Cultura

Efiko festa da puberdade que atrai dezenas de jovens

Estanislau Costa | Lubango

Jornalista

A tradicional cerimónia Efiko ou Efuko, ritual emblemático da cultura Nyaneka-Humbi, encerrou como é da praxe, há 15 do corrente, com a transição da infância à adolescência de 20 meninas de diversas sanzalas da comuna do Jau, município da Chibia (60 quilómetros a sudoeste da cidade do Lubango).

20/09/2022  Última atualização 06H50
A tradicional cerimónia Efiko marca uma fase de transição da vida adolescente para uma outra etapa adulta das mulheres © Fotografia por: Estanislau Costa|Edições Novembro|Huíla

O Jornal de Angola percorreu a localidade em referência para testemunhar os detalhes da festa da puberdade que ocorre de 15 de Agosto a 15 de Setembro de cada ano, nas localidades do Lubango, Humpata, Chibia, Quipungo, Gambos, Cacula e Quilengues, onde habitam maioritariamente os povos em referência.

O acto teve início com a captura das meninas, onde 18 rapazes foram indigitados a recolher cada uma delas, não se importando do local em que se encontrarem. As recolhidas, primeiro, são levadas para o Otyoto (sala tradicional), para acertos com os pais sobre contribuições para a festa, entrega dos panos de samakaka, pureza de cada uma, comportamento, deveres de uma mulher e outros preparativos necessários na vida adulta.

Aquelas que manifestarem falhas nos pressupostos já referidos, têm 10 dias no retiro para aprender e aperfeiçoar as práticas necessárias de uma futura dona de casa. No encontro no Otyoto, o regedor Joaquim Tchambanda e outras autoridades tradicionais decidiram que todas as mufikos deviam aprender os hábitos e costumes, do ritual secular dos povos Nyaneka-Humbi.

Transcorridas os 10 dias, as mufikos estavam hábeis em gerir um lar, tendo como principais responsabilidades a preparação do leite azedo (omavele), óleo para cuidar da beleza (ngundy), fazer pirão de massango, massambala, assim como as técnicas de preparar a carne de modo a durar mais tempo.

Após isso, as mufikos oriundas de vários pontos da Chibia, incluindo Luanda e Bié, foram levadas a um lugar isolado chamado Hombelo ou Mutihepanda, um acampamento cujo acesso só é permitido apenas às mulheres adultas. Naquele esconderijo, permaneceram vários dias, sem serem vistas por homens.

Já no dia D, todas estavam trajadas, com uma indumentária tradicional, com realce para as missangas coloridas nas tranças. A cerimónia culminou no vigésimo  nono dia com uma festa que reuniu pessoas da tribo e não só para consumirem bebidas tradicionais como macau, canyome, entre outros condimentos indispensáveis à realização de uma festa.

Entre a cultura Nyaneka-Humbi, uma festa onde não se sacrifica pelo menos um boi, deixa de ter consistência. Nessas ocasiões quem escolhe o animal tem que ser a própria menina num curral dos tios. Mas isso não quer dizer que a mufiko vai ter de consumir o boi inteiro.

Na festa de consagração, foram sacrificadas 18 cabeças de gado, todos machos como manda a tradição. O boi sacrificado vai ter retorno. O futuro pretendente vai arcar com os animais utilizados na festa do omufiko. Assim, orienta os ensinamentos do ritual em referência que remonta a dezenas de anos.

Fase de transição da vida adolescente para a adulta

O pesquisador Julio Tyamukwavo , considerou o Efiko uma fase de transição da vida adolescente para uma outra etapa adulta, pois a festa da puberdade marca o fim do processo de educação e preparação das jovens a ganhar maturidade como esposa ou mulher.

"Hoje, o Efiko, Efuko ou Ehiko nas línguas locais dos povos do subgrupo Nyaneka-Humbi (Mungambwe, Muhumbi e Mumuila propriamente dito), registou mudanças principalmente no seio daqueles que residem nas grandes cidades, devido ao efeito da aculturação”, disse, referindo que com isso este cerimonial está, nalguns casos, a perder a originalidade.

Juliano Tyamukwavo, também presidente da Associação de Solidariedade Nyaneka-Humbi, referiu que apesar de encontrar eco e manter-se viva nos corações deste povo, em algumas localidades, o ritual registou muitas transformações com a influência da Igreja.

Segundo o pesquisador, as tendências religiosas estão a deixar de parte os profundos traços tradicionais, pois, se por um lado, estão os conservadores da tradição com toda a originalidade, por outro, encontramos os que realizam o Efiko em harmonia com a fé cristã.

"Temos duas situações, sendo experiências com os povos que seguem o ritual tradicional com todos os hábitos, costumes e mitos, mas outros introduziram algumas mudanças pelo facto de associarem as cerimónias aos cultos das suas igrejas. O nível de escolaridade está a aumentar nas zonas rurais e, paulatinamente, alguns vão se esquecendo dos rituais que os nossos antepassados nos deixaram”, lamentou.

Juliano Tyamukwavo, recordou que, outrora, constituiu um princípio que a moça indicada para esta festa fosse virgem, pois havia uma crença segundo a qual o homem que se relacionasse sexualmente com uma rapariga antes de passar no Efiko, estaria mergulhado num azar sem precedentes para o resto da vida. "Este mito, hoje, não se faz  sentir”.

O interlocutor, defende a conservação e manutenção do Efiko, por contribuir para a aproximação dos povos de várias etnias, congregando pessoas de aldeias diferentes para a realização da cerimónia com vários grupos etnolinguísticos.

"O Efiko faz parte da nossa identidade cultural. Longe de acabarmos com esta tradição, temos que a manter porque as experiências mostram que os povos Nyaneka e Ochiwambo, cujas etnias são diferentes mas se reúnem nestas festas, juntando as raparigas no mesmo acampamento, o que é bom para a unidade das tribos”, contou.

Juliano Tyamukwavo mencionou que dos catorze municípios da província da Huíla, o Efiko é celebrado com frequência em oito localidades, sendo Humpata, Gambos, Chibia, Cacula, Lubango, Quilengues, Chicomba e Matala, pelos povos Nyaneka-Humbi e as suas variantes, Muhumbi, Vahanda, Mungambwe, Mumuila, Ndongwena, Muhanda, Muchipungo e outros.

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