Entrevista

Entrevista

Eldevina Materula: “Parte do que sou tem influência angolana”

Eldevina Materula cimentou o seu percurso na música tanto como oboísta como pelo seu papel de principal artífice do projecto Xiquitsi – de educação através da música – similar ao projecto Kapossoka, em Angola.Desde Janeiro de 2020 ministra da Cultura e Turismo de Moçambique, Edelvina Materula, em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, via e-mail, fala do estado actual do sector que dirige, e como não podia deixar de ser, das relações entre Moçambique e Angola, que, como sublinha, “datam desde os tempos das lutas de libertação nacionais que nos foram impostas pelo colonialismo”. Manifestando-se conhecedora dos aspectos relevantes da cultura angolana, Eldevina Materula afirma, categoricamente, que os músicos e os escritores angolanos e moçambicanos “estão ‘condenados’ a conviver com a música e a literatura de um e de outro”

07/06/2020  Última atualização 16H18
Edições Novembro

Em grandes pinceladas, pode dizer-nos que situação encontrou no sector e quais os principais objectivos que se propõe alcançar, na presente legislatura?

Encontrei um sector que tem ainda muitos desafios, mas estruturado e com recursos humanos capazes de vencer esses mesmos desafios.

A nossa bússola é o Plano Quinquenal do Governo 2020-2025, mas, a par disso, temos objectivos igualmente ambiciosos, refiro-me, por exemplo, a criação de estatísticas da cultura, que vão nos permitir saber quem é quem, onde está e que faz, que contribuição faz para os cofres de Estado, qual é a sua situação em relação a segurança social e, para o efeito, iniciamos já com o mapeamento que deverá concorrer para a criação do banco de dados para que o sector conste da Contabilidade Nacional.

As estatísticas da cultura irão permitir uma melhor planificação para o sector. Vamos igualmente rever alguma legislação para melhor protecção da propriedade intelectual e dos artistas e fazedores da cultura, para regularizar e definir as carreiras vs carteiras profissionais, a Lei do Mecenato e proceder a sua regulamentação, entre outros instrumentos imprescindíveis que permitam catapultar as indústrias culturais e criativas para que sejam vistas e actuem como um verdadeiro activo económico. Para já, começamos com a Revisão da Lei dos Direitos de Autor e Direitos Conexos, que vai ao Conselho de Ministros, agora, no mês de Junho.

Um dos grandes desafios com que se confrontam o Ministério da Cultura e Turismo, em Moçambique e o Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente em Angola é, certamente, o problema das infra-estruturas para gestão e promoção das artes e da cultura: da pesada herança colonial, ao redimensionamento no período pós-independência e à sua necessária adequação ao mundo de hoje. Como é que esta questão é encarada, pelo ministério que dirige?

Não podemos continuar a falar da herança colonial. O desafio é nosso e temos de encontrar formas de ultrapassar o problema das infra-estruturas para gestão e promoção das artes. Todo e qualquer problema resolve-se com os Recursos Humanos. Por conseguinte, é preciso investir muito na formação de Recursos Humanos sensíveis à Cultura e Turismo. É preciso que os recursos humanos adstritos a este sector percebam e conheçam a importância das artes e da cultura parao Homem. Aí sim, vamos saber maximizar a gestão das poucas infra-estruturas, projectar outras com conhecimento da causa e, por fim, promover as artes e a cultura para o desenvolvimento. Portanto, a problemática das infra-estruturas para gestão e promoção das artes e cultura é encarada com muita responsabilidade pelo sector que dirijo.

Em Moçambique, tal como em Angola, no governo a Cultura está “casada” com o Turismo. No seu país como é que as duas áreas se articulam, em termos estratégicos?

Se é um casamento, então é daqueles “casamentos perfeitos”. Em termos pragmáticos não existe turismo sem cultura. Turismo não são as camas do hotel, praia, o restaurante. O Turismo é gastronomia, música, dança,escultura, a forma de receber os hóspedes, a forma de servir, a forma de tratar a praia e preservar as espécies marinhas e faunísticas e isso é cultura. Por conseguinte, não aceito muito a expressão“se articulam”; andam juntos e não deve um deixar o outro. Por isso, em Moçambique já começamos a assumir isso, aliás, temos algumas expressões artísticas cujos fazedores quando não aparece o turista (estrangeiro) não se sentem realizados porque este é que é o consumidor e comprador das suas obras. A arte Makonde, os batiques, a gastronomia não podem faltar no Turismo.

Quais são as experiências culturais muito bem-sucedidas no seu país e que apresentaria a África como exemplos a seguir?

Temos que recuperar, certamente já tiveram a oportunidade de ouvir ou ver, a Companhia Nacional de Canto e Dança. Esta é uma experiência cultural bem-sucedida que apresentaria a África e não só, aliás, brilhou em grandes palcos do mundo incluindo o destruído “World Trade Centre”, como exemplo, mas infelizmente acabou parando no tempo, mas estamos para recuperar, é um património nacional que deve continuar vivo ou dar vida.

Mas há mais experiências bem sucedidas como as companhias de Teatro Mutumbela Gogo, Gungu, os agrupamentos musicais Timbila Muzimba, os músicos Moreira Chonguiça, Jimmy Dludlu, Stewart Sukuma, Wazimbo, sem nunca nos esquecermos do incontornável Mestre Malangatana, Pompílio Gemuce, entre muitos outros que não estão aqui mencionados. Somos sem dúvida um país orgulhosamente rico em cultura.

Como todos sabemos, com mais ou menos força, a pandemia daCovid-19 impactou a maior parte dos países, tanto do ponto de vista social e económico como, sobretudo, do ponto de vista cultural. Sabemos que o ministério que dirige desenhou e está a implementar um plano de contingência, - que, por certo, foi muito comentado nas redes sociais frequentadas por artistas angolanos - pode falar-nos pormenorizadamente acerca dele?

É o Projecto Arte no Quintal. Este Projecto é uma iniciativa Ministério da Cultura e Turismo, que dirijo, e Galeria do Porto de Maputo, nesta fase beneficia do patrocínio da UNESCO, Banco ABSA e apoio do Fundac e visa, neste momento da pandemia do Covid-19, entreter as famílias que estão confinadas em casa em cumprimento das medidas do Estado de Emergência declaradas pelo nosso Governo e apoiar financeiramente aos artistas que, por motivos óbvios, estão privados de exercer a sua profissão de forma regular. Significa isso que os espectáculos são gravados e difundidos online com recurso a plataformas digitais e esperamos,em breve trecho, incluir a nossa Televisão Pública, TVM, quer o canal nacional, quer o canal internacional.

Olhando para o seu percurso como músico, especialmente tanto como oboísta como depois do seu labor como principal artífice do projecto Xiquitsi – um projecto que é, sobretudo, de educação através da música –, muito parecido ao que, em Angola, é conhecido como o projecto da orquestra Kapossoka, que percepção é que a Senhora Ministra tem da importância da Educação Artística? Qual é, de um modo geral, o estado do ensino das artes em Moçambique?

Toda aminha infância foi de música e nesse percurso de formação, desde Moçambique até Portugal, onde me especializei como oboísta, o meu desejo foi sempre de devolver aquilo que outros me deram. E encontrei no Projecto Xiquitsi uma forma de fazer isso. A EducaçãoArtística tem uma contribuição incomensurável na formação do Homem. O estado do ensino das artes em Moçambique é bom, mas tem grandes desafios. Não podemos contentar-nos com as três escolas artísticas que o país tem, casas de cultura, Escola da Comunicação e Arte da Universidade Eduardo Mondlane ou Instituto Superior de Arte e Cultura (ISArC). Vejo isso como um começo, que deve nos encorajar a pensar num ensino artístico desde a escola primaria à escola secundária. Aí sim, estaremos a formar Homens capazes de apreciar uma boa música, um bom quadro, um bom livro e, em consciência para comprar. Estaremos também e sem dúvida a criar um mundo melhor.

Que recordações guarda da sua relação com músicos angolanos residentes em Portugal?

A Música Angolana é muito rica e tive oportunidade de trabalhar com grandes nomes desta. Seguramente que parte daquilo que sou, tem também influência angolana.

Como sabemos, as relações políticas e diplomáticas entre Angola e Moçambique sempre foram muito boas e ao mais alto nível, mas, provavelmente, do ponto de vista das artes e da cultura elas poderiam ser muito melhores, sendo que não podemos perder de vista que há uma estreita relação entre os músicos angolanos e músicos moçambicanos da última vaga e que os escritores angolanos e os escritores moçambicanos sempre se inspiram e se retroalimentam, em todos os sentidos. Pode comentar?

As artes e a cultura não conhecem fronteiras, podem ter sim, ritmos, melodias, géneros, estilos diferentes de manifestar ou escrever, mas continuam a ser arte e cultura. Por isso,os músicos e escritores angolanos e moçambicanos estão “condenados” a conviver com a música e a literatura de um de outro, o que é positivo e só nos enriquece, como povo.Da nossa parte, tudo faremos para incentivar e agudizar estes intercâmbios.

O que falta para haver uma maior circulação do livro, do disco e de outros bens culturais, em ambos os sentidos, entre os dois países?

Não falaria de falta, mas que precisamos de nos organizar melhor, no sentido de os fazedores das artes e cultura perceberem que afinal têm um mercado maior, que não se limita ao território angolano ou moçambicano, masque se estende de Angola a Moçambique, ou seja, resgatarmos o “mapa cor-de-rosa”, só que, um “mapa cor-de-rosa da cultura angolana e moçambicana”,nosso,em que podem fazer circular as suas obras. É verdade que os dois países devem aprimorar os seus quadros legais para que a circulação desses bens culturais beneficie ambos os países.

E quando olha para o percurso cultural de Angola, o que é que mais lhe chama atenção?

Chama-me atenção a sua agressividade, a sua preocupação em colocar as suas raízes na música, na escrita. Tem uma trajectória ascendente, ambiciosa no sentido de ocupar o seu espaço no mundo.

Quais são as grandes referências que tem da arte e cultura angolanas na actualidade?

Sem dúvida e começo pela música: Matias Damásio, C4Pedro, Anselmo Ralph; Pepetela, Agualusa, Ondjaki... são tantos. Ficam alguns nomes.

Para quando uma visita sua a Angola visando o reforço das relações e da cooperação bilateral neste domínio?

Como sabeis, Moçambique e Angola são dois países e povos irmãos,cujas relações datam desde os tempos das lutas de libertação nacionais que nos foram impostas pelo colonialismo. Por conseguinte, visitar Angola ou a visita a Moçambique de Sua Excelência Ministra Adjany Costa é um imperativo de irmandade e, não fosse a pandemia do Covid-19, diria que para breve, mas não está muito longe disso, ésó esperar o reatamento da nossa comunicação aérea que visitarei Angola para o reforço das relações e da cooperação bilateral nos domínios da Cultura e Turismo.


Perfil

Eldevina Materula, mais conhecida por Kika Materula, iniciou os seus estudos musicais quando ainda era uma menina de 7 anos de idade, na Escola Nacional de Música de Maputo. A partir daí, a música nunca mais lhe abandonou, tornando-se o maior dos acertos da sua vida e nos anos seguintes os factos o confirmaram: em 1995, já em Portugal, dá continuidade aos seus estudos musicais e tem o seu primeiro contacto com o oboé, instrumento de que é uma tocadora exímia.

Terminou a sua licenciatura na Escola de Música de Lisboa, mas, a sua pós-graduação fê-la na Malmö Academy of Music, na Suécia. Já como concertista actuou de Norte a Sul de Portugal, bem como em Espanha, na Alemanha, França, Dinamarca, Suécia, Angola, Moçambique, Brasil, entre outros. Em 2001, venceu a XVI edição do Prémio Jovens Músicos na categoria de oboé. Entretanto, ao longo da sua intensa carreira, colaborou como convidada com a Orquestra Clássica da Madeira, Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, Orquestra Sinfonietta de Lisboa, Orquestra Gulbenkian, Malmö Symphonie Orchestra (Suécia), Malmö Opera Orchestra, Danish Radio Sinfonietta (Dinamarca), Orquestra Sinfónica da Bahia (Brasil), Kwazulu Natal Philharmonic Orchestra (África do Sul, entre outras.

Enquanto docente, trabalhou na Escola Profissional de Música de Évora, na Escola de Música de Palmela, como professora convidada no Projeto Neojibá (Brasil) e na Academia de Música Costa Cabral. Antes de assumir o cargo que agora exerce, no governo de Moçambique, ela desempenhou as funções de Solista na Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e foi Directora Artística do Projecto Xiquitsi/Temporada de Música Clássica de Maputo, pelo qual foi condecorada com a medalha da Ordem de Mérito O Infante D. Henrique pelo actual Presidente da República Portuguesa, o Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa.

Em Janeiro de 2020 foi nomeada, pelo Presidente Filipe Nyusi, como Ministra da Cultura e Turismo da República de Moçambique.

 

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Entrevista