Opinião

É hora de criar o Comité de Crise de Angola

É ponto assente que os ciclos económicos existem e são reais e são cada vez menos previsíveis, as oscilações económicas hoje derivam de fatores que estão fora do âmbito da ciência económica, pelo menos diretamente, sendo a conveniência política e as prioridades geoestratégicas,os determinantesda dinâmica controversa dos mercados financeiros mundiais que deixam a nu as fragilidades das economias mais dependentes.

19/06/2020  Última atualização 12H05


As previsões macroeconómicas são apoiadas por cenários que pretendem descrever determinadas realidades, bem como a explicação de determinado fenómeno económico pode ser conseguida por meio da utilização variáveis (explicativas) que combinadas de forma matemática, dão resposta ou explicam uma outra variável (explicada), sendo que torna-se possível inferir quais das variáveis explicativas influenciam/explicam mais ou menos a variável explicada.

É com base nestas análises que os economistas explicam e anteveem acontecimentos, nunca com 100% de certeza porque as variáveis são contingentes e apoiadas na ciência socialque sustentam a programação económica dos Estados, apenas a previsãoe montagem de cenários, permite estimar numericamente a alteração das variáveis macroeconómicas estruturais.

Todo o Governo que programa a sua actividade económica com base no olho desprotegido, na sensação de, ou em premonições, não logram sucesso no processo de dinamização da actividade económica, porque os fenómenos económicos são repetições de outras realidades e cada uma com a sua explicação lógica, por este facto é importante sempre fazer a analise de cenários para ajudar a decisão, porque toda a decisão baseada na cientificidade da análise de cenários pode não estar completamente correta, mas nunca estará totalmente errada.

A análise de cenários, vem da ciência e cultura militar, não é mais do que utilizar uma série de ferramentas para prever com relativa segurança cenários ou realidades futuras, possibilitando a criação de planos estratégicos, desdobrados em planos de acção e actividades concretas, para enfrentar os cenários que se apresentarem como os mais prováveis.

A análise de cenários para ciência económica, numa primeira fase passa inevitavelmente por identificar os factores que impulsionam positivamente agregados macroeconómicos e numa segunda fase, é necessário identificar os factores futuros que podem ocorrer e influenciar directamente o comportamento das variáveis ou agregados macroeconómicos, fornecendo assim uma visão mais clara sobre o cenário actual, permitindo uma planificação mais segura do futuro.

Angola, por todas e mais algumas especificidades da nossa economia, precisa urgentemente de um Comité de Crise, um órgão independente do poder político e do mercado financeiro, que consiga produzir análises de cenários económicos.Um órgão formado por economistas, engenheiros e sociólogos, que se dedique apenas a combinar as ferramentas científicas para produzir análises de cenários macroeconómicos e produzir a ferramenta estratégica para enfrentar os cenários de crise.

O Comité de Crise seria responsável, por traçar cenários para as mais diversas situações ou realidades económicas, bem como pela criação dos planos de acção para cada uma destas realidades ou situações, pois aqui estar-se-ia a prever o “problema” ou o cenário adverso e apontar o caminho para ultrapassar, inverter o cenário, ou suster o choque da melhor forma possível.

O momento não poderia ser mais oportuno, pois a situação de crise provocada pela COVID 19, bem como a queda abrupta do preço do barril de brent são exemplos claros de que é urgente ser criado um Comité de Crise, pois evitaria a criação de planos de contingência encima do joelho, ajudaria a tomada de decisão de forma mais consentânea e integrada entre a administração central do Estado e os parceiros económicos e sociais, bem como mostraria soluções mais sustentaveis para o período pôs crise.

Alguns poderão argumentar que os Departamentos Ministeriais e Governos Provinciais, detêm direcções ou gabinetes de estudos e que estas unidades poderão fazer por análises semelhantes, mas a verdade é que nem de perto nem longe estamos a falar da mesma coisa, pois estas áreas de estudo estão apenas direccionadas para o seu foco específico, até porque é para este fim que foram criadas, para suportar a decisão meramente sectorial.

Por exemplo, a área de estudos do Ministério das Finanças terá como foco criar e analisar cenários que antecipem variações na arrecadação ou, no alargamento da base tributária, a área de estudos do Banco Nacional de Angola, apenas investirá em análise de cenários que sustentem a estabilidade de preços por meio da utilização dos agregados monetários, e o Ministério da Defesa apenas incidira os seus esforços em entender as ameaças às nossas fronteiras e como devemos estar preparados para conte-las ou elimina-las.

Na verdade não se pode exigir que estes ministros ou responsáveis governamentais tenham ferramentas para decidir com toda informação integrada existente, eles têm uma mandato com foco especifico e vão fazer tudo para cumprir, para que o esforço de cada um deles, somado faça o todo. Um Comité de Crise que produza verdadeiras análises de cenários de forma independente e com pareceres não vinculativos, serve para todos os ministérios em questão, serve para todo ecossistema e facilita a decisão do poder político.

Um Comité de Crise é sem dúvida a chave para uma melhor programação orçamental (prever melhor as receitas e despesas futuras), para antever a evolução da materialização o investimento directo estrangeiro em Angola, antever os efeitos nefastos ou benéficos das variações nos mercados petrolíferos e das restantes comodities, poderá também antever os efeitos sobre o investimento, consumo, poupança e emprego no país, sempre que existam choques esternos derivados de clivagens geopolíticas ou outras.

Na verdade um Comité de Crise iria representar mais uma muleta para os decisores políticos, sistema financeiro, empresas, famílias se apoiarem a quando das suas decisões de investimento e financiamento, seria um verdadeiro ponderador ou bussola orientadora na criação de programas de governo, pois estaria um passo a frente das projecções eivadas de fanatismo político, o que certamente levaria a que os nossos políticos criassem programas de governo mais ligados ou respaldados na realidade actual e futura.

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