Sociedade

Domingos de Almeida Jacinto: “O desenho livrou-me das drogas e agora é o meu único companheiro”

Augusto Cuteta

Jornalista

Com o lápis amarelo, do tipo HB-2, o rapaz faz alguns rabiscos numa folha A4, que tem apoiada numa base trabalhada, espécie de contraplacado. É ali onde coloca grande parte da sua concentração, enquanto a mão direita, de forma subtil, não para de pressionar a ponta do grafite que deixa as marcas de carvão sobre o branco do papel.

02/08/2022  Última atualização 07H00
Domingos de Almeida Jacinto tem ocupado os seus dias na rua a transportar a imaginação para a representação gráfica © Fotografia por: rafael tati | edições novembro

Minutos depois, no papel que tem sobre o joelho direito, mais erguido que o da outra perna, o desenho começa a ganhar forma. A imaginação é manifesta em imagens resultantes da arte de juntar linhas e pontos.

E quando o desenho de Domingos de Almeida Jacinto, o Dudu, para os mais próximos, é identificado, por ter atingido a forma, o repórter deste jornal dá início ao diálogo com o pequeno artista, que se encontra sentado no chão.

Dudu é de poucas palavras, talvez, consequência de uma primeira vez em frente de um jornalista a enchê-lo de perguntas e de dezenas de flashes de uma máquina fotográfica, para ver a sua história de vida e imagens estampadas num jornal. Mas, consegue manter a conversa com os repórteres.

Porém, num diálogo de mais ou menos 30 minutos, o rapaz, com 17 anos, completados a 28 de Março, em nenhum momento joga os olhares para o entrevistador. Mantém sempre o rosto para baixo, desviado para o desenho que pinta.

Desenhar é a paixão de Dudu. Por isso, preenche seus dias, sentado, num ponto da rua Rainha Ginga, ao pé do antigo edifício da Sociborda, entre as 8h00 e 17h00, a expor uma série de imagens por si desenhadas.

Mas, essa paixão pelo desenho não é recente. O adolescente, nascido nas terras da Nossa Senhora do Monte, no município do Lubango, inspira-se no falecido pai, que, também, dominava a arte. Aliás, em casa tem, ainda, quadros pintados pelo progenitor, que deixou o mundo dos vivos, em 2014.

E quando fala da morte do pai, Domingos de Almeida Jacinto não chora. Tenta mostrar-se um rapaz forte, mas a voz, já tímida, soa de forma mais ténue e esquiva-se, por isso, do assunto. "A minha mãe vive na Huíla, com as minhas duas irmãs. Nunca mais nos falamos, desde Abril”, realça.

Abril é o mês em que o adolescente, contra a vontade da mãe, de 47 anos, deixa Lubango, a família, os amigos e os sonhos antigos, para experimentar novos rumos em Luanda. Posto na capital do país, as coisas não correm bem e Dudu acaba na rua.

"Eu só queria lutar para dar um pouco mais à minha mãe, porque nós sofríamos tanto, desde que o pai morreu. A mamã vende na rua e o negócio de sabão e lixívia não ajuda muito. Infelizmente, aqui não é bem como ouvíamos lá, no Lubango”, confessa.

Inspiração divina na causa

Sem eira nem beira, em Luanda, nos primeiros dias, Dudu vira catador de latas, para vender às casas de pesagens. A actividade exige muitos sacrifícios, o que, para um desconhecer da metrópole, torna-se, ainda, mais complexo. Por isso, desiste.

Dias depois, toma contacto com a Ilha do Cabo. Inspirado por novos amigos, começa a montar sombrinhas na praia, para acolher os banhistas. Depois das horas de expediente, à noite recolhe-se num cantinho, algures na Baía de Luanda.

"Dormir na rua era duro. Havia dias que não dormia. Arrependia-me de ter fugido de casa e vir aqui onde sofro mais do que antes”, destaca Domingos de Almeida Jacinto.

Fruto desse transtorno psicológico, e influenciado por amigos, Dudu cai nas drogas. Começa a usar liamba e a inalar gasolina. Luta, por meses, para sair desse mundo, mas o vício é mais forte.

O rapaz sente-se perdido. Os conselhos que recebia na rua são um pleno incentivo para experimentar outras drogas. Mas, um dia, mesmo sob efeito de droga, pega uma folha e um lápis e co-meça a desenhar, não se lembra o que, e jamais soltou esses instrumentos.

"Acredito que foi Jeová que me deu aquela visão. Hoje, estou livre das drogas. O desenho ocupa os meus dias e não vejo tempo para fumar nem beber. Por isso, digo que esta arte me tirou do vício e é o único amigo que tenho”, diz.

Medicina é ainda um sonho

A história de Dudu, contada nessa conversa, com uma série de pausas, é comovente. Nalguns momentos, o repórter se emociona, mas segue à risca a máxima de que "um homem nunca chora”. Não parece ser o mesmo que acontece com o fotógrafo Rafael Tati, que, ao ouvir o desejo do menino de regressar ao Lubango, mostra as debilidades emocionais e garante ajudá-lo.

Enquanto isso, o rapaz, forçado a abandonar a escola, na oitava classe, continua a enfrentar as noites friorentas ao relento, na rua Rainha Ginga Mbandi, e os dias tristes, na companhia de uma dezena de desenhos, que vende cada entre 150 a 200 kwanzas.

"Há dias que fico sem comer nada, se não vender desenho nenhum. Às vezes, vou à padaria, onde me dão um pão para enganar o estômago”, conta Dudu, que, apesar do sofrimento, tem certeza de que, ainda, pode realizar o seu outro grande sonho: tornar-se médico ginecologista.

"Quero um dia ser um bom profissional na arte de desenhar”

 A frase segundo a qual "quem corre por gosto nunca se cansa” é dos principais lemas de Dudu, que, apesar da experiência menos boa dos últimos anos, tem fé que as coisas vão mudar para melhor.  Um dia, eu serei um bom profissional”, diz o rapaz, numa altura em que estica uma das pernas, que tem dobrada, para suportar a base onde apoia a folha de papel. A oportunidade serve para o jornalista, também, sentado no chão, se levantar e dar fim ao diálogo.

Antes de sair, o rapaz agradece pelo gesto da equipa deste jornal, que se despede. E Dudu, sempre cabisbaixo, continua a pintar. Passa as cores vermelha na boina e a preta no rosto do homem que desenha, para lhe fazer a barba.  Depois de uns metros, o autor desse texto ainda olha para trás. A ideia é encarar o adolescente, mas este está de rosto preso nos seus desenhos. Dá apenas para reter a imagem de um menino de roupas sujas e chinelas velhas. Pelo odor que exala chega-se a pensar que está há dias sem tomar banho. Mas, nele vê-se, igualmente, um ser talentoso e cheio de sonhos!

Neto e Dos Santos já "vendidos” 

A pintura começa como um  hobby, ainda no ensino primário, mas o tempo faz dela a sua outra grande paixão, juntamente com a Medicina, profissão que quer seguir quando for grande.

Mas, a prática da Medicina está longe. Por isso, é o conjunto de lápis, aguarela, marcador e folhas A4 que preenche os dias desse menino, que faz da rua a sua galeria, onde, diariamente, expõe entre dez a 16 desenhos. Desse número, no mês, chega a vender sete ou oito.

Dos "quadros” vendidos, Dudu tem em memória dois trabalhos: os desenhos dos Presidentes Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos. Mas, além dessas figuras históricas angolanas, já desenhou, entre outros, a Bandeira Nacional e a Insígnia da República.

Também desenhou as bandeiras de Moçambique e de São Tomé e Príncipe. Sobre esses trabalhos, Dudu tem uma explicação simples. "São os países onde o pai tinha ido estudar”. Domingos de Almeida Jacinto é rápido a desenhar.

Em menos de uma hora, diz que consegue, a partir da imaginação, ter o esboço, desenhar e pintar. "Quando bem disposto e sem muita fome consigo, num dia, chegar aos dez trabalhos”, realça.







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