Opinião

É tempo de balanço

Luciano Rocha

Jornalista

Quinta-feira, 13, muitos luandenses viviam o rescaldo da “Grande Festa”, que foi verem, pela primeira vez, o içar da Bandeira Nacional, contrariando anúncios imperialistas, monstro de várias cabeças, reflectidos na força militar que a queria impedir.

18/11/2021  Última atualização 05H05
No 11  de Novembro, de há 46 anos, os luandenses acordaram com sentimentos contraditórios de certezas vividas na véspera e as dúvidas do futuro imediato. No primeiro caso, era o fresco bom soprado pela esperança nova, no segundo, a tormenta da guerra impulsionada, uma vez mais, pela cobiça de interesses forasteiros.

Angola, cansada da guerra que nunca quis, era, uma vez mais, obrigada a prossegui-la, em várias frentes. Sem tempo de saborear o gosto bom das nossas frutas de tantas cores e cheiros, penduradas nos paus de quintais,  ruas,  descampados. Naquela primeira quinta-feira depois do "onze do onze”, Luanda gozava da tranquilidade possível num país que continuava a pagar caro o acaso de ter potenciais riquezas no subsolo, mares, rios, lagoas, flora, fauna.

 A todas aquelas  riquezas escondidas juntavam terras aráveis a perder de vista. Tudo espalhado em toda a extensão de um território com uma configuração que os angolanos não desenharam, sequer foram ouvidos sobre ela. Pelo contrário, impuseram-lhes pela força de uma decisão tomada muito longe, em terra sobre a qual nunca tinham ouvido falar. A pilhagem estrangeira não tardou a ensopar o nosso solo sagrado. É que eles deliberaram o que queriam para. África, mas poucos lhes prestaram vassalagem sincera.  

 Na primeira quinta-feira de Novembro de há 46 anos, muitos luandenses viviam o rescaldo da "Grande Festa”, com sentimentos contraditórios: o da certeza de que a serpente de cabeças várias e falas distintas, com apetites neocolonialistas, não conseguira impedir que ela se concretizasse e o das dúvidas quanto ao futuro imediato.

Que não quanto ao desfecho final, que esse, levasse o tempo que fosse, era cimentado pela determinação de liberdade revelado pelos que, de armas na mão, não paravam de fustigar o inimigo. Entre eles, contavam-se experimentados combatentes forjados na guerrilha e novos soldados da causa nacional, alguns  provenientes das fileiras da tropa colonial, mas nem por isso menos empenhados. Uns e outros eram jovens e, como em todas as guerras, nem todos viram o resultado pelo qual lutavam. Já fora assim, na luta contra o regime de Salazar.

As duas guerras, contra o colonialismo e o neocolonialismo, juntaram-se, não houve intervalo a separá-las, até que um dia houve o silenciar das armas. A hora era, então, de fazer o balanço, que ficou por fazer após a proclamação da Independência. A falta de quadros - em quantidade e qualidade ,verificada em Novembro de 1975, acentuou-se em 2002, pondo a nu , principalmente no primeiro caso, a política discriminatória do salazarismo.

Angola, devastada por guerras que nunca procurou, era o que se sabia, um país potencialmente  rico, mas efectivamente pobre em todos os aspectos, cenário a servir "às mil maravilhas” os interesses neo-coloniais.  Afinal, a serpente de cabeças várias e línguas diversas tinha razão para esfregar as mãos de contentamento. E não foi necessário grandes "engenharias políticas”. Entre nós havia quem se dispusesse a servi-la, abrir-lhe caminhos e atalhos.

Assim, se chegou ao chamado "tempo das vacas gordas”, durante o qual  se acentuaram o nepotismo, bajulação, corrupção, assaltos ao erário, desvergonha, surgimento de uma nova burguesia impreparada, ingredientes que qualquer sociedade dispensa. Enquanto isso, não se pensou, de forma séria, em sectores primordiais, como os da saúde, ensino, habitação. Logo, não formámos técnicos qualificados.

  Deu-se, isso sim, o surgimento de falsos graus académicos, currículos universitários e profissionais. Quando se deu por ela, o país estava à beira da bancarrota, os muitos ricos continuam a viver "à grande e à francesa” e os pobres estão cada vez mais pobres. É tempo de fazer o balanço do que se fez e não se fez de Novembro de 1975  até ao de 2021.

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