Opinião

Educação integral e colcha de retalhos

Filipe Zau |*

Músico e Compositor

A cosmovisão, segundo a psicóloga brasileira Colandi de Oliveira, é-nos inculcada pelo conjunto de informações e crenças, que, desde a infância, recebemos por via familiar, pelas instituições de formação, pela dinâmica grupal e pela interacção social, que, no seu todo, acabam por dar significado às coisas da vida.

18/08/2021  Última atualização 07H15
Thomas Khun (1922-1996), físico americano, vulgarizou o uso da expressão "paradigma”, entendida como modelos ou esquemas mentais para interpretar o mundo, enquanto Milton Greco, cientista social brasileiro, redefine essa mesma expressão, como sendo "a luz e o tecto que ilumina e limita a formação e a actuação do cidadão. Waldemar de Gregori, por seu turno, autor da teoria da Cibernética Social e Proporcionalismo, define "paradigma”, como "o modo de sentir, de entender e de operar o meio ambiente e a nós mesmos como parte dele”.

Cibernética Social e Proporcionalismo, segundo Colandi de Oliveira, "é uma teoria sistémica/holística/triádica, assente na física quântica, que considera o ser humano como um quantum de energia e assume realidades diversas em ciclos diferentes. Como proposta de abrangência global, a Cibernética Social e Proporcionalismo implica numa cosmovisão, num referencial teórico, numa teoria do cérebro, numa proposta de convivência planetária, numa ética e numa lógica social.

Cada pessoa, enquanto bio-psico-social, inserida num contexto cultural específico, é portadora de uma percepção e interpretação do mundo; ou seja, tem a sua cosmovisão, paradigma, modelo, ou filosofia de vida, como influências vindas da sua intuição, dos seus sentimentos, da sua religião, do seu raciocínio e, principalmente, da ciência. Desde há cerca de quatro séculos a esta parte, a ciência constitui um dos mais eficientes suportes do conhecimento, para que nos possamos ver a nós próprios, o mundo em que vivemos e interpretá-lo de forma objectiva.

Francis Bacon (1561-1626), filósofo e político inglês, foi considerado um dos criadores do método indutivo de investigação científica,  fundamentado no empirismo; René Descartes (1596-1650), também filósofo, físico e matemático francês, conhecido pela expressão «se penso, logo existo», seguiu um método de análise racional conhecido por pensamento cartesiano; Isaac Newton (1643-1727), matemático, físico, astrónomo, teólogo e autor inglês,   estabeleceu a mecânica celeste e a concepção mecanicista do mundo. Estas três grandes individualidades, dos séculos XVII e XVIII (considerando a data do seu falecimento), contribuíram muito para o avanço da ciência, ao proporem a atomização e a fragmentação como forma de conhecimento da realidade, sendo este o princípio básico do modelo cartesiano: dividir o todo em partes cada vez menores, separar, analisar e entender cada uma delas para explicar o todo.

As consequências deste modelo cartesiano podem ser constatadas, por exemplo, a partir da saúde e da educação. Usualmente, o diagnóstico médico não é feito à pessoa como um todo orgânico, mas, na maior parte das vezes, por um médico especialista, que nem sempre leva em conta a interdependência entre os diferentes órgãos. Na educação, ocorre frequentemente a existência de campos científicos subdivididos, currículos fragmentados e seccionados, aulas expositivas baseadas simplesmente no princípio da autoridade e da razão, horários estanques, excessiva memorização e avaliações rígidas.

Qualquer mudança, nos dias de hoje, implica numa nova adaptação aos novos tempos, caracterizados pela integração, globalização, interdisciplinaridade, interculturalidade, etc. Com isto, não pretendo dizer que o modelo cartesiano tenha sido pernicioso. Pelo contrário. Foi extremamente valioso no conhecimento e na estruturação das ciências e da tecnologia. Mas, actualmente, deixou de ser produtivo, desde que todas as certezas caíram por terra, quando Werner Heisenberg (1901-1976),  físico alemão, Prémio Nobel de Física, em 1932, surpreendeu-nos com o "princípio da incerteza”, também conhecido como princípio da indeterminação, ultrapassando o velho princípio mecanicista de causa e efeito linear.

Uma das consequências desta visão monádica (porque só vê um lado da realidade), é caracterizada por um individualismo gritante, pelo capitalismo selvagem, com pessoas encapsuladas, em guerra com uns e outros, empurrando a humanidade para o caos. Como características do paradigma cartesiano, (também apelidado de newtoniano-cartesiano-mecanicista), destacam-se as seguintes: o universo é considerado um mecanismo sujeito a leis matemáticas (mecanicista); os eventos constituem-se em cadeias de causa e efeito, pelo que, sabendo-se a causa, o efeito passa de imediato a ser determinado (determinista); tudo tem de ser reduzido a um princípio único (reducionista).

A concepção monádica tornou-se, por conseguinte, inadequada, porque consagra a sua "verdade”como sendo a única, condenando aqueles que divergem dela, quando o que se necessita é de integração, já que a era actual é a da globalidade, do holismo (do grego "holos”), do todo, do global, do completo e do inteiro. O holismo ou o holístico, termos criados, em 1926, pelo político, líder militar, filósofo e estadista sul-africano Jan Smuts (1870-1950), representa uma abordagem centrada no todo (ou na visão do universo), como uma teia de eventos inter-relacionados, que se guia, em primeiro lugar, por modelos vivos e leva em consideração a mudança e a interdependência sistémica entre eles.

Também Pierre Well (1924-2008), educador e psicólogo francês, afirmou que "a abordagem holística propõe uma visão não fragmentada da realidade, onde sensação, sentimento razão e intuição se equilibram e se reforçam”. Na sua opinião, só resolveremos essa questão se enfrentarmos o problema das proporções. A Cibernética Social aborda o Proporcionalismo com a forma de resolver tal problema, estabelecendo uma rede de inter-relações entre os vários subsistemas de um sistema maior, assim como entre os componentes de um determinado sistema.

Em Angola, este é, desde sempre, uma das maiores dificuldades do nosso sistema educativo. A ausência de coerência e integração entre os diferentes subsistemas e, dentro de cada subsistema, entre os diferentes níveis de ensino e formação, numa lógica de verticalidade e horizontalidade curricular, caracterizam a actual "colcha de retalhos” do nosso sistema único de formação de recursos humanos.


* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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