Cultura

Dor e consternação marcam o último adeus ao “Tio Mano”

Mário Cohen

Jornalista

O corpo do presidente do grupo carnavalesco União Mundo da Ilha, António Custódio, que durante 16 anos esteve na liderança da instituição, repousa, desde ontem, no Cemitério de Sant’Ana, em Luanda.

13/06/2024  Última atualização 10H55
Várias personalidades despediram-se, ontem, do presidente do grupo União Mundo da Ilha © Fotografia por: JOÃO GOMES | EDIÇÕES NOVEMBRO

Tio Mano, como era carinhosamente tratado, foi sepultado num ambiente de dor e consternação, ao som das canções do grupo, em que familiares, vizinhos, amigos e colegas de profissão estiveram presentes no último adeus. Uma multidão de admiradores e integrantes do Mundo da Ilha  acompanharam-no até à sua última morada.

O Ministério da Cultura, a Associação Provincial do Carnaval de Luanda (APROCAL), líderes de vários grupos carnavalescos de Luanda e figuras emblemáticas do Entrudo luandense enalteceram os feitos de António Custódio, durante a leitura de notas de condolências.

O cenário parecia ter parado no tempo por alguns instantes, porque ninguém conseguia conter as lágrimas ao ver a urna com o corpo do malogrado a entrar no Cemitério de Sant’Ana.

A sua dimensão artística permitiu a leitura de notas de condolências de organizações com diversos objectos sociais, tanto de cariz política, social, cultural e desportiva.

Poly Rocha, comandante emérito do grupo União Recreativo do Kilamba (URK), do distrito urbano do Rangel, e sobrinho do malogrado, disse que o Mundo da Ilha e o Carnaval de Luanda perdem um grande criador.

Para Poly Rocha, não só o Mundo da Ilha perdeu uma figura de destaque do mosaico cultural luandense, como o país viu desaparecer prematuramente uma das maiores figuras da "Festa do Povo”.

O comandante emérito do URK espera que o Munda da Ilha consiga manter a mesma estrutura, apesar de reconhecer que não vai ser uma tarefa fácil por já não contarem com a liderança e inteligência de António Custódio.

Um golpe duro

O secretário-geral da APROCAL, António de Oliveira "Delon”, explicou que a morte do presidente do grupo mais titular do Entrudo de Luanda, com 14 troféus, foi um golpe duro para o Carnaval de Luanda.

Como presidente e líder do Mundo da Ilha, salientou, trouxe muitas inovações ao grupo, como quebrar a tradição de que no grupo, o Carnaval só deveria ser dançado pelos mais "velhos”.

Delon recordou ainda que, antigamente, os jovens dançavam apenas na falange de apoio, uma realidade que já não se vive actualmente no grupo, acrescentando que  o malogrado fez muito em prol do desenvolvimento do Carnaval de Luanda, como também deu sustentabilidade financeira ao Mundo da Ilha.

Para o secretário-geral da APROCAL, o malogrado foi um líder que sabia ouvir, interagir e estava muito próximo dos outros grupos com objectivo de proporcionar "um bom ambiente entre as agremiação, apesar de serem adversários nos desfiles competitivos”.

Grande figura do Entrudo

Manuel Sebastião, homem de cultura e uma das grandes figuras do Entrudo da capital do país, que durante 40 anos conduziu os destinos do Carnaval de Luanda, confessou que o Mundo Ilha perdeu um grande obreiro, activista, dinamizador e grandioso líder.

Assim que soube da triste notícia, afirmou, fez uma análise comparativa, durante as quatro décadas que teve na comissão do Carnaval, para argumentar que, no processo de preparação e realização do Entrudo, "reuníamos com os grupos com finalidade de resolver problemas da distribuição das indumentárias, tecidos, dos subsídios e a discussão dos valores dos prémios”.

Com o passar dos anos, disse, tinha de se deslocar à Ilha para persuadir a liderança do Mundo da Ilha a dançar o Carnaval porque reclamavam que o subsídio era pouco.

O antigo director provincial da Cultura em Luanda revelou, ainda, que quando o António Custódio tomou a liderança do grupo Mundo da Ilha, as dificuldades e reclamações deixaram de existir.

Para Manuel Sebastião, o malogrado tinha uma visão sobre a gestão do grupo, com apoios e parcerias que conseguiu para dar sustentabilidade à agremiação.

Hoje, assegurou, 75 por cento do grupo são jovens, que na liderança do malogrado continuaram fiéis aos usos e costumes do povo ilhéu como a típica tradição da agremiação. Disse ainda, que os ilhéus e a administração local devem homenagear este homem de cultura por tudo que fez no grupo e no desenvolvimento do Entrudo.

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