mais afeita à língua portuguesa, que triunfou: marrabenta!


O princípio

Tudo tem um princípio, e a Zucuta e a Marrabenta, como não podia deixar de ser, tiveram os seus primórdios. Em vida, João Domingos Maurício, de seu nome completo, fez por explicar, em múltiplas ocasiões, a origem da Zucuta e da Marrabenta, chamando para o caso as suas próprias origens e percurso de vida.

João Domingos nasceu e cresceu em Inharrime, Inhambane, a província mais a norte do Sul de Moçambique, onde teve contactos com a Timbila (da classe dos xilofones) e o Xinveca (um estilo musical desenvolvido à base de flautas de bambu tocadas por dezenas de jovens e em múltiplas notas). Para João Domingos, a Timbila e o Xinveca terão sido o ponto de partida para o surgimento da Zucuta que, por sua vez, deu origem à Marrabenta, ou Magica, como também se designava. Significa isto que ao radicar-se em Lourenço Marques, como então se chamava a actual cidade de Maputo, João Domingos não se deparou com a Marrabenta, mas antes se transformou no fio condutor da Zucuta, que veio a chamar-se Marrabenta e pela forma curiosa já aqui referida: "dançar [zucuta] até rebentar”!

Em Lourenço Marques e em tempo ainda da vigência do colonialismo, pois falamos do final da década de 1950, a Marrabenta não se firmou com a facilidade com que se ajustaram outros estilos musicais, nomeadamente estrangeiros. Enfrentou o desprezo, mesmo entre os autóctones, principalmente aqueles que evoluíam na controversa assimilação. Mas as duas agremiações de pendor nacionalista acolheram a Marrabenta e transformaram-na numa espécie de cavalo de batalha para as suas reivindicações políticas, sociais e culturais. Foram elas a Associação Africana de Lourenço Marques e o Centro Associativo dos Negros da Província de Moçambique.

Cada uma destas agremiações teve a sua banda de Marrabenta: o conjunto "João Domingos”, colado à Associação Africana, e o grupo "Djambo”, do Centro Associativo.

Ao contrário do que se pode imaginar, as duas bandas colaboraram entre si, quer na criação, quer na estilização da Marrabenta, e até organizando espectáculos conjuntos, onde pontificavam os seus mais representativos dançarinos: Alfredo (Fedo) Caliano e Ilarne Tajú, pelo conjunto "João Domingos”, e Sandia Issá (Muchina) e António William, pela banda "Djambo”. Uma das canções saídas dessa colaboração, quiçá a mais famosa de todas elas, é, justamente, "Elisa, gomara saia”, em Angola e no mundo tornada famosa pelas vozes do Duo Ouro Negro.

*Escritor moçambicano
Luís Loforte |*

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