Opinião

Eleger uma economia saudável

Apusindo Nhari

Jornalista

Caminhava como habitualmente, lutando por manter a saúde apesar da exposição à multidimensional insalubridade a que a sua caminhada o expunha diariamente.

26/06/2022  Última atualização 09H45

Estacou! O gesto do jovem que, de forma corajosa, confrontava os agentes de cassetete a reprimir as vendedoras de rua, tocou-o, pelo que tinha de inglório, e simultaneamente heróico. Aquela coragem contagiou-o. Acercou-se também do agente que tentava impor a noção de ordem que lhe teriam inculcado...– «O senhor não vê que estas senhoras estão apenas a lutar para levar de comer para os filhos que ficaram em casa?».

– «Pode ser… mas é proibido vender aqui! Elas devem ir vender na praça, lá no bairro. Aqui, nestas zonas dos chefes fica feio e o comandante já disse que não posso lhes permitir»– defendeu-se o agente.

As senhoras, ágeis e pragmáticas, já tinham ido para longe vender noutro local, de onde certamente haveriam de ser corridas mais tarde.

– «Fazes sempre isso, ó jovem?»–Nando apresentou-se a Ngola e seguiram caminhando.

– «Li que há países onde deitam fora produtos, para manter os preços, e outros onde fazem combates de rua com tomate… tanto desperdício! Nós desperdiçamos as pessoas…»– comentou Ngola, justificando a sua intervenção– «Numa zona onde abunda a riqueza de uns, dói a abundância de pobreza…»– dizia enquanto olhava para os prédios brilhantes que se reflectiam no mar, e para os carrões reluzentes que passavam a alta velocidade.

– «Não se iluda, muita dessa abundância é apenas aparente… nesses carros e nessas casas há muito assalariado, ainda que sendo ‘técnico superior’, até ganha bem!Comparado com aquelas senhoras que estavam a ser empurradas...Mas só com ´muita ginástica’ consegue pagar as despesas fixas mensais».

Nando acrescentou:– «E o problema não é só nosso, meu jovem. Ainda há duas semanas li um relatório da OXFAM que afirmava que no mundo os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres numa luta, cada vez mais dura, para sobreviverem…e que a CoViD ainda agravou a situação».

– «O Kota me desculpe mas esses dramas mundiais, embora também me preocupem… os nossos é que me tiram o sono. Estamos a imitar o resto do mundo? Não devíamos!».

– «Não é bem assim. Em muitos países não há tanta desigualdade como entre nós. E com economias mais saudáveis que a nossa»– moderou Nando.

– «Economiassaudáveis quer dizer o quê? Que funcionam para servir as pessoas? Se 'economia'já implica pura competição, um campo de batalha para ver quem sai a ganhar?–disse Ngola, ainda meio confuso– «Para mim economia só é saudável onde todos estão a trabalhar, a progredir e com planos para melhorar a sua vida e a da sua família».

– «Digo 'mais saudáveis' no sentido em que possuem muitas empresas nacionais, de vários tamanhos e interligadas. Aquilo a que se chama de micro, pequenas e médias empresas, algumas até de base familiar. Mas também têm grandes. E as cooperativas! Quando essas se complementam, produzem, geram rendimentos e pagam os seus impostos, o Estado presta os serviços necessários».

Ngola pensou naquilo que vê hoje, a repressão de trabalhadores em Caculo Cabaça, no 1º de Maio onde houvemédicos e professores universitários em greve mas nem lhes deixaram falar nos jornais ou na televisão, as discussões sobre o salário mínimo, o que acabara de ver de como se tratam os vendedores de rua… e perguntou:

– «Será que algum dia teremos isso que está a descrever, Kota? E agora com as eleições estaremos também a escolher o modelo económico que vamos seguir?».

– «Esse debate não existe, infelizmente…»–diz Nando, nostálgico – «de defender modelos diferentes. Defender ideias! De qualquer maneira neste contexto não me interessa o tal modelo que dizem defender! Quero é que se proteja o que é nacional: os consumidores, os produtores, os investidores, mesmo os do informal.E que sejam honestos!».

– «Sabe, Kota, sonho com ver a nossa economia a desenvolver-se como os artesãos que constroem aqueles tapetes e esteiras que vemos à beira da estrada”.

– «Gostei do que dizes, mas é sonho …!?»–surpreendeu-se Nando.

– «Não! refiro-me à capacidade para aproveitar o que se tem, pegar num monte de pequenas fibras e entrelaçá-las tornando o todo algo forte e bonito de se ver».

– «Ideia bonita, ó miúdo, afinal tens veia poética… Desde que consigam ir inovando também nos padrões, no material que usam e até no que fazem… não fazerem só as mesmas esteiras… mas também chapéus, abajours, forros para assento,...»–aprofundando o paralelo entre economia e tecelagem.

Levado pela conversa, Nando já se tinha afastado bastante do seu trajecto habitual, e decidiu voltar. Despediram-se, mas ligados pelo sonho comum de uma economia saudável com cooperativas, micro, pequenas e médias empresas, tecnologia apropriada, produtividade, sem esquecer o bem-estar rural.

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