Reportagem

Elas mostram Angola através da arte

Analtino Santos

Jornalista

No Kilamba Kiaxi, na subzona 14 do Golf 1, encontramos a simpática Imaculada Tchitanga, que assina as suas obras como “Ima Tchitanga”. Este ano participou na exposição colectiva “Minha Luanda” do projecto Cucarte e, com Oksanna Dias, tem os seus desenhos na antologia poética “Uma série de P(R)O(BL)EMAS”, lançada em formato digital no dia 8 de Março.

24/04/2022  Última atualização 12H25
Exposição colectiva “Minha Luanda” © Fotografia por: DR

O seu interesse pela arte começou muito cedo. Aos sete anos, já desenhava e a professora, assim como a mãe, ficava chateada porque preenchia as folhas do caderno com desenhos. Mais tarde ficava a fazer banda desenhada, sem legendas, nos cadernos. Cresceu tendo o desenho como seu passatempo. Ima diz: "eu queria fugir da arte mas ela não me deixou. Com trabalho árduo, quero ser uma artista conceitual. Pretendo contribuir para a arte angolana. O meu maior objectivo, enquanto artista e estudante de arte, é a criação de um museu de arte angolana. Estou preocupada com o facto de muitas obras produzidas ficarem abandonadas”.

Ima revelou-nos que foi quando a família vivia em Viana, em 2017, que passou a ter outro olhar sobre a arte, fazendo e vendendo desenho de roupas para uma estilista. Mas depois, vendo que "não era bem aquilo o que queria”, porque acabava por ferir alguns dos seus princípios, e "só pensava no dinheiro que estava a entrar”, desistiu. 

Falando do seu bairro, o Golf 1: "eu vivo nesta zona, longe das galerias e dos salões de arte. Aqui há muito vandalismo. Não temos acesso nem investimento na arte. Quando saio com um quadro, os vizinhos perguntam se sou a autora da obra e depois dizem que eu pinto muito. Quanto ao preço, infelizmente eles não têm como pagar”.

Quanto aos salões e galerias, ela afirma: "a gente vai para aquele ambiente elitista, onde muitos não sabem as nossas condições, como vivemos e como produzimos. Simplesmente vêem e apreciam os quadros, tratam-nos de acordo com o espaço”.  

 

Isabel Landâma: "Tento  retratar o meu bairro” 

Próximo do mercado do Palanca, encontrámos a artista Isabel Landâma, que também é professora e costureira, recém-licenciada em Artes Visuais no ISART-Instituto Superior de Artes de Luanda.  O quintal e algumas dependências da casa dos pais transformaram-se em ateliê. Depois da recepção com quissângua, a artista contou o seu percurso. "A arte entra na minha vida ainda pequena, talvez aos sete anos de idade, quando observava o meu irmão mais velho Virgílio a desenhar. Depois a minha irmã Luísa, que comprava resmas de papel e lápis de cor, foi a grande impulsionadora, ela até chegou a comprar-me um projector que apresentava as imagens que eu ficava a desenhar. Na escola era muito dedicada às aulas de EVP”. 

No bairro, poucos a conhecem como artista, mas, por ir frequentemente à praça comprar materiais e andar às vezes com quadros, alguns vizinhos ficaram a saber que é artista. Isabel Landâma diz-se preocupada com o meio ambiente, por isso trabalha com materiais recicláveis, principalmente nas instalações. "Vivo no Palanca, um bairro muito sujo, onde a população joga tudo no chão, e, então, decidi levar isso para a minha arte. Por exemplo, tenho uma obra, ‘Kilamba Kiaxi’, onde questiono a frase "Amar o Kilamba Kiaxi” estampada em determinados locais do município”.

Como artista, Isabel explora a pintura, a escultura, a instalação e a costura. "A costura é algo que gosto, mas artes plásticas é o que amo de coração”. 

Quanto ao resultado do seu processo criativo,  Isabel diz: "as obras são minhas próprias vivências, expresso os acontecimentos do quotidiano que observo”. Neste percurso, tem participado em estágios de curadoria e produção cultural. O seu trabalho final de curso no ISART tem como título "Um olhar artístico sobre o fenómeno das mulheres colectoras de materiais recicláveis”. Esteve na Feira de Cultura e Artes realizada pelo FAJE (Fórum Angolano de Jovens Empreendedores) em 2017 e dois anos depois, no workshop de performances e instalações "Work in progress” e no "Passos Presentes Pegadas Futuras”, ambos no ISART. Fora do ambiente académico, participou, dentre outras, na exposição "Nuances no Feminino” na Casa da Cultura Njinga-a-Mbande, no Rangel, e "Emancipação” na Galeria Tamar Golan. Em 2020, fez parte da exposição colectiva "The Bunker” na Escom, e, no mesmo ano, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, da exposição virtual "Do Kubico para o Mundo”.  

Yolanda Balanga: "Temos de deixar as pessoas conscientes”

Yola Balanga nasceu no Cazenga, em Luanda. Muito cedo deixou a capital para viver com a irmã mais velha em Cabinda, onde fez o curso médio de Contabilidade e Gestão, isto porque não conseguiu frequentar o de Desenhador Projectista. Dedicou-se ao desenho de moda e fazia teatro na Igreja Metodista. Em 2013, regressou a Luanda para frequentar o curso superior, esperando fazer teatro a conselho do encenador Tito Lopes Soares. Quando chegou ao ISART, descartou as artes cénicas e optou pelas artes visuais. 

A artista explica assim as escolhas que fez: "no segundo ano, as coisas complicaram-se e eu tive que optar pelas artes plásticas, porque tinha que garantir a bolsa do INAGBE, já que dependia dela para continuar a formação. Não conseguia conciliar moda, costura e artes plásticas. Afastei-me da moda e foquei-me mais nas artes plásticas”. Quanto ao interesse pela performance como linguagem artística,  ela disse: "apostei na performance porque eu vinha de uma realidade mais corporal no teatro, senti necessidade de experimentar coisas novas. A professora Ana Meli apresentou-nos à performance, à instalação, environemment, body art e outras vertentes mais contemporâneas. Ela dava-nos muito apoio. Foi assim que me senti mais ligada e conectada com as artes visuais e à performance, sem estar presa à tela, se calhar porque já vinha de uma realidade mais movimentada que era o teatro. No final do curso, regressei a Cabinda, onde fui fazer uma pesquisa de campo do Tchikumbi, ritual que era o tema central da minha tese, e faço a performance Casa de Tinta”.

Considera-se uma artista de intervenção. E justifica: "se tens um palco mais alargado de visualização não podes usá-lo apenas para entreter as pessoas, tens de deixá-las um pouco conscientes. O artista que não tem esta pretensão no seu trabalho deveria fazer decoração. E não quero menosprezar alguém. Se tens o microfone na mão, não podes simplesmente falar baboseiras, tens de deixar um pouquinho de interrogação na mente das pessoas e obrigá-las a pensar”.

Oksanna Dias: "Gosto de representar a mulher africana” 

O ateliê de Oksanna Dias está na zona da Coreia (Samba), no terraço de um prédio. Amante de arte em todas as vertentes, Oksanna é desenhista, pintora e grafiteira. Ela é a fundadora da marca Oksanna, página de Facebook onde publica os seus trabalhos de pintura.  A jovem, nos últimos tempos, começou a aventurar-se na costura e assume-se como uma artista urbana. Tem a rua como sua "principal galeria”. Conceição Dias Júnior "Oksanna”  nasceu em Luanda, no Sambizanga.  "Aos seis e sete anos já gostava de desenhar, usava óleo e copiava os livros de banda desenhada. Fiz o médio de Construção Civil em 2014, infelizmente não consegui entrar na faculdade e como não gosto de ficar parada decidi fazer aquilo que eu gosto”.

Assim, arrancou para uma nova fase. "Contactei um ex-colega para ajudar-me neste desejo, na altura eu estava em Talatona e a oficina era no Avô Kumbi. Participei em algumas aulas durante um mês com o Euclides Cachala, que tinha uma oficina. Depois, como estava  muito difícil a trajectória de casa para a oficina, tive que tornar-me autodidacta e arranquei com a minha pesquisa pelo Youtube, Facebook, Instagram e outras ferramentas, até hoje”.

Dando uma pincelada, esclarece: "É importante dizer que sou uma artista urbana e tenho a rua como a principal galeria”.   Oksanna, em 2021 pintou, com outros artistas, nas paredes do CCBA-Centro Cultural Brasil-Angola, sob coordenação de Thô Simões, o mural que teve como fim representar o património cultural dos nove países membros da CPLP. Também participou na exposição "Arte no Peito”, tendo sido uma das seleccionadas do Africomic do Goethe Institut-Angola. Um dos seus desejos? "Gostaria que as pessoas aprendessem um pouco de desenho”.

Débora Sandjay:  "A arte não é necessariamente bela”

No Futungo, nos arredores do  Centro de Convenções de Belas (CCB), ao encontro de Débora Sandjay, fomos abençoados com uma chuva miúda. Dois kupapatas ajudaram-nos a chegar ao destino. No anexo transformado em ateliê, a artista começou por dizer: "toda a criança enquanto pequena é artista, o problema é continuar o seu percurso artístico. No meu caso, penso que já nasci com esta veia, na minha família materna, tenho primos que terminaram o Instituto Superior de Artes, então acho que, se calhar, está no sangue.  Sem oportunidade de fuga, a arte chamava-me a atenção mas infelizmente eu procurava seguir caminhos que não  cruzavam com o mundo das artes plásticas. Mas como a arte é ciumenta e conhece os seus, com o andar do tempo foi inevitável eu recusar a minha entrada no mundo das artes”.

Uma vez dentro do circuito, Débora Sandjay começou a levar a arte a sério. "Infelizmente em Angola só são notadas as exposições nas grandes galerias.  Durante a pandemia da Covid-19, que infelizmente afectou muitas famílias e vários artistas consagrados que estavam habituados a expor, para mim, que ainda era uma artista desconhecida, foi dos melhores anos da minha vida. Apostei forte na minha carreira e as pessoas começaram a ver quem é a Débora Sandjay e a acreditar mais. E passei a receber convites de galerias”.

Sandjay falou do papel da família e da sua determinação no mundo das artes. "A minha família acreditava que tarde ou cedo eu seria artista, tanto é assim que quando terminei o ensino médio, insistiram para fazer Arquitectura, mas era uma coisa que eu não estava a encaixar. Ia à sala de projectos e parecia perdida, então, quando cheguei ao terceiro ano, abandonei o curso. Foi  uma decisão difícil porque venho de uma família em que muitos são formados em engenharia e comigo não deveria ser diferente. O meu avô queria uma neta arquitecta, mas depois, quando começaram a ver que eu levava a arte com seriedade, passaram a respeitar a minha opção. Tanto que o meu pai deu-me um espaço em casa para que eu remodelasse e usasse como ateliê”.

Falando especificamente do seu trabalho: "pinto o que me vem na alma. Se estiver num momento triste é impossível pintar algo alegre, acho que é tudo um processo, tudo que sinto e observo e as conversas que tenho com os meus avós influenciam muito o meu processo criativo”.

"A arte não pode ser necessariamente bela, as pessoas não podem sempre te elogiar porque fizeste uma combinação perfeita do amarelo ou rosa, a arte também pode ser algo sombrio, em que as pessoas conseguem se identificar. Apesar de ser alguém feliz, de bem com a vida, acho que nós os artistas somos muito solitários, quase ninguém nos entende. E torna-se muito difícil representar aquilo que eu não sou no íntimo, por isso digo que a minha arte não deve ser,  necessariamente,  bela. Se for sentida para mim basta”.

 

Sahray da Costa:  "Prefiro mil vezes pintar na rua”

Sahray, antiga integrante do colectivo Verikron, movimento de arte urbana, vive entre o Patriota e a Via-Expressa.  A maternidade deixou-a um pouco afastada da street art.  Começou timidamente o diálogo porque não gosta muito de holofotes. "Sou uma fulana ou uma artista visual qualquer, entrei no mundo das artes em 2012 a partir do Verikron. Em 2018, saí do colectivo para ser artista individual. A minha história é diferente da da maioria dos artistas. Eu não me interessava por desenho até a minha tia falecer. O sonho dela era ser reconhecida nacional e internacionalmente. Ela quando morreu, eu já estava na Verikron por causa dela, e o meu percurso artístico é também uma homenagem à minha tia”.

"Começo a ter gosto pelo desenho apenas na 8ª classe, quando ganho um certo interesse por EVP. Depois comecei a fazer arte de rua, mas não a 100 por cento porque tinha de desenhar às escondidas. Os meus familiares não gostavam, então eu estava com um pé dentro e outro fora”.

"Dedico-me totalmente às artes desde 2016, quando abandonei a Universidade Metropolitana e fui fazer o ISART. Desde então, a minha mãe lavou as mãos e eu tive de passar a custear os estudos.  Mas depois tive de abandonar. Penso que já terminei de estudar há muitos anos, mesmo antes de começar. Acho que não preciso de um papel para dizer que valho alguma coisa, sei que muitas instituições exigem o tal papel, mas não quero esta burocracia”.

Quanto ao percurso artístico: "participei em vários murais no Benfica, pois a história do Verikron começa nesta área, todos morávamos aqui. Na cidade participei em poucos, porque na altura, tecnicamente já estava a sair da Verikron. Participei à entrada da Ilha, na Mutamba, isto em finais de 2017... Não me sinto confortável em telas, de tanto pintar em paredes não consigo pintar em telas pequenas”. 

Uma das características da obra de Sahray é a representação da mulher. E ela explica por quê. "Os artistas em geral, sem se darem conta, fazem manifestações de apoio à mulher.  Eu levanto algumas questões nas minhas obras e todas elas sobre a mulher. Em 2017, eu sofri uma violação e não escondo isto a ninguém. Quando deixei a universidade projectei pintar sobre os direitos e as dificuldades da mulher, o que elas passam, o seu interior, o que elas escondem... porque existem mulheres que na rua estão a sorrir, mas no seu interior estão completamente destruídas. A minha obra teve um tempo em que foi autobiográfica, mas agora não, prefiro pegar em histórias de fora e que, parecendo que não, têm mais impacto para mim porque são de outras mulheres. As histórias que mais me motivam são as de violência contra as mulheres, que no nosso país existe muito, às vezes na forma de cultura. Conheço mulheres que são espancadas pelo marido e dizem ‘a minha família só se mete caso haja traição’”.

Marisa Kanjika:"A performance é o meu mundo”

O encontro com Marisa Kanjica foi no bairro Hoji-ya-Henda, onde nasceu e cresceu. Esta jovem licenciada em Artes Visuais pelo ISART é professora de artes plásticas no ensino público na província do Bengo, município de Quibaxe. Fora do mundo das artes plásticas Marisa tem um salão de beleza, que também funciona como ateliê.

Quanto ao gosto pelas artes plásticas, ela diz: "vem do berço, desde pequena o pai achava que seria uma cantora e a mãe uma designer de moda, porque comecei a costurar muito cedo. Quando entrei para a escola de artes eu queria fazer cinematografia mas lá não havia o curso e decidi-me pela moda, que também não. Então, para não perder a vaga, decidi fazer artes visuais e desta forma comecei a levar mais a sério”. 

Quanto à sua trajectória artística, esclarece: "nesta minha curta trajectória artística as exposições começaram na escola e lembro que em 2016, fiz uma performance com a minha professora cubana, em que abordávamos o tráfico de cabelo humano e ela cortou o dela. Fora do circuito escolar, participei numa exposição na SIEXPO e noutra no ateliê do Nefwamy Júnior, no Cazenga, no ex-Cala Boca, nos arredores dos Kwanzas”.

Quanto à sua inclinação artística, ela diz gostar mais de fazer performance porque "com ela consigo desenvolver mais e envolver muito o corpo, exigindo muita concentração”. Apesar de pintar e desenhar, ela diz não ser "tão boa em pinceladas e dificilmente consigo explorar o traço”. Assim, quando entrou no ISART, a performance foi uma forma de se defender, "porque sentia que não sabia desenhar muito bem. Hoje na arte contemporânea,  muitos usam a performance como uma forma de renovação. Antes apenas conhecia como performers o Januário Jano, a Renata Torres e o Mesquita, agora estão a aparecer mais pessoas e as mulheres estão em grande”.

Em parceria com Ximena Meso Vuvu, Marisa Kanjica tem patente, na galeria Tamar Golan, a exposição "Caminhos Cruzados”. 

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