A procura por alimentos continua a ser frenética nas principais superfícies comerciais da capital. Nos armazéns de frescos e bens de cesta básica, os preços aumentam dia após dia e a observância das medidas de prevenção, em algumas dessas unidades, não se faz sentir.
Numa altura em que o país observa um período de Estado de Emergência, por conta da pandemia do COVID-19, que já causou duas vítimas mortais, a alimentação, aliada à escassez de recursos financeiros, continua a ser a maior preocupação das famílias. Quando se fala em compras, para as donas de casa a prioridade recai para os produtos frescos e da cesta básica. Os legumes e frutas vêm em segundo plano. Embora façam parte das necessidades básicas, esses alimentos, muitas vezes, nem chegam às mesas das famílias, mesmo sendo os mais baratos do mercado. A equipa de reportagem do Jornal de Angola acompanhou a rotina de duas mulheres, no que concerne a compras para casa.
Eram 10h00 da manhã de segunda-feira, 30 de Março. O lenço à cabeça servia de cobertura para proteger o cabelo de possíveis exposições à poeira do armazém, localizado no Golf II. No local, havia apenas frescos e produtos da cesta básica à venda. Ao redor, mulheres com bacias e carros de mão, carregados de legumes, chamam a atenção dos potenciais compradores.
As chamadoras (pessoas que procuram clientes interessados em fazer sociedade na compra de alimentos) juntam-se ao aglomerado, chegando a confundir quem procura por um ou mais “sócios” para as compras.
O ambiente é frenético. Mas ninguém desiste da luta. Entre as dezenas de pessoas está Eva Leonel, que tenta furar para comprar uma caixa de coxas de frango. Em menos de um mês, o produto deixou de custar 7.800, passando agora a ser comercializado no valor de 9.700 kwanzas. Uma situação que não espanta a dona de casa.
“Infelizmente, temos um mercado muito instável. Cada um pratica e muda o preço do produto como e quando quer. E ninguém faz absolutamente nada”, lamentou.
Eva Leonel tem quatro filhos e disse que o frango é o alimento mais consumido em sua casa. “Os meus filhos são menores e comem muito bem o frango. Em minha casa pode faltar açúcar, mas o frango não”, justifica.
Em casa de dona Eva, além do frango, falta o açúcar, leite, massa e óleo alimentar, assim como legumes e frutas. Estes últimos, diz, não vai conseguir comprar, por falta de recursos financeiros. Para remediar, terá de comprar pequenos montes dos legumes que mais consome. “Não tenho dinheiro suficiente. Vou priorizar o tomate, a cebola e o alho”, avança.
Judith António dirigiu-se ao mesmo armazém em que se encontrava Eva Leonel. A opção pelo local de compras é o preço, que acredita ser mais acessível. Mas, antes de se deslocar ao referido armazém, passou pelo mercado do Catinton, onde aproveitou comprar os legumes e algumas frutas da época. “Infelizmente nada está barato. Estou a vir do Catinton e quase nada comprei”, explica.
De acordo com Judith, o balde de tomate está a ser vendido a cinco mil kwanzas. O monte de seis cebolas custa 500 e o de limão é mil kwanzas. Este último, disse, é o produto mais barato, quando comparado aos demais.
No armazém, Judith procurava por peixe, frango e isca. “Tirando a caixa de coxas, terei de fazer sociedade para comprar o peixe e a isca”, disse.
Alimentos baratos e nutritivos
A presidente da Associação Nacional dos Nutricionistas, Olga Mbunga, disse que, nesta fase de quarentena, as famílias devem melhorar a sua dieta alimentar e desenvolverem actividades que ajudam na imunidade do organismo. Falando sobre alimentos ideais para a saúde, garante que todos possuem o seu valor nutricional e benefícios, desde que sejam correctamente combinados.
“As famílias precisam de buscar por alimentos baratos e simples, com valores nutritivos consideráveis. São produtos que contêm vitaminas, de um modo geral, principalmente as vitaminas C e D, que ajudam na imunidade da pessoa”, explica.
Segundo Olga Mbunga, a múcua é um exemplo de alimento simples e barato, e que está ao alcance de todos. Acrescenta que é um nutriente muito rico e composto por quase todo tipo de vitaminas, que pode ser adquirido em qualquer mercado de Luanda. “Pode ser consumido com ou sem açúcar”, sublinha.
Os alimentos de origem vegetal, como a cebola e o alho, são antioxidantes e ajudam na imunidade. A esses vegetais, disse a especialista em nutrição, pode se acrescentar a couve, gimboa, repolho, miengueleca (folhas de abóbora), groselha, usse, que são alimentos baratos e com uma produção local considerável.
Para calcular o valor da refeição, de acordo com a nutricionista “é feita pelo somatório de todos os produtos utilizados para confeccionar o prato. Por exemplo, o valor do pacote de massa ou o quilo de arroz, mais o quilo de isca ou peixe, cebola, tomate e alho, é dividido pelo número de pessoas que se irá beneficiar do mesmo”.
Olga Nbunga acrescenta que a mesma aplicação pode ser feita para todas as refeições diárias, dividindo pelos seus beneficiários. Assim, disse, é possível saber o valor diário que uma casa gasta em cada refeição. “Fazendo desta forma torna-se mais fácil calcular e permitir às pessoas viverem do salário, aplicando os rendimentos em coisas mais baratas e saudáveis”, explica.
Hábitos saudáveis
Olga Mbunga disse que os profissionais com muito desgaste psíquico devem compensar o organismo com uma alimentação equilibrada, tendo no mí-nimo cinco refeições, em in-
tervalos de três, compostos por carboidratos, proteínas, vitaminas e outros.
“É importante que, ao criarmos novos hábitos alimentares, o equilíbrio seja de acordo às necessidades das pessoas.
Caso a pessoa tenha necessidade de vitamina C, que ajuda muito na imunidade, devem ingerir, por exemplo, sumo de limão, laranja e múcua, ricos neste tipo de nutriente”, disse. Para a nutricionista, em relação a outras necessidades proteicas, o indivíduo deve consumir peixes, carnes ou ovos, e sublinha que as fontes de carboidratos podem ser encontradas no funje, arroz, batata-doce e na mandioca.
A nutricionista Olga Mbunga recomenda os indivíduos a terem uma dessas fontes no prato e, quanto as fibras e mineiras, disse que já estão nas frutas e legumes. Na composição do prato, explica, é importante observar as cores, porque cada uma delas representa um tipo de nutriente, com funções específicas para o organismo, tais como a betacarotenes, flavoides ou o ómega 3.
Prevenção
da pandemia
Alimentação balanceada, ingestão de água e actividades físicas moderadas, entre outros hábitos para uma vida saudável, também ajudam a enfrentar o vírus transmissor do Covid-19. A nutricionista Olga Nbunga, disse que a prevenção do Covid-19, depende de medidas para evitar o contacto com o vírus, como a higienização das mãos com água e sabão ou com álcool gel, o distanciamento de pessoas, principalmente que tossem ou espirram, e manter-se em casa durante o período de quarentena decretado até ao dia 11 de Abril.
Quanto ao fortalecimento da imunidade, disse que este não impede o contágio nem a cura da doença, embora ajude o sistema imunológico a enfrentar o vírus. "Fortalecer a imunidade não impede o contágio nem cura a doença magicamente. Mas ajuda o sistema imunológico a estar cem por cento pronto para enfrentar o vírus", disse. A médica alertou que qualquer indivíduo está sujeito à infecção pelo novo coronavírus, principalmente se não cumprir com as medidas impostas pelos Serviços de Saúde Pública.
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