Reportagem

Edições Novembro: Mais de quatro décadas de conquistas

Rui Ramos

Jornalista

Em Junho de 1976, sete meses volvidos sobre a proclamação da Independência Nacional, o Conselho da Revolução põe fim à crise na empresa, promulgando a Lei n.º 51/76, que nacionaliza, em favor do Estado angolano, a antiga empresa privada portuguesa e, em seu lugar, cria a Edições Novembro - EP, proprietária e editora do “Jornal de Angola”

26/06/2022  Última atualização 10H15
Edições Novembro © Fotografia por: Arquivo

Era uma sexta-feira, dia 26 de Junho de 1976. Chegava ao fim o reinado da Empresa Gráfica de Angola, SARL-EGA, proprietária e editora do diário Província de Angola”, fundado em 10 de Julho de 1923, cinquenta anos antes, em pleno período colonial. Em 1924, a empresa passou a sociedade anónima, com acções de Adolfo Pina, pelo então Banco Nacional Ultramarino, Companhia do Amboim, a Companhia Agrícola do Cazengo e os comerciantes Agostinho Borges da Cunha, José Antunes Farinha Leitão e Manuel do Nascimento Pires. Em 1976, passou a editar diariamente o Jornal de Angola, matutino, o órgão de informação de maior tiragem em Angola.

Em meados/fins de 1975, a estrutura accionista da Empresa Gráfica de Angola - SARL é desfeita com o abandono generalizado do país pelos seus membros, o que criou uma situação empresarial de crise e uma alteração radical da definição da linha editorial que deixou de ser tutelada pela FNLA. Com a saída desta e da UNITA de Luanda, a configuração da EGA começa a alterar-se e o seu director, Ruy Correia de Freitas, inicia um processo de abandono das suas funções.

Mas em Outubro de 1975, já com o MPLA como partido único dirigindo a sociedade, o Jornal de Angola continua a sair com os nomes de Adolfo Pina (Fundador) e António Correia de Freitas no cabeçalho. E logo a 1 de Outubro, o Jornal de Angola publica, como manchete "Não nos vamos sentar à mesa das negociações com a UPA/FNLA e UNITA”, ao mesmo tempo que exorta a população de Luanda a "limpar a cidade”. A 4 desse mês alerta: "Há farinha mas não há pão”. Nesses tempos, do espaço nobre do diário ainda propriedade da EGA-SARL é retirado o nome do director Ruy Correia de Freitas, acusado, posteriormente, de ser "inimigo do povo”.

Delegação da OUA

Outubro de 1975, véspera da Independência, é também o mês em que o Governo recém-instalado do MPLA procura legitimidade interna e sobretudo externa, preparando as condições para a vinda de uma Delegação de alto nível da OUA, recebida em Luanda para avaliar as novas condições instaladas com a tutela do MPLA como único partido governamental. Na política externa, a opção é para a confluência com os países socialistas, com excepção da República Popular da China.

E o ano de 1976 começa com outra preocupação: grandes quantidades de trigo continuavam bloqueadas em navios ao largo da Baía de Luanda e os novos sindicatos são exortados a sensibilizar os seus membros estivadores para uma descarga mais rápida, o que não seria de todo fácil, pois a maioria dos trabalhadores do Porto de Luanda era natural do Planalto Central e abandonou Luanda depois de Julho de 1975.

Só em Fevereiro de 1976 a capa passa a ser feita em duas cores, o vermelho a realçar manchetes, e surge uma nova ficha técnica, ausente das páginas durante muitos meses.

A nova empresa

Nesse Junho de 1976, sete meses volvidos sobre a proclamação da Independência Nacional, o Conselho da Revolução põe fim à crise na empresa, promulgando a Lei n.º 51/76, que nacionaliza, em favor do Estado angolano, a antiga empresa privada portuguesa e, em seu lugar, cria a Edições Novembro - EP, proprietária e editora do "Jornal de Angola”.

A alteração foi aceite pelo Ministério da Informação e pretendeu recuperar um nome antigo, da década de 1950, provavelmente em 1953, quando a ANANGOLA possuía um órgão de comunicação social a que chamou Jornal de Angola, que acabou por desaparecer na década de 1960. Não houve qualquer percalço na alteração da filosofia da designação e estrutura da empresa, porque desde há meses a anterior direcção tinha sido substituída e a linha editorial, favorável à FNLA, substituída pela tutela do Departamento de Informação e Propaganda-DIP do Bureau Político do MPLA.

As capas das edições do próprio dia da nacionalização, bem como as do dia anterior e do dia seguinte, tornaram-se raridade, não existindo hoje nos Arquivos Centrais da empresa Edições Novembro.

O "Jornal de Angola”, então dirigido por Fernando da Costa Andrade (Ndunduma), preocupa-se, desde o início, por formar quadros nacionais, pois a quase totalidade dos quadros jornalísticos anteriores eram de origem europeia. A nova liderança direcciona nesse Junho de 1976 o foco das notícias para o combate ao mercenarismo, reportando, em extensos artigos de fundo, o julgamento dos mercenários estrangeiros pelo Tribunal Popular Revolucionário de Luanda. O assunto catapultou a nova República Popular de Angola para as manchetes de muita e importante imprensa mundial, sobressaindo as condenações à morte do mercenário Costas Georgiou, também conhecido por Coronel Callan, capturado, juntamente com outros mercenários a soldo da FNLA, no Norte de Angola, pelas FAPLA.

Vitória do silêncio das armas

No fim da década de 1980 e início de 1990, com a alteração do modelo político e económico no país, o Jornal de Angola protagonizou a veiculação de informação diversificada e plural, contribuindo de forma relevante para o início do processo de democratização e para que, por meio de uma informação serena, as primeiras eleições gerais multipartidárias em Angola decorressem de forma pacífica e ordeira. O Jornal de Angola brilhou, sem dúvida, na "festa da paz” de Abril de 2002. Então dirigido por Luís Fernando, no próprio de 4 de Abril, data da assinatura dos acordos para a paz definitiva, a publicação titula "É Hoje! A Vitória do Silêncio das Armas!” E um Caderno Especial é elaborado com opiniões de dirigentes e da população sobre a  paz, onde sobressai a divisa "Nasce uma Nova Nação”!

À beira de comemorar o seu centenário, a empresa EGA-SARL e posteriormente a Edições Novembro, continua a ter um papel ímpar na comunicação social angolana, nos primeiros 50 anos como veículo de informação e opinião de cariz colonial e nestes últimos quase 50 anos como veículo para a formação de uma opinião pública num país soberano.

A empresa cresceu, nunca parou de crescer, nos momentos difíceis, quando tudo parecia estar perdido, nunca desistiu de prosseguir o seu objectivo, informar, e hoje, por via da sua dezena de títulos, Angola e o mundo têm acesso, diariamente, à informação diversificada nas áreas da política, da sociedade, da cultura, do desporto, da economia.

A Edições Novembro alargou o seu campo de acção criando a revista "Novembro” (que dedica um número especial, ainda na década de 1970, à visita de Fidel Castro a Angola), o Jornal dos Desportos, a 31 de Janeiro de 1994, o Jornal de Economia & Finanças, "Cultura - Jornal Angolano de Artes e Letras”. Mais recentemente, lançou vários títulos regionais, como o  Metropolitano de Luanda, Planalto, Angoleme, Cinguvu, Nkanda, Litoral e Ventos do Sul. A edição electrónica do Jornal de Angola assegura a visualização minuto a minuto das notícias mais relevantes do país e do estrangeiro, além de produzir a versão online em PDF e em texto e imagem

A empresa Edições Novembro detém os serviços centrais na Baixa de Luanda, na Rua Rainha Njinga, e direcções regionais nas outras 17 províncias do país. É proprietária de um parque gráfico e de produção situado na zona da Cuca e de Viana, em Luanda, e dá trabalho directo a mais de mil pessoas, nas áreas de informação e nos serviços administrativo-financeiros.

A Edições Novembro é hoje parte significante no desenvolvimento histórico do país e tanto os textos que publica como os seus arquivos abertos à consulta pública são um tesouro sobretudo para os jovens estudantes nas suas investigações académicas e no seu legítimo interesse pelo aprofundamento da sua aprendizagem.

Com as suas publicações, esteve presente na afirmação de Angola como nova Nação soberana, depois no início do processo de democracia multipartidária, em todos os actos eleitorais, e hoje prossegue a sua acção de informação e formação no desenvolvimento da democracia no país.

MANUEL HOMEM
Ministro endereça  felicitações

O ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Manuel Homem, felicitou, ontem, o Conselho de Administração e o colectivo de trabalhadores da Edições Novembro, proprietária do maior título diário do país, o Jornal de Angola, pela celebração dos seus 46 anos, que hoje se assinalam.

Segundo Manuel Homem, a comemoração da data ocorre num ano em que Angola, pelo terceiro ano consecutivo, melhora no índice sobre a Liberdade de Imprensa, promovido pela Organização Internacional Repórteres Sem-Fronteiras, uma conquista que confirma e valoriza o trabalho desenvolvido, particularmente pela Edições Novembro, que nos últimos anos alargou, significativamente, o número de títulos em todo o país.

Além dos jornais de Angola, dos Desportos, de Economia e Finanças e Cultura, a Edições Novembro publica também os jornais Metropolitano de Luanda, Planalto, Ventos do Sul, Angoleme, Cinguvu, Nkanda, Litoral e Ventos do Sul.

Ao Conselho de Administração e colectivo de trabalhadores da Edições Novembro, o ministro reiterou as suas felicitações e votos de muitos sucessos.

COMISSÕES DE BAIRRO
As eleições na cidade de Luanda

Outro assunto de fundo foi o processo das eleições locais em Luanda, que o "Jornal de Angola” designava por "Comuna Urbana de Luanda”. Não se chamavam "eleições autárquicas”, previstas na primeira Constituição, mas "Eleições na Cidade de Luanda para as Comissões Populares de Bairro-CPB”, às quais só militantes do MPLA podiam concorrer e ser eleitos.

Por aqueles dias, o Jornal de Angola transcrevia um texto de uma Comissão Coordenadora das Eleições da Cidade de Luanda, ensinando os eleitores a depositarem os seus votos nas urnas. E até há lugar a um espaço nobre para uma fotografia do Presidente Agostinho Neto a votar na sua zona de residência, documento que permanece hoje como uma raridade.

A colheita do café também integrava as preocupações editoriais do Jornal de Angola dessa altura. A população era exortada a trabalhar voluntariamente aos domingos para colher café e também cana de açúcar. Grandes títulos proclamavam a consigna lançada pelo BP do MPLA "Vamos colher o nosso café”. O leitor era aconselhado a substituir o seu período de lazer semanal por um ou dois dias a colher café. E o Jornal de Angola cita, como exemplo, para a "emulação socialista”, "As FAPLA na batalha pela colheita do café”.

 

Contra a sabotagem

Com a saída da comunidade portuguesa do país, a estrutura económica quase colapsou, o abandono das unidades empresariais foi geral e a essa regra não fugiam os campos cultivados com café. Era um tempo em que a atenção do MPLA estava muito virada para a preocupação com a "sabotagem económica”, por suposta acção do "imperialismo internacional e seus lacaios internos”, pelo que, logo no início de Julho de 1976, é promulgada a "Lei contra a sabotagem económica” e os crimes de "sabotagem económica”; puníveis com penas de prisão maior de 2 a 8 anos. Corrupção, nepotismo, desvios: estas práticas e outras integravam o pacote da "sabotagem económica” e não foram raras as pessoas, incluindo funcionários do aparelho de Estado, transformadas em "presos políticos”. Curioso é também notar que nesse ano de 1976 Angola tentava impor-se na arena internacional, sobressaindo o apoio do "campo socialista”, liderado pela União Soviética, contra o "imperialismo ocidental e seus lacaios”.

 O Jornal de Angola passou a reflectir essa visão "militante e de solidariedade” entre o "campo socialista”. Mas é dado relevo à posição de Angola para se afirmar, sobressaindo a acção do MIREX, nessa altura liderado por José Eduardo dos Santos, junto da então OUA, da ONU e do Movimento dos Não Alinhados, onde a Jugoslávia de Tito tinha grande protagonismo.

Em meados do ano seguinte, o Jornal de Angola é chamado a ter um papel preponderante na formação da opinião pública, com a intensa e diária publicação do que foi designado por "processo fraccionista” no seio do MPLA, que desde o ano anterior se preparava para alterar a sua estrutura de movimento de libertação para partido político marxista-leninista, assunto que acolheu espaço nobre no único matutino do país.

No dia 1 de Maio de 1977, publica extensas reportagens sobre o "1º de Maio Vermelho” e até muda a cor do logótipo do cabeçalho, que agora passa a vermelho integral e com nova imagem. Mas a euforia da festa dos trabalhadores dura pouco, um "fenómeno” açambarca a atenção da Direcção do MPLA e do Jornal de Angola, culminando a 26 de Maio, véspera do falhado golpe de Estado, com a manchete "Vitória da Unidade no Combate ao Fraccionismo”. A partir do dia 27, um espaço muito importante é reservado nas páginas do jornal a essa luta sem tréguas.

Junho de 1977 é altura de luto pelas 7 vítimas mortais do 27 de Maio e o Jornal de Angola integra-se nesse luto, usando, integralmente e durante alguns dias, a cor preta, inclusivamente no cabeçalho, o que viria a acontecer novamente no dia 11 de Setembro de 1979, por ocasião da morte, em Moscovo, do primeiro Presidente da República, Agostinho Neto. Aníbal João da Silva Melo era então o director interino da publicação e Arnaldo Santos director-adjunto. Nesse dia, o Jornal de Angola titula, ao cimo da capa, "Faleceu, vítima de grave doença, o Camarada Presidente Agostinho Neto”, subtitulando "Glória Imortal ao Guia da revolução”, ao mesmo tempo que exorta, também na capa, "Todos os trabalhos”, mais a informação de ter sido decretado pelo Governo um período de luto de 45 dias. Oito dias depois, entre largas dezenas de mensagens de condolências que iam chegando de todo o mundo, a manchete do Jornal de Angola proclamava "Retumbantes Vitórias das FAPLA” contra a agressão armada sul-africana às províncias do Cuando-Cubango e do Cunene, "apoiada pelos seus lacaios da UNITA”.

Exactamente uma década depois, a 17 de Junho de 1986, o Jornal de Angola, então dirigido por Mário Guerra, faz manchete com um discurso do Presidente José Eduardo dos Santos, enfatizando a declaração "É urgente eliminar a dependência de um só produto de exportação”, numa altura em que o petróleo tinha caído para os 10 dólares o barril. Acreditava-se que a cana de açúcar e os diamantes poderiam assegurar a "diversificação da economia”.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Reportagem