Cultura

E os vencedores do Prémio Nacional de Cultura e Artes são...

Os contemplados com o Prémio Nacional de Cultura e Artes foram anunciados na sexta-feira pelo júri pesidido pelo sociólogo Octávio Serra Van-Dúnem. Como sempre, alguns dos nomes não foram de todo surpresa, ao passo que outros o foram. É a vida. Facto notável e que não podíamos deixar de assinalar é a excelente qualidade do texto da acta do júri, em que se fundamenta a atribuição do prémio a cada um dos distinguidos, dentro das melhores práticas internacionais. Estão de parabéns os premiados Filipe Mukenga (Música), Amélia Dalomba (Literatura), Ana Silva (Artes Visuais e Plásticas), Rogério de Carvalho (Teatro), Projecto “Benguela Streets Dance”, dirigido pela coreógrafa Alda Lara (dança), Afonso Salgado Costa (cinema e audiovisuais) e Associação Tchiweka de Documentação (Investigação em Ciências Humanas e Sociais). Eis um resumo das razões apresentadas pelo júri para atribuição dos prémios.

21/11/2021  Última atualização 09H05
Filipe Mukenga © Fotografia por: Edições Novembro
MÚSICA
Filipe Mukenga (1949)

"Por ser um grande e talentoso músico, com uma longa carreira de 58 anos com muitas contribuições sonoras e textuais; por não ter sido condignamente reconhecido durante os últimos 45 anos; pelo carácter inédito das suas obras, porquanto compôs, produziu, editou cerca de cinco CDS; porque produz uma música que consegue combinar a angolanidade, a africanidade e os padrões internacionaisda chamada world music: trata-se de uma música muito rica em termos de letra e que proporciona uma singular combinação entre as harmonias e as dissonantes.


A música de Mukenga inspira-se no jazz, no blue, música soul, na música latina e até nos coros eclesiásticos da igreja evangélica: os seus temas apresentam uma peculiar sonoridade e um elevado grau de elaboração técnico-musical, razão pela qual ela é aplaudida e aceite em todos os continentes. Nunca perderam actualidade músicas como Umbi-Umbi, Angola no Coração, N’vula, Minha terra (Eu sou filho de Cabinda), Fruto Maduro, Eu vi Luanda e muitas outras canções interpretadas por Filipe Mukenga.”


LITERATURA
Amélia Dalomba

"Pelo conjunto da sua obra que enaltece o cimentar da pureza espiritual dos ambientes urbanos por uma qualidade estética que procura explorar a pertinência dos ritmos e movimentos em feixes combinados, sem perder de vista o contexto social, político e estético- literário;


Esgrime a palavra como escultora que aprecia a arte visual e sonora, apoiando-se na liberdade que a inovação estética permite; releva tomos contributivos para os valores necessários à construção do sujeito angolano, cultivando um lírico imaginário de memórias colectivas que unem Angola, exemplarmente demonstrado no romance   "Uma mulher ao relento”;


Assenta a sua literatura num escopo de denúncia da realidade vivida na Angola pós-independência, fomentando desagregação às depravadas sevícias reinantes nas sociedades e propondo resistências a catástrofe de carácter social; propõe, com ternura, um texto literário/cultural, dialogante    com outras artes, como estímulo à luta da mulher que se governa entre o amor e a dor, fazendo sentir o fluir da vida nas mãos do ventre do bosque, como paradigma duma humanidade mais humanizada.”


ARTES VISUAIS E PLÁSTICAS
Ana Silva


"Graduada pela ArCo - Centro de Arte e Comunicação Visual em Lisboa. Estudou pintura e escultura, e foi dirigida por Hart Berg no Elinga Teatro, em Luanda, dando inicio a sua carreira como artista profissional no ano 2000, expondo o seu trabalho regularmente em Luanda. O seu trabalho já foi exposto em cidades como Lisboa, Madrid, Milão, França, Nova Iorque.


Trabalhando com materiais encontrados e bordados delicados para criar obras multimídia, Ana Silva recria um universo complexo e delicado, influenciado pelas suas memórias pessoais e familiares e memórias do período de guerra civil angolana.


Com um excelente domínio de linguagens artísticas como a pintura, desenho e bordado, as suas escolhas estéticas advêm de uma seleção criteriosa de materiais tais como - telas, renda, linha, tecidos, madeiras, acrílicos - manipulados e combinados de diversas formas, de modo a criar narrativas visuais que abordam memória pessoal e coletiva, estabelecem conexões entre distintos contextos geográficos, ao mesmo tempo em que, em obras mais recentes, denuncia o consumo excessivo na indústria da moda e o seu nefasto impacto no meio ambiente e, outros aspectos nocivos das sociedades capitalistas.”


TEATRO
Rogério de  Carvalho

"Pelo conjunto das suas obras, pela sua carreira e pela sua contribuição para o desenvolvimento do Teatro em Angola. Para além de encenador, é professor de interpretação dramática, tendo desenvolvido acções de formação em Angola e noutros países da CPLP. O seu trabalho tem sido reconhecido, pelo que constitui um dos maiores nomes das Artes Cénicas nos países de língua oficial portuguesa, tendo sido agraciado com vários prémios.


Ao longo da sua carreira trabalhou com cerca de 40 companhias e participou em 108 espectáculos. Apesar de viver na diáspora desde 1954, tem estado sempre ligado a Angola, sendo de ressaltar a encenação de escritores angolanos, nomeadamente Wanhenga Xitu, com os espectáculos Kahitu e Mestre Tamoda, e José Mena Abrantes com o Voo e Sequeira, Luís Lopes ou O Mulato dos Prodígios.
Foi coordenador do Núcleo de Teatro da Fundação Sindika Dokolo que, no âmbito da 2ª Trienal de Luanda, apresentou o espectáculo As Formigas de Boris Vian, em português e luvale, língua de um povo do sul de Angola que vive entre o deserto do Namibe e do Kalahari.”


DANÇA
Projecto "Benguela Streets Dance”, dirigido pela coreógrafa Alda Lara

"Pela sua originalidade, abrangência artística e integração social através da dança. A escolha recai sobre a importância da mobilização de crianças e jovens em situações problemáticas e de exclusão, em torno das danças urbanas, desenvolvendo a sua sensibilidade e afastando-as de comportamentos de risco. Os factores formação, disciplina e solidariedade são aspectos relevantes para considerar o valor artístico e social deste projecto.


O projecto Benguela Street Dancers (BSD) é um PROJECTO DE DANÇA, que tem como objectivo motivar a prática da dança na província de Benguela e promover a cultura local. O facto de ser um projeto que atinge a população jovem promove a cultura local, integração social e criação de sinergia entre todos, contribuindo para o combate a exclusão social e estímulo para participação numa ocupação saudável.” 


CINEMA E AUDIOVISUAIS
Afonso José Salgado Costa

"Pela sua trajectória e serviços prestados ao longo da sua carreira que começou, em 1969, no Laboratório Nacional de Cinema (LNC), proveniente da Promocine. Desde os primórdios do cinema angolano, registava momentos ímpares das missões e intervenções do saudoso Presidente António Agostinho Neto, tanto no país como no exterior entre 1975/1985, reunia factos inéditos da história política, económica, social, cultural, desportiva e até militar de Angola independente.


Desempenhou também a função de Director Geral do Laboratório Nacional do Cinema (LNC). Durante a sua actividade contribuiu para o enriquecimento do Cinema Documental e do Património Audiovisual Nacional.


Nos seus registos teve como participação em todas as séries de Jornais de Actualidade (Angola em imagens) destacando-se, particularmente, a visita do Presidente da República Popular de Angola (Agostinho Neto) a República do Congo, a visita do Presidente da República Popular de Angola (Agostinho Neto) ao Kuando Kubango, Uíge, Malanje, a VI Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos, a cerimónia da tomada de posse do Presidente José Eduardo dos Santos, a Cimeira de Saurimo, pelo dia Internacional da Criança, a Cimeira Económica dos Chefes de Estado e a agressão Sul-Africana ao Cunene, factos que fazem parte da história política de Angola.”


INVESTIGAÇÃO EM CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
Associação Tchiweka de Documentação

"Pelo trabalho continuado desta Associação, que tem revelado profissionalismo e excelência, em prol da pesquisa em ciências sociais e humanas, um labor que explica que, em 2012, tenha sido reconhecida, por decreto, com o Estatuto de utilidade pública em Diário da República. Com dedicação, estoicismo e dignidade, a Associação Tchiweka de Documentação (ATD) tem vindo a honrar a memória do seu patrono e a sustentar as suas actividades através das quotizações dos seus associados e de alguns apoios públicos e privados, sem deixar de transformar as suas instalações e o seu site em locais privilegiados onde estudantes e investigadores, nacionais e estrangeiros têm acesso a fontes históricas como livros, jornais e revistas e outros documentos úteis para trabalhos de pesquisa em diversas disciplinas.


Os programas e planos de actividades da Associação têm assumido a forma de projectos levados a cabo por associados e outros colaboradores, tendo como base a pesquisa interdisciplinar. Pode-se destacar, entre outros, a publicação em 2009 de uma fotobiografia do patrono da ATD, Lúcio Lara "Tchiweka” 80 anos - Imagens de um Percurso, e a publicação em 2011 de artigos marcando o 50º aniversário de acontecimentos ocorridos em 1961 (um em cada mês do ano). Estes artigos foram reunidos em livro em 2015, sob o título 1961 – Memória de um Ano Decisivo.


Em 2017, foi lançado o livro Arte e Combate – Cartazes e postais do acervo da ATD, trazendo à público documentação menos conhecida da luta anticolonial. De maior relevância foi o projecto Angola nos "trilhos da independência” que recolheu com a colaboração da produtora audiovisual Geração 80, cerca de 600 entrevistas de antigos participantes da luta de libertação nacional e de diversas personalidades nacionais e estrangeiras com ela relacionadas, assim como filmagens de locais onde a luta se desenrolou.”

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