Cultura

Drama sobre a injustiça na Justiça

Analtino Santos

Jornalista

Tudo começou quando, no início deste ano, Sofia Buco, actriz, realizadora e produtora, recebeu a ligação de Milca Caquiesse, uma mulher que acompanha o movimento cultural em Angola, que lhe sugeriu para ler o livro e, se possível, o adaptar para as artes cénicas.

07/11/2021  Última atualização 09H15
F. Tchikondo é o pseudónimo literário de Francisco Queiroz © Fotografia por: DR
Depois aconteceram os contactos entre a actriz e o autor do livro, que autorizou a adaptação da sua obra para o teatro.
O conto foi adaptado e teve a encenação de Flávio Ferrão, direcção artística de Joel Mulemba e a  produção e realização da Buco’s Produções. Hilário Belson, Marisa Octávio, Leandro Alfredo, Sónia Dala, Yuri Latino Guedes e Elsa Suraya Quintas representaram em palco os personagens do texto.

  A cantora e actriz Anabela Aya foi a convidada especial, com aparições no inicio e fim da peça. Ela deixou a sua marca em palco, ao casar a voz com a sensualidade.
"Carlota’s Clube” é uma história de amor entre Cassiano e Lolita. Cassiano é um homem bem visto na sociedade, que se apaixona pela prostituta mais famosa e desejada, dona de uma beleza única, que deixava qualquer homem perplexo na hora dos seus deleites, num mundo cheio de conflitos.

Lotita, também conhecida como "Quebra P.”, tem um amante - Nvula Weza -, um camanguista que lhe oferece tudo, mas é homem ciumento e possessivo que tem como principal medo a relação passada de Carlota com Cassiano. Por outro lado, Suzana, mulata bakongo e esposa de Cassiano, vai suportando as traições do marido.

O centro da história acontece no restaurante de Fugitu, um angolano de origem japonesa, que gere o estabelecimento com a esposa Nduya, uma mulher fofoqueira do Marçal. A aventura amorosa de Cassiano com Lolita tem lugar num dos quartos, momento que não sai da memória da fogosa prostituta, apresentada como esposa ao casal Fugitu e Nduva. O fim trágico de Carlota ocorre no mesmo quarto. 

Cassiano, o principal suspeito da morte de Carlota, é condenado e cumpre uma pena de dois anos até a sua absolvição, pois a justiça reconheceu um erro nas investigações forenses. Durante o tempo de prisão, a esposa Suzana torna-se amante de Nvula Weza. De regresso a casa Cassiano surpreende o casal em momentos libidinosos, simula um assalto e mata o amante da esposa, transformando a esposa na principal suspeita do crime.

A Buco’s Produções, responsável pelas duas noites de exibição da obra, está no mercado nacional desde 2017 e tem o teatro como a sua principal área de actuação. Sofia Buco e sua equipa têm apresentado um número considerável de produções, com destaque para as obras "Esquadrão Kamy” e "Herança Família”.


F. TCHIKONDO VERSUS FRANCISCO QUEIROZ
"Todos temos um lado  de tudo um pouco”


A obra é de um autor ligado a Justiça e levanta questões de injustiça neste sector. Foi propositado?

Sim, levanta. Este é um objectivo que eu queria atingir, os erros judiciais que acontecem. E isto às vezes deve-se a um certo comodismo na investigação, que não chega ao fundo das coisas e deixa passar aspectos essenciais daqueles actos que o juiz depois analisa. No caso exacto foi a falha que consistiu em não fazer o exame médico forense ao sangue que foi encontrado, porque havia dois tipos de sangue e um terceiro elemento. Esta falha técnica na instrução levou a que um inocente fosse condenado pelo crime de homicídio voluntário, a 16 anos, e foi um choque, de facto. Felizmente, tal como os erros acontecem, também é possível repará-los. O réu foi condenado, mas no drama ele é libertado. No fim comete um outro homicídio, mas por amor e neste acaba por escapar-se da justiça. Há de facto aqui uma intervenção da Justiça com as suas falhas e virtudes, porque consegue fazer justiça na hora certa.


A experiência de homem ~de leis está presente na narrativa, onde também encontramos um boémio, um "bon vivant”. Pessoalmente tem este lado?

Todos nós temos um lado de tudo um pouco,  temos as nossas partes menos boas e mais boas, somos produto da sociedade e ela não é propriamente uma catedral de virtudes, é um sítio onde acontece tudo.  Mas aquilo que levou-me a escrever este conto foi a vontade que eu sempre tive de escrever sobre amores desencontrados, traições e coisas que acontecem no dia-a-dia e depois transformam-se em dramas no momento em que as pessoas fazem as escolhas por este ou aquele. O envolvimento emocional leva-nos a cometer coisas que não contávamos nos momentos das opções. Também é um alerta para a necessidade de se ter mais cuidado na hora de decidir envolver-se com alguém. É  uma critica àqueles que se envolvem por razões financeiras e não deixam o coração falar, eles preferem que seja a cabeça a falar de forma racional. Dizem "eu valho tanto e tens de pagar pelo meu amor” e isto tem consequências dramáticas. O teatro conseguiu marcar bem este tipo de situações.

 
Está na forja a adaptação  de uma outra obra sua. Quando escreve pensa nesta possibilidade?

"O Grande Império Sequele na Dinastia Kasitur” é o outro livro que eu escrevi, mas numa perspectiva diferente. Aí tem muito de ficção, que é para levar o leitor a pensar o que Angola será daqui a 150 anos e olhar para trás. E nisto descobre a nossa vida actual e faz juízo de valor sobre esta nossa vida. É um livro que está agora a ser adaptado para banda desenhada..

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