Opinião

É muito cedo para vitórias antecipadas

Ismael Mateus

Jornalista

Em Agosto de 2022 haverá apenas um vencedor: ou MPLA ou a UNITA.

13/09/2021  Última atualização 10H03
A decisão do Presidente da Republica de devolver a lei orgânica das eleições gerais à Assembleia Nacional representa uma pequena vitória política da UNITA e do Presidente da Republica. A UNITA tratou logo de ampliar essa vitória política e projectar nas ruas uma vitória eleitoral em 2022. Há um clima de autoconfiança, que leva a que o líder da oposição dê garantias de que o seu partido está preparado para governar.

O Presidente da Republica também ganha a simpatia dos cidadãos pedindo aos deputados que façam um esforço suplementar para que se esbatam as diferenças ainda existentes e, com isso, as acusações de fraude e o clima de suspeição sobre o processo eleitoral.

Há obviamente uma grande diferença entre a vitória política do momento e uma vitória eleitoral em 2022. Para a vitória eleitoral da UNITA não basta o desgaste governativo do MPLA, nem as manifestações de rua. É preciso uma proposta alternativa de governo e, naturalmente, ter mais votos que o adversário.


O cenário da vitória eleitoral do maior partido da oposição deve estar presente, mas o inverso também. E se a UNITA perder as eleições? Qual será a desculpa? Depois dos consensos e das alterações à lei, certamente não poderá ser a alegação de fraude que vem fazendo em todas as eleições.

O Presidente da Republica tem marcado a sua magistratura com uma afirmação da sua independência. Podemos observar isso no modo como escolhe os seus colaboradores, na forma como decide e isso inclui também a sua relação com o MPLA. Logo, a decisão de devolver a lei da orgânica das eleições significa antes de mais um recado para o interior do MPLA quanto à autonomia do pensamento e da acção do Chefe de Estado.

Mas significa também, em termos eleitorais, um sinal de autoconfiança para dentro do seu partido. As referências à lisura e transferência indicam para dentro do MPLA uma mensagem de que é possível ganhar as eleições mesmo dando à oposição as condições de participação que querem. É como se dissesse aos seus camaradas: "não precisamos disso para ganhar eleições”.


Isso quer dizer que João Lourenço está convencido da vitoria e não quer que ela venha ser manchada por alegações de fraude. Vai, portanto, fazer a vontade da oposição, fazer as concessões que forem necessárias e depois esperar pela contagem dos votos. De uma coisa é certa: Depois de aprovada com as concessões que se esperam do MPLA, a oposição não poderá mais alegar a fraude em movimento. A nova lei vai acabar com o discurso da fraude. MPLA e UNITA vão estar exactamente nas mesmas condições de participação, sendo até, do ponto de vista subjectivo, mais favorável para o MPLA que, terá uma aliança negativa da oposição contra si e poderá tirar ganhos políticos disso.

Esta é a jogada de mestre do Presidente: retirar à oposição o argumento da fraude e agora cabe ao MPLA ter a mestria de não se deixar chantagear e, ao mesmo tempo, concretizar a ideia de uma lei orgânica largamente consensualizada.
Para que não se caia num impasse é preciso não reabrir as discussões já havidas em 129 artigos da lei revista, 91 por cento dos quais aprovados por consenso. É preciso resistir à tentação da oposição de voltar a discutir tudo outra vez aproveitando-se do clima politico instalado com a devolução.

Se o foco dos debates for apenas os artigos em que não há consenso, rapidamente a AN chegará a acordo, partindo-se do pressuposto do que o MPLA acredita que pode ganhar as eleições sem o velho fantasma da fraude ou de que sem a fraude, a oposição ganhará as eleições. Seja em que circunstância for, a longo prazo, o MPLA ficará sempre com a vitória política de ter, apesar da sua maioria, permitido uma disputa eleitoral justa e em igualdade de circunstâncias. Não há muitos exemplos no continente.

A grande incógnita desta jogada é se a oposição resolver manter a narrativa da fraude, obstruindo o consenso reabrindo discussões passadas ou não sendo flexível nos debates que se seguem.

Convém dizer a terminar que a lei eleitoral é um falso problema. A sua importância no panorama politico tem unicamente a ver com o espantalho da fraude eleitoral erguido todos anos pela UNITA. Na verdade, o principal adversário da UNITA é conseguir convencer os cidadãos de que o país não entrará, com a sua eventual vitória, numa espiral de revanche e revisionismo. Há na sociedade o receio de que uma vitória representará uma onda de substituições, demissões e exclusões de quadros da Administração Central e local. Talvez seja por isso que os grandes apoiantes da UNITA são os jovens descontentes com a gestão governativa do MPLA e novos votantes.

Em relação ao MPLA, o principal adversário é o desemprego dos jovens, grupo onde sente grandes dificuldades em captar tendências de voto. Muitas das acções do Governo, como as privatizações, a recuperação de activos e medidas económicas acabaram por agravar ainda mais a situação dos jovens engrossando um mar de jovens que, sem formas de subsistir, esperam votar contra o MPLA.

Na sociedade, há igualmente um sentimento de insegurança e desconhecimento em relação ao partido no poder. Os erros de governação, os "tiros nos pés” e as "eternas” dificuldades de comunicação transmitem a ideia de persistência no erro, afastando até alguns dos círculos mais tradicionais.

A vitória eleitoral, seja para que lado for, dependerá do modo como cada um vai enfrentar os seus desafios eleitorais. Outro elemento importante será também o incremento do grau de visibilidade de novos actores políticos de cada partido, sobretudo nos círculos eleitorais de pequena e média dimensão. Nos grandes centros populacionais a mídia tradicionais e as redes sociais terão grande influência, mas nesses locais, serão determinantes o trabalho político porta-a-porta e a acção das máquinas partidárias. Ainda é muito cedo para cantar vitórias antecipadas. Esperemos pelo próximo movimento no xadrez.

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