Opinião

Eleições israelitas um referendo a Netanyahu

Amanhã, os israelitas são chamados às urnas naquelas que estão a ser encaradas como as mais disputadas eleições legislativas dos últimos 20 anos, numa altura em que, com os partidos de esquerda em "debandada", a disputa parece envolver mais directamente os partidos de direita e os de centro, para a eleição do 35 º Governo de Israel.

08/04/2019  Última atualização 18H03

O partido Likud, liderado por Benjamin Netanyahu, de ideologia marcadamente de direita, conservadora e nacionalista, parece estar melhor colocado para vencer as eleições, independentemente dos problemas judiciais do seu líder. Os outros partidos que lutam pelos 120 lugares do Knesset (o parlamento israelita), pelo menos pela maioria simples, os 61 lugares, são nomeadamente o histórico partido Trabalhista, liberal democrático e progressista, de Avi Gabbay, a Nova Direita de Naftali Bennett e o "Israel a Nossa Casa" de Avigdor Lieberman, apenas para citar estes, os mais representativos, num rol de treze partidos.
O partido Resiliência de Israel, formação política criada em Dezembro de 2018 por Benny Gantz, ex-chefe do Estado Maior das Forças de Defesa de Israel, que se assume como uma estrela ascendente da política israelita, coligado com outras formações políticas na denominação "Blue White", parece estar também bem colocado para abalar o Likud de Netanyahu.
O primeiro-ministro cessante, que luta pela quinta vez pela sua própria sucessão, igualmente a braços com problemas judiciais, tudo faz para ver a sua reeleição assegurada, inclusive com jogadas fortes ao nível da política externa. Há dias, Benjamin Netanyahu, tido como dos mais bem posicionados governantes israelitas para fazer a paz com os palestinos em detrimento dos seus adversários de esquerda, conseguiu ganhos inesperados. De forma inusitada e quando o mundo se opõe de forma aberta às interferências nas eleições dos Estados, Benjamin Netanyahu foi a Washington "receber de bandeja" o reconhecimento americano à alegada soberania sobre os Montes Golãs sírios, ocupado em Junho de 1967. Em véspera de eleições, tradicionalmente os primeiros-ministros de Israel nunca fazem visitas que podem ser sempre encaradas como eleitoralmente tendenciosas, mas desta vez parece que a intenção não foi unilateral. A Administração Trump tomou, claramente, partido a favor de Netanyahu, como era mais ou menos de esperar independentemente das makas judiciais desaconselharem. E como se não bastasse, Netanyahu rumou depois para a Rússia, onde foi concertar posições políticas, diplomáticas e militares com Vladimir Putin, líder russo. Essas jogadas são importantes para dar garantias de que apenas ele pode atestar um Estado de Israel seguro, forte e poderoso para lidar com inimigos perigosos. Curiosamente, o general Benny Gantz também está a ser apresentado assim e nalgumas sondagens parece estar muito bem colocado para obter bons resultados nestas eleições. Mas como a História da política israelita tem provado, não basta ser general para dar garantias de condução da política de Estado com provas efectivas de segurança.
Nestas eleições, vão às urnas mais de seis milhões de eleitores a uma única volta num sistema eleitoral em que contam as listas partidárias. O sistema político israelita permite ao partido que obtiver maioria parlamentar, e não necessariamente o partido que sair vitorioso das eleições, formar Governo, razão pela qual não apenas os partidos maioritários são relevantes, mas igualmente os menos expressivos. Numa altura em que nada indica que o Likud de Benjamin Netanyahu venha a ganhar as eleições com maioria simples, obtendo os 61 lugares, nada igualmente indica que a oposição venha obter iguais números ou superiores, logo o próximo Governo vai voltar a ser de coligação. Esta perspectiva, de um Governo de coligação à direita, ao centro ou, num cenário muito pouco provável, à esquerda, acaba por contribuir para "amarrar" todas as possibilidades ligadas à resolução do conflito israelo-palestiniano.
Hoje, a sociedade israelita tende para a direita, os partidos religiosos ganham terreno como nunca antes e todas as possibilidades de Netanyahu, à direita, Benny Gantz, ao centro, ou mesmo Avi Gabbay, à esquerda, ser eleito primeiro-ministro, vai sempre ser acompanhada de endurecimento da política governamental. Aliás, os políticos que concorrem às eleições legislativas que decorrem amanhã há muito que entendem a linguagem que o eleitor comum quer ouvir, nomeadamente "fortalecer os blocos de assentamentos, reter os Montes Golãs, a promessa de Jerusalém unida, enfrentar o Irão, entre outras promessas.
Em todas as questões que predominam nestas eleições legislativas, o elemento segurança acaba por transformar-se num dos factores determinantes, quase ao ponto de se esquecerem de outras igualmente relevantes, como a corrupção na vida política israelita. Não é em vão que Benjamin Netanyahu tenta, a todo o custo, apresentar-se como o único candidato que consegue dar garantias de segurança aos seus compatriotas e ao país. E se assim for a tendência, não há dúvidas de que Netanyahu ganha, com maior ou menor dificuldades, nestas eleições que, como todo o mundo enxerga, vão servir como referendo ao próprio Netanyahu.

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