Opinião

É preciso pensar grande para modernizar Luanda

Filomeno Manaças

A dimensão dos problemas que a província de Luanda tem já não admite que quem esteja na governação continue a pensar pequeno. E pensar pequeno é dizer, por exemplo, que a construção do metro de superfície para Luanda não é, de momento, a prioridade.

23/07/2021  Última atualização 04H30
Que a prioridade é o saneamento urbano, como se Luanda só tivesse como preocupação esse assunto. Esse é o pensamento dominante dos que, nas redes sociais, atacaram a iniciativa de lançamento do projecto do metro de superfície.

A capital do país não tem apenas um, mas vários problemas que são prioritários, que podem e devem ser atacados ao mesmo tempo, cuja resolução, entretanto, pode, para alguns, conhecer a luz do dia a curto prazo e, para outros, ir acontecendo a médio ou longo prazo. Ou seja, a premência de um problema não invalida que outros estejam a ser tratados ou a ser resolvidos na perspectiva de soluções combinadas, que, no final, produzam todo um conjunto de benefícios que vão abrir as portas para a implementação de outros projectos, quer de pequena quer de média, ou até mesmo de grande dimensão.

Hoje por hoje, é essa visão que impera e tem garantido as soluções mais acertadas para cidades com grandes aglomerados populacionais, a exemplo de Luanda, que vai requerer a requalificação de muitas áreas urbanas, o que só será possível se os grandes projectos estruturantes, como o metro de superfície, forem realmente implementados.

O pensamento moderno manda dizer que, se quisermos resolver, de modo satisfatório e por longos anos, os problemas de Luanda, temos de nos habituar a pensar grande. Uma Luanda moderna precisa de ter metro de superfície. E não apenas uma linha, mas sim várias, devidamente projectadas, interconectadas, olhando para (e induzindo) o crescimento futuro da cidade. Uma Luanda moderna precisa de ter canais de macro e micro-drenagem das águas pluviais de dimensão razoável, cuja eficiência nos dê tranquilidade e a certeza de que eventuais estragos provocados pelas chuvas não serão devido à sua inexistência.

Uma Luanda moderna precisa de um serviço de saneamento urbano ao nível do que há de melhor, quer em termos de recolha de resíduos sólidos, quer no que ao seu aproveitamento diz respeito, particularmente, para a produção de energia eléctrica. De qualquer uma das soluções já ouvimos o Executivo falar. Qualquer uma não nos vai dar resultados imediatos. Mas estão em andamento.

Percebe-se a impaciência do citadino. Particularmente a de quem não tem a noção de que leva tempo ver as coisas serem concretizadas. Por isso, foi sem espanto que vimos, nas redes sociais, um rol de ataques ao projecto de implementação do metro de superfície para Luanda, com os mais variados argumentos a serem esgrimidos, uns a revelarem desconhecimento das razões de fundo, outros a pôr a nu a mera intenção de o descredibilizar e levar o cidadão a pensar que o Estado se lançou numa aventura de gastar dinheiro em vão.

Não estranhou que assim tivesse sido. Primeiro, porque, com a série de dificuldades geradas pela pandemia, que complicaram seriamente o dia-a-dia do cidadão - já de si uma vivência agravada por uma má situação económica e financeira que vem de trás e que era preciso corrigir com urgência -, o pessimismo tomou de assalto, com a maior das facilidades, o raciocínio de muito boa gente; segundo, porque a espontaneidade com que são debitadas algumas ideias não esconde o fascínio que as redes sociais exercem sobre determinadas pessoas, ávidas em verter opinião sobre tudo o que esteja em discussão pública.

Se, por um lado, isso é positivo, porque se trata do exercício da cidadania, das liberdades de pensamento, de opinião e de expressão, por outro, é de questionar a qualidade dessa participação, quando subverte o que foi oficialmente comunicado. Nomeadamente, quando ignora que o projecto vai ser executado no âmbito de uma parceria público-privada e a participação do Estado vai ser minoritária, por um lado, e, por outro, que vai gerar benefícios directos e indirectos. De modo concreto, na mobilidade urbana e na possibilidade de, ao longo do trajecto do metro, poderem surgir iniciativas empresariais que vão contribuir para o relançamento da economia.

Não nos podemos contentar em criticar por criticar, só porque não queremos ver um pouco mais longe, só porque nos desagrada que não estejam a ser resolvidos outros problemas, que, aos nossos olhos, parecem não estar a merecer a atenção requerida. Nem sempre o que parece é o óbvio. Por isso, não admitir que o metro de superfície para Luanda é também uma prioridade, não concordar que ele saia já do papel e comece a se tornar realidade, é assumir uma posição retrógrada, é estar contra o progresso, contra a modernização da nossa cidade capital.

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