Opinião

...E ainda sobre a inflação

Augusto Teixeira de Matos

Antigo ministro das Finanças e Governador do BNA

Desde há um longo período de tempo o país tem vivido um processo inflacionista ascendente, o que vem preocupando muita gente receosa de que qualquer inflação, quando ignorada, se poderá aumentar e se transformar em uma hiper-inflação.

27/09/2021  Última atualização 09H05
Mas também é facto corrente que ninguém tem a ousadia de argumentar que a hiper-inflação é desejável ou até mesmo aceitável, sendo ao mesmo tempo questionável afirmar que toda a inflação é nociva, qualquer que seja a sua taxa.

No decorrer dos anos de 1980, os economistas defensores do livre mercado, conseguiram convencer o resto do mundo que a estabilidade económica, que eles definem como uma inflação muito baixa, pontuando zero, deveria ser alcançada a todo o custo, dado que a inflação é nociva para a economia.

Para os defensores desta teoria, a inflação alvo recomendada por eles, deveria ser, no máximo, à volta de 1 a 3 por cento ao ano, tal como fora sugerido por Stanley  Fischer, Professor universitário e economista principal do Fundo Monetário Internacional de 1999 a 2001.
Porém , a verdade nua e crua é que não existem evidências de que, em níveis muito baixos, a inflação seja prejudicial à economia.

Outros estudos levados a cabo por economistas ligados a instituições como a Universidade de Chicago e o Fundo Monetário Internacional apontam que, quanto menor do que 8 a 10 por cento ao ano, a inflação não tem qualquer relação com a taxa de crescimento de um país.  
Outros ainda até elevam esse limite, colocando-o em 20 a 40 por cento.

Por outro lado, existem experiências de cada país isoladamente, que também apontam para uma inflação relativamente elevada compatível com um rápido crescimento económico,
Foi o caso do Brasil com uma inflação de 42 por cento, mas sendo uma das economias mundiais que cresceram mais rápido, com uma renda per capita aumentando 4,5 por cento ao ano.
Nesse mesmo período, a renda per capita da Coreia do Sul estava aumentando 7 por cento ao ano, não obstante apresentar uma taxa de inflação média de quase 20 por cento ao ano.

Além disso, também há indícios de que as políticas anti-inflacionárias excessivas podem,  na realidade, ser prejudiciais à economia.
Quando em 1996, o Brasil iniciou o controlo da inflação, elevando as taxas de juro reais para níveis que se situam entre os mais altos do mundo, isto é, 10 a 20 por cento ao ano, a sua inflação caiu para 7,1 por cento ao ano, mas o crescimento económico também sofreu, pois, a sua taxa de crescimento da renda per capita foi de apenas 1,3 por cento ao ano. 

Experiência idêntica foi passada com a África do Sul a partir de 1994, quando começou a dar maior prioridade ao controlo da inflação, elevando as taxas de juro aos níveis do Brasil.
Tudo isto só foi possível acontecer, porque as políticas que visavam reduzir a inflação, na realidade, reduzem o investimento e, por conseguinte, o crescimento económico.

O Banco Mundial, ao argumentar que a estabilidade macroeconómica, definida em função de uma inflação baixa, foi um factor fundamental no rápido crescimento das economias do Leste asiático(uma tese que não se aplica à Coreia do Sul) argumenta no seu relatório de 1993: " A estabilidade macroeconómica estimula o planeamento e o investimento privado a longo prazo e, por intermédio do seu impacto sobre as taxas de juro reais e o valor dos activos financeiros, ajudou a aumentar a poupança financeira".

Contudo é dado adquirido e com toda a verdade, que as políticas necessárias para reduzir a inflação a um nível muito baixo, de um único algarismo,  não estimulam os investimentos.
Os economistas defensores do livre mercado aproveitaram os receios justificados das pessoas com relação à hiper-inflação, resultante das políticas anti-inflacionárias exageradas, que causam, mais mal do que bem.

Efectivamente, as políticas anti-inflacionárias, não só pre-judicam o investimento e o crescimento, como também deixaram de atingir o suposto objectivo, ou seja, aumentar a estabilidade económica.


* Antigo ministro das Finanças e ex-governador do BNA

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