Opinião

Efeitos da Covid-19 nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável

Juliana Evangelista Ferraz |*

A pandemia da Covid-19, entre um conjunto de efeitos perniciosos que desencadeia, tem um impacto no cumprimento dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

17/08/2021  Última atualização 08H10
Segundo o Banco Mundial, a crise económica actual representa um atraso nos avanços feitos nos últimos cinco anos, em matéria de combate à pobreza e segurança alimentar no mundo. A mesma instituição adianta que, ainda este ano, cerca de 150 milhões de pessoas, que representam perto de 1,4 por cento da população mundial, estarão sob extrema pobreza, a viver com menos de 1,9 USD por dia, devido aos efeitos da Covid-19, associados a outros fenómenos, como mudanças climáticas, sendo que 82% dos novos pobres estarão concentrados nos países de médio rendimento.

O factor crise vem ensombrar a concretização das metas propostas dos ODS, pois, entre outros males, arrefece a economia mundial, aumenta cada vez mais o nível de desemprego e o subemprego - principalmente nos países desenvolvi-dos, com taxas entre 15 por cento a 20 por cento, pondo enormes dificuldades a governação (a questão do défice fiscal e os desequilíbrios orçamentais). Os Estados são forçados a um maior controlo orçamental, o que se faz por via da despesa, afectando áreas essenciais, com particular incidência as de cariz social.

Portanto, houve, de facto, um retrocesso nas condições de vida das populações em todo o mundo, na medida em que a pobreza aumentou, pela primeira vez, em duas décadas, associada à situação de fome generalizada, fenómeno que cresceu cerca de 80%.  A fome é um dos principais problemas do planeta. Vejamos que, em 2020, morreram diariamente cerca de 12 mil pessoas, a procura de alimentos cresceu, devido à redução da produção e da ajuda humanitária, não havendo uma correspondente capacidade de resposta a nível da produção, ocasionou um défice  de oferta de alimentos, causando, por esta via, o aumento dos preços.

Chegados a esta altura, é importante perceber o grau de concretização do 8º ODS- "Economia inclusiva e sustentável e emprego decente”. Este objectivo impõe desafios aos Estados, como o de reduzir as taxas de desemprego, que foram uma das primeiras consequências desta pandemia, que poderá destruir cerca de 305 postos de trabalho no 2º semestre de 2021. Esta situação será propicia a desencadear o surgimento de novos postos de trabalho precário, que, nas últimas décadas, têm crescido a nível mundial. Devido ao movimento de globalização, as empresas adoptaram mudanças radicais, para se ajustarem à nova realidade dinâmica e competitiva. Com a introdução de novas tecnologias e sistemas de informação que permitem a realização de operações de forma automatizada, tem sido dispensado um número elevado de trabalhadores, sobretudo não qualificados, que são absorvidos nos segmentos de trabalho informal ou precários, no qual estão expostos a situação de instabilidade e vulnerabilidade.

Outro desafio do 8º ODS é apresentar uma taxa de crescimento anual igual ou superior a 7 por cento, que tem sido extremamente difícil de se concretizar, a contar com a difícil conjuntura mundial que se agudizou com a pandemia da Covid-19. No entanto, só a China tem chegado a taxas de crescimento iguais ou superiores a 7 por cento, sendo que a economia angolana já apresentou, recentemente, taxas similares às propostas pela Agenda 2030.

A economia nacional registou, em 2020, um produto de cerca de 59,4 mil milhões de USD, deixando de fazer parte das posições cimeiras do ranking das economias mais pujantes da região. Este facto obriga a que o país acelere o processo de reformas, quer no que toca ao contexto de negócio, que deve ser melhorado, quer no que se refere a reformas sectoriais, no sentido de se liberalizar algumas actividades, por via de uma participação mais expressiva do sector privado, principalmente para os sectores não petrolífero.

Em 2020, mais de 90 por cento do investimento estrangeiro dirigiu-se particularmente para o sector petrolífero, ignorando outras áreas de investimento com um potencial extraordinário de desenvolvimento. O crescimento da economia angolana depende fortemente do investimento e, por este facto, só pode aumentar com a melhoria do nível de investimento, que, actualmente, se encontra abaixo dos 10 por cento do PIB, sendo que o desafio proposto pela Agenda 2030 é chegar aos 25 por cento do PIB. 

A consolidação fiscal é um tema que não escapa à referida Agenda da ONU, que defende o equilíbrio macroeconómico e das contas públicas como um imperativo para o desenvolvimento sustentável, dando ênfase à redução das taxas de juro e da inflação. Os registos actuais das taxas de juros e da inflação são preocupantes, porque impactam sobremaneira no poder de compra e no ambiente de negócios, sendo um desincentivo ao investimento e à continuidade da actividade económica, influenciando negativamente a expansão do crédito à economia e a confiança do investidor.

* Economista         

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