Entrevista

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Domingos Malaquias: “Amílcar Cabral assinou o primeiro panfleto do nosso grupo clandestino”

Militante do MPLA há mais de 60 anos, Malaquias António, cujo nome da clandestinidade era Domingos Malaquias, continua fiel ao partido, apesar da tristeza que sente por não ter sido ainda alcançado um outro objectivo da luta pela Independência Nacional - o bem-estar do povo angolano. Nesta entrevista, o nacionalista revela que o primeiro panfleto que Neves Bendinha apresentou ao seu grupo na clandestinidade foi assinado por Amílcar Cabral

24/08/2020  Última atualização 10H52
Edições Novembro © Fotografia por: Nacionalista do MPLA, Domingos Malaquias

Como é que entra para o MPLA?

As ideias revolucionárias iniciam na Igreja Metodista , onde tínhamos grupos denominados por “Esquadrão da Cruz”, “Estandarte de Cristo”, “Triângulo Vermelho”, “Triângulo Azul” e o Grupo “X”. O “Triângulo Azul” era especificamente para meninas, onde aprendiam cursos como Corte e Costura e Culinária. Na altura, a professora era a dona Maria da Silva, mãe do primeiro Presidente da República, António Agostinho Neto, que liderava o grupo.

É nesta altura que começa a engajar-se na actividade política?

Sim. Isso nos anos 1950, quando ainda não existia o partido MPLA, mas já tínhamos as nossas ideias. Eu pertencia ao Grupo “X”, composto por rapazes e raparigas com idades compreendidas entre os 11 e 13 anos. Foi nesse grupo onde começaram as ideias revolucionárias.

E como surge a ligação ao MPLA?

A partir de 1956, quando surge o MPLA, foi apenas uma questão de integração, porque todos que conheci no Grupo “X” integraram o movimento. Um ano depois, isto em 1957, fui contactado por um indivíduo de nome “Lulu”, que viria a fazer parte da revolta do 4 de Fevereiro de 1961. Depois de contactado, no período entre 1957 e 1958, orientado pelo camarada Carlos Alberto Van-Dúnem (Beto Van-Dúnem), de feliz memória, o Lulu veio ter comigo e recruta-me. Desde essa altura começamos a distribuir panfletos.
Nessa época, além do MPLA, existiam também panfletos distribuídos pela UPNA (União dos Povos do Norte de Angola).

Entretanto, em 1959, há prisões em massa de nacionalistas...

Em 1959 o companheiro Beto Van-Dúnem foi preso e julgado no dia 29 de Março, no caso conhecido como “Processo dos 50”. Mesmo ele preso, continuamos com o trabalho da clandestinidade, uns em grupos e outros de forma individual. Fazer luta clandestina não era necessariamente estar integrado num grupo. Se o chefe estivesse preso, o outro camarada devia continuar com a distribuição dos panfletos, mas sem se desviar da ideologia da organização.

Além de Beto Van-Dúnem, nessa época que outros nacionalistas conheceu?

Após a prisão do camarada Beto Van-Dúnem aparecem os nacionalistas Neves Bendinha, Colombo, Gaspar, Paixão André, Escurinho (António Francisco Cortez, também conhecido por Chico Adão), entre outros. Nessa altura, o camarada “Miguelito”, que participou na revolta do 4 de Fevereiro, foi parar à cadeia.
Constituído o grupo, almoçávamos, na altura, na Pensão Coimbra, localizada no Largo Serpa Pinto, nas imediações do local onde em tempos funcionava a sede da FNLA. Depois do almoço, sentávamo-nos nas escadas da Igreja do Carmo, que era o centro de concentração, onde falávamos da Luta de Libertação. Neste grupo, estava, também, Salvador Sebastião.
O primeiro panfleto que Neves Bendinha e Salvador Sebastião nos apresentaram foi feito por Amílcar Cabral, que fez questão de assinar o seu nome por baixo do panfleto. No panfleto, ele exortava à Luta de Libertação, não só de Angola, como também de todas as colónias e da África. Ainda no local de concentração, Neves Bendinha entregou o panfleto a Salvador Sebastião, na altura incumbido de fazer a leitura e nós sentados a ouvir atentamente. Foi nesse momento que surgiu um polícia que notou a nossa concentração sentados nas escadas da Igreja do Carmo.

O que aconteceu a seguir?

Após constatar a presença do agente da PSP (Polícia de Segurança Pública) perto do grupo, o camarada “Escurinho” (Chico Adão) começou a cantar uma música brasileira relacionada à escola. Depois, o polícia olhou para nós, surpreso, viu que estávamos reunidos e a cantar, acabou por ir-se embora. Depois do agen-te ir-se embora, o Salvador Sebastião retomou a leitura do panfleto. Depois do encontro com o nosso grupo, o camarada Salvador Sebastião di-
rigia-se, sempre, para a Igreja da Sé. Na altura não sabíamos o objectivo que o levava para lá. Só mais tarde é que ficámos a saber que, na Igreja da Sé, Salvador Sebastião ia ao en-contro do Cónego Manuel das Neves (um dos impulsionadores do 4 de Fevereiro), para concertação.

Ataque às cadeias foi antecipado

Também participou no ataque às cadeias no dia 4 de Fevereiro de 1961?

Não. Mas sei que o projecto para o ataque às cadeias era para enquadrar cerca de três mil homens. Mas desses três mil não chegaram a ir todos porque (o ataque) foi antecipado e de surpresa. Ninguém sabia que tudo estava preparado.

O que é que se passou?

Para o início da Luta Armada de Libertação Nacional houve dois ataques: o ataque surpresa e não programado e o ataque programado. O primeiro ataque foi preparado em segredo, divulgado apenas na véspera, onde atacaram na madrugada de sexta para sábado. Aqueles que não sabiam do primeiro foram fazer o ataque no dia 11 de Fevereiro de 1961. Nessa altura, as tropas portuguesas já estavam de atalaia, o que originou a perda de muitos cidadãos.

E como é que isso aconteceu?

Ninguém sabia que o dia “D” seria o 4 de Fevereiro de 1961. É assim que alguns camaradas que participaram nos treinos para o ataque não se aperceberam, acabando por não estar presentes. Esses que não foram, atacaram na semana seguinte, a 11 de Fevereiro. Como o invasor já estava preparado, tivemos muitas baixas. Por isso, na história do 4 de Fevereiro de 1961 existem aqueles que participaram directamente, os que não participaram directamente e aqueles que observaram para fazer a história. Não havia como irem todos.

Foi nessa época que muitos nacionalistas foram para o maquis?

Nessa época uma parte dos camaradas foi para o “maquis” na guerrilha e outra parte ficou no país, para informar à direcção do movimento que se encontrava no exterior sobre a situação do país. Quando o camarada Lúcio Lara regressou a Angola, no dia 8 de Novembro de 1974, chegou do Congo Brazzaville vindo da Zâmbia. Posto cá, tiveram que consultar os camaradas que controlavam Luanda, para saber se as condições estavam ou não criadas para mandar regressar os membros do movimento que se encontravam no exterior. Nessa época, os membros da clandestinidade exigiram que os ausentes regressassem, porque já estavam presentes, em Luanda, as forças da FNLA e da UNITA, em força.

Trabalhou directamente com o nacionalista Lúcio Lara?

Tive uma ligação directa com o camarada Lúcio Lara, com quem trabalhei durante 10 anos. Além de político hábil, o nacionalista Lúcio Lara, quando reunisse com os quadros do MPLA, contava com profundidade a história toda do partido e tudo o que sabemos hoje aprendemos com ele. Nessa altura, foi ainda antes da proclamação da Independência Nacional, como fui sempre mobilizador e propagandista, elementos da FNLA foram à minha casa, no Zangado, cercaram-me e fiquei a saber que tinha sido traído por amigos de infância. Logo que soube que estavam em minha casa, tive que saltar o muro do meu quintal e de um comerciante vizinho, onde, ao pular, cortei-me na mão com caco de garrafa e, até hoje, carrego a cicatriz.
Não obstante isso, com sorte, consegui fugir até ao Departamento de Organização e Mobilização Regional de Luanda (DOME), onde fiquei exilado, abandonando a família. Quando cheguei ao DOME Regional, como testemunha tenho o camarada Paulo Lara, filho de Lúcio Lara, que posto no local aconselhou-me a ir imediatamente para o SAMM (Serviço de Assistência Médica Militar), mais conhecido, na altura, como “Posto de Saúde”, que se encarregava de prestar assistência médica aos guerrilheiros e militantes do MPLA sediados na Vila Alice. Na altura, o enfermeiro do SAMM era o camarada Carneiro, que me curou do ferimento na mão.

Que outros episódios ou acontecimentos lhe marcaram durante a luta na clandestinidade?

Na luta clandestina o que mais me marcou foi a perseguição da Polícia Política Portuguesa (PIDE) e as prisões arbitrárias sem julgamento. Não era qualquer elemento, sem coragem, que se dedicava à luta clandestina, sabendo o perigo que corria.
A perseguição teve início em 1959 e continuou até 1961 e agravou-se mais devido ao 4 de Fevereiro, porque o grosso das prisões e chacinas das autoridades coloniais portuguesas contra os angolanos aconteceram mais depois do início da luta armada.

É nessa altura que também foi preso?

Não fui preso pela PIDE, mas, sim, detido por agentes da PSP (Polícia de Segurança Pública) por desacato à autoridade e por ter discutido e me envolvido num acto de pancadaria com dois agentes. Aconteceu na Mutamba, onde os agentes me encontraram sentado e tocaram a insultar-me e eu não admiti.
Nesse dia, fui parar à Mutamba porque depois de almoçarmos em grupo, como expliquei atrás, tínhamos o hábito de nos concentrar nas escadas da Igreja do Carmo. E como nesse dia não houve concentração, fui sentar-me num dos bancos da Mutamba, com um amigo de nome Brás Caetano, que não sei se ainda está em vida.

O que é que aconteceu?

Posto no local, o polícia chega, encontra-me no banco meio ensonado, dá-me um pontapé no pé, olhei para ele e reagi, como ele não conseguia aguentar a luta, o outro polícia apareceu e os dois levaram-me à esquadra. Após a briga prenderam-me, levando-me na Polícia Central, junto aos Correios, onde expliquei ao comandante o que tinha acontecido. Mas, infelizmente, o comandante acreditou nos colegas, o que me fez pernoitar na cela. No dia seguinte fui transferido para a Cadeia da Boavista, cujo chefe se chamava Dias.
De acordo com os contactos que tive com alguns camaradas, mais tarde, leva-me a acreditar que o chefe Dias ainda não estava ligado à Luta de Li-bertação, ou estava e procurou disfarçar. Isto, porque, quando fui transferido para a cadeia que ele chefiava, o polícia informou-lhe os motivos à maneira dele (que é político, tem ideias subversivas) e eu ao tentar explicar as principais razões que me levaram à detenção, o chefe Dias mandou-me dar uma grande surra.
Depois transferiram-me para a Cadeia de São Paulo, que pertencia à PIDE, já no fim da tarde, onde também pernoitei. Como eu já trabalhava numa gráfica, onde o patrão era branco, de nome Charula de Azevedo, na altura editor da Revista Notícias, o chefe estava ligado ao Sebastião Coelho, à Doutora Maria do Carmo Me-dina, António Cardoso, quer dizer, havia, igualmente, um grupo de portugueses e angolanos brancos que eram contra o regime colonial. Um deles era o meu patrão que, sabendo da minha detenção, deslocou-se à cadeia da PIDE e mandou soltar-me.
Antes de me soltarem disseram-lhe: “Vamos soltá-lo, mas a responsabilidade será sua”. Fui, então, libertado sob custódia do meu patrão, que me aconselhou a ter mais cuidado. Eu via no meu patrão um aliado, porque nas empresas de Artes Gráficas os trabalhadores da “Revista Notícias” tinham melhores condições salariais, porque o patrão aliou-se ao Champalimaud e ao Manuel Vinhas, da Cuca, na altura grandes empresas portuguesas.

Como é que escapou das prisões da PIDE?

Não fui preso pela PIDE porque na clandestinidade utilizava o nome de Domingos Malaquias, enquanto que o nome de registo sempre foi Manuel Malaquias Pedro António. Na clandestinidade não se devia utilizar o nome verdadeiro. Nessa época, por não saberem o meu verdadeiro nome, escapava das buscas. Uma vez, quando prenderam um membro do grupo, de tanto ser apertado para denunciar, disse o meu nome da clandestinidade. Depois de denunciado, os homens da PIDE foram até ao meu bairro, na altura no Marçal, e não conseguiram prender-me porque os meus pais e vizinhos não sabiam quem era o Domingos Malaquias. Quando cheguei à casa e soube que foram à procura do Domingos Malaquias, pus-me em fuga, já que as buscas eram feitas em vários dias e em todos os bairros.

Ninguém vos alertava sobre as rusgas?

Alguns cipaios, embora trabalhassem para os colonos, alertavam-nos que “amanhã aqui vai haver rusga geral”. Aqueles que estavam metidos nos grupos da clandestinidade abandonavam os bairros, porque as rusgas não eram feitas em simultâneo, a PIDE traçava estratégias e cada bairro tinha o seu dia de rusga, ora Sambizanga, Marçal ou Zangado.
Como era difícil deterem-nos devido aos nomes trocados, a PIDE optou por concentrar as pessoas num só local e o detido ficava num carro a mostrar quem é o fulano e o sicrano. Só assim conseguiam prender os da clandestinidade. Mas como não há nada que vem e não acabe, cansaram-se, começaram a deportar pessoas, apareciam e não apareciam, até que chegou uma fase em que se cansaram de fazer as concentrações de pessoal. Estes foram os momentos mais marcantes durante a luta na clandestinidade.

“Temos o direito de estarmos  todos ricos, mas de forma honesta”

Acompanhou várias gerações de militantes do MPLA. Como vê a militância de ontem e a de hoje?

A militância de ontem foi muito mais séria que a de hoje. Anteriormente, quando começámos a militar, a intenção era sairmos da situação em que vivíamos. Era tirarmos o colono sem olhar a meios para libertarmos o país e o povo.

E nos dias de hoje?

Já nos tempos de hoje, alguns militam por interesse. Os militantes de agora militam a dizer “onde é que vou chegar” e lutam de qualquer forma para atingir os seu objectivos. Este é o grande problema, não há amor à camisola. E dizem: “se me derem vou continuar, se não me derem vou desistir”. É tudo um jogo de interesses. Embora não sejam todos interesseiros, existem alguns que se filiam movidos pelo interesse, a pensar “onde é que vou chegar, vão me dar quanto para prestar a minha colaboração?”. Actualmente, uma boa parte das pessoas já não quer trabalhar por amor à camisola. Aliás, é o que estamos a presenciar hoje, o resultado está aí, estamos a ver os interesses pessoais patentes. Mas nós juramos, perante o cadáver do Presidente António Agostinho Neto, que iríamos seguir e cumprir os ensinamentos por ele deixados. Agora pergunto: Cumprimos? Não, falhamos.

De quem é a responsabilidade por esta situação?

Não aponto o dedo a ninguém. Nós mesmos estamos a falhar. Agora o nosso líder está a procurar pôr as coisas na linha, não há aqui estórias, as coisas têm que entrar na linha. O objectivo da luta não foi este. Se o nosso país é rico, temos todos o direito de estarmos ricos, mas de forma honesta, não esbanjando as riquezas do povo para o nosso próprio benefício, isso não. Este não é o projecto do MPLA de país independente.

Que medidas devem ser tomadas em relação aos interesseiros, os que não têm amor à camisola?

São as medidas que o Presidente João Lourenço e a nova direcção do partido estão a tomar. É necessário, sim, tomar medidas. Não sou sectarista, não sigo pessoas, mas sim os ideais do partido, porque o que me incentivou a ser do MPLA está escrito no primeiro estatuto do MPLA. Temos um Estatuto e um Programa, logo, se estás a trabalhar bem, aprovo, se não, digo que está mal. Doa a quem doer, direi mesmo que está mal e não falo fora do partido como muitos, que falam que são militantes e falam nos jornais e em Portugal.
Eu falo dentro do partido, porque me deram a possibilidade de estar presente, nem que estivesse numa estrutura ou comité de base, eu tinha que falar lá e argumentar o porquê e os que estiverem presentes que levem o recado. O mais importante é que falei, porque no local estão presentes membros das estruturas máximas do partido. Não posso dizer apenas que está mal, devo argumentar onde e porquê é que está mal, isto sim, se o argumento for certo ou não, os representantes das estruturas superiores vão levar a sua opinião. Este, sim, é o bom militante.
Na nossa época, o Presidente António Agostinho Neto reunia connosco no Departamento de Organização e Mobilização Regional de Luanda , na altura no Rangel, e levava o seu Bureau Político, dentre eles, os camarada Lúcio Lara, Henrique Santos “Onam-bwe”, Carlos Rocha “Dilolwa”, Sá Domingas, entre outros, e no local ouviam as nossas opiniões, sobretudo dos coordenadores dos Comités do Partido.

Hoje as coisas já não são assim?

Hoje, as circunstâncias mudaram. O Presidente da República, João Lourenço, tem que receber embaixadores e outras entidades do mais alto nível, o que lhe faz não ter tempo. Mas, não obstante isso, tem enviado militantes directamente a ele ligados para ouvir as nossas opiniões e levarem ao líder. Se têm levado ou não, se levam bem ou não, mas temos tido a oportunidade de apresentar o nosso ponto de vista.

Como vê a governação do Presidente João Lourenço, sobretudo na questão do combate à corrupção?

Boa iniciativa. O Presidente João Lourenço que siga em frente e nós estamos com ele. Estamos com ele nas decisões tomadas, sobretudo nós, os antigos combatentes, estamos de acordo com as medidas tomadas.

Como vê a questão da transição de gerações dentro do MPLA? Está a ser bem gerida?

A transição tem que ser feita, porque as novas gerações têm que substituir as velhas gerações. Agora, a escolha parte do Presidente. Quer dizer, nós aprendemos a governar, não nascemos com a governação. Aprender a governar leva tempo, logo, ele está a experimentar, nomeia este, nomeia aquele.
O Presidente João Lourenço tem que experimentar as pessoas. No meu caso, se meterem um grupo de pessoas a trabalhar para mim, tenho que ver quem está a render mais, e quem está a render menos, se dá ou não dá. Se a prestação de serviço do quadro não dá para agora, pode vir a dar mais tarde. E como actualmente é pressão, você tem que aguentar com a passada e se não aguentar ou se sabe que não vai conseguir, o melhor é dizer que ainda não pode assumir o cargo que lhe é atribuído, porque não está preparado.
E nesse caso, como ainda não está preparado, o quadro é substituído por outro. Esta atitude chama-se honestidade.
Tem que se fazer mudanças, já estamos velhos e cansados, apesar de que, no meu caso, estou velho, mas não cansa-do (risos).

Que mensagem tem para as gerações mais novas em relação à situação que o país vive?

A mensagem que deixo é de coragem e fé, porque a situação política e económica que estamos a viver não é nova, já passamos por situações piores nos períodos de 1974 a 1977. Mesmo falando da Covid-19, também já ocorreram, no país, surtos como a febre amarela, febre tifóide, entre outras epidemias. Passamos pior que isso, incluindo uma fome severa.
Nasci em 1937 e, durante a 2ª Guerra Mundial, os alimentos quase todos vinham de Portugal, produtos como o bacalhau, azeite doce, vinho, trigo, milho, manteiga, queijo, que chegava ao país especificamente para os europeus, mas nós, angolanos, sobrevivemos, porque estávamos habituados ao pão e produtos do campo.
Anteriormente não havia pão em Luanda porque existiam, na altura, apenas três padarias, nomeadamente a padaria Lima, na Brigada, uma na Maianga e outra nos Coqueiros. As restantes apareceram depois de 1960, como a padaria Bailundo. E na altura consumíamos o pão porque o meu pai trabalhava na Casa Americana, ia ao encontro dele até à padaria, comprava o pão e eu tinha a missão de levar para casa. Bons tempos, porque as padarias não vendiam o pão sem a broa.
Agora, quando não havia dinheiro para comprar o pão tomávamos o chá com batata doce, mandioca, banana-pão e tudo cozido para o pequeno almoço. Outra refeição foi a ngonguenha, que hoje é a farinha torrada misturada com água e açúcar. Mas, anteriormente, era misturada com café quente, refeição esta que nos aguentava o dia todo.
Portanto, a actual situação não é difícil. O problema está na densidade populacional, sendo que antigamente éramos poucos, a cidade não era desenvolvida com muita gente, daí a dificuldade. E por outro lado, a mercadoria provenien-te do campo não chega e, na minha opinião, chegaria se houvesse meios suficientes para o escoamento dos produtos do campo para a cidade. Mas, infelizmente, as estradas não estão em condições, o que faz com que os produtos não cheguem na totalidade aos locais onde deviam estar.
Mas tenho fé que a situação vai melhorar para os jovens, mas desde que surjam pessoas com boa vontade de trabalhar e que não se misturem com os que têm más intenções, mas, sim, juntar-se aos que defendem os interesses do povo.

“A nova direcção  do MPLA está no caminho certo”

E em relação aos militantes do MPLA, sobretudo os mais jovens, que mensagem deixa?

O conselho que deixo é que acreditem no MPLA e no novo líder. Quer a juventude, como os mais velhos fiéis militantes do MPLA acreditem no partido. Há quem diga que existe algum descontentamento, mas os que estão descontentes são aqueles que estavam habituados ao anterior sistema, acostumados à bandeja aberta, estes, sim, tudo é dinheiro, ganha daqui, ganha dali.
Estes descontentes têm que ter consciência de que a Independência Nacional não foi alcançada apenas para eles, não foi para servir meia dúzia de pessoas, mas sim para todos. Você já tem casa ali, quer mais outras casas e depois estão fechadas. Quantas pessoas agora não têm casa?! Que brincadeira de mau gosto é essa?! Casa aqui, ali, acolá e até agora estão fechadas. Comprou com dinheiro dele?

Essas situações estavam a desacreditar o MPLA?

Com esta e outras situações, o MPLA estava a cair numa situação um pouco delicada, mas agora estamos a levantar. Na minha análise, o MPLA está a voltar a subir. O povo já estava a desacreditar com estas situações de dirigentes que praticaram actos incorrectos. Logo, não havia como o cidadão acreditar. Portanto, a nova direcção do MPLA está no caminho certo e a intenção do Governo é construir casas para os mais empobrecidos, como nas zonas do Zango, para a população que foi desalojada.
Temos de ajudar o Presidente da República, João Lourenço, encorajá-lo a não recuar nas decisões, porque não há outra saída.

Que visão tem sobre a atitude do actual Governo em recuperar o que foi desviado?

Se eu estivesse na lista dos que desviaram, quando o Presidente da República deu a moratória dos seis meses, eu dizia à Procuradoria-Geral da República: “está aqui, faça a anotação, escreva e declaro entreguei. E acabou, ponto final, entreguei. Estava a tirar porque havia desordem, eu também tirei e agora optei pela ordem”.

É a favor da responsabilização de todos que não devolveram os fundos públicos desviados?

Todos aqueles que optaram pela desordem têm que ser responsabilizados por não acatarem a orientação do líder. Ele deu tempo. Estão a reclamar porquê?
Por exemplo, estes mesmos desertores, o que eles fariam se dessem uma ordem aos filhos e os mesmos não cumprissem? Deixavam ficar assim? Então, entravam numa desordem. Logo, os bons exemplos têm que partir de nós, dos pais. Tenho 10 filhos e nenhum deles é desordeiro, graças a Deus, isto porque sempre primei pela disciplina. Ou entras na ordem ou estás tramado comigo. Hoje cresceram e com disciplina, embora exis-ta um ou outro que quer fazer algumas coisas. Hoje já são adultos, mas não podem dizer que lhes eduquei mal.
Se for para castigar devem ser todos castigados e esse castigo tem que ser aplicado contra os mais fortes, os que praticaram maiores acções nefastas no país, devolver o que tiraram não custa.

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