Reportagem

Dolisie: onde os guerrilheiros forjaram a luta

Alberto Coelho | Cabinda

Jornalista

Dolisie, capital da província congolesa de Niari, é uma região histórica do ponto de vista da luta de libertação nacional. Aqui se constituiu a frente e a retaguarda da organização da luta contra o colonialismo português em Cabinda, segunda região militar no interior de Angola, por ali passaram Agostinho Neto, que organizou a luta, e outros dirigentes do MPLA.

29/11/2021  Última atualização 05H50
Agostinho Neto fixa a sede em Brazzaville, República do Congo. © Fotografia por: DR
Apesar de o Congo viver, na altura os primeiros anos de Independência, conquistada a 25 de Agosto de 1960, as autoridades locais abraçaram a causa da luta de libertação de Angola. No quadro das comemorações do 46º aniversário da Independência Nacional, o Jornal de Angola esteve em Dolisie para reviver momentos que marcam a História da luta de libertação nacional.


Aleixo Bungo Muel, mais conhecido por "Mapa de Angola", ex-guerrilheiro que pertenceu ao "Esquadrão Maiombe", temido pelos actos de bravura contra o ocupante, ajuda a perceber como o MPLA se estabeleceu em Dolisie, durante mais de dez anos, criando as principais bases que serviram de trampolim para ataques aos quartéis do Exército português, no Alto Maiombe, em Cabinda.


"Mapa de Angola" referiu os motivos que levaram o MPLA a estabelecer-se em Dolisie ao invés de Brazzaville. O ex-guerrilheiro, já na casa dos 70 anos, com memória de elefante, explicou que, em 1963, o Congo Brazzaville era constituído por nove regiões e igual número de ministros no Governo. Alphonse Massemba Délbat era o Presidente da República e Pascal Lissouba, o Primeiro-Ministro, igualmente, titular pasta da defesa civil. A pretensão de Agostinho Neto em levar o MPLA para o Congo e de lá continuar a luta de libertação de Angola do jugo colonial, depois de ser expulso de Kinsahsa, provocou alvoroço no seio do Governo congolês. Todos ministros se opuseram à ideia, por recearem uma possível retaliação da antiga potência colonizadora, a França.


Pascal Lissouba foi o único a mostrar-se sensível à causa angolana. Contra a vontade dos demais, Lissouba, então Primeiro-Ministro, decidiu autorizar o MPLA a estabelecer-se no Congo. Segundo o "Mapa de Angola", os ministros derrotados pela determinação de Lissouba de abrigar Neto no território congolês, obrigaram-no a instalar o MPLA, em Dolisie, sua terra natal. Instalado em Dolisie, Neto, em companhia do comandante da defesa civil local, o congolês Pedro Baki, visitou a linha de fronteira com Mukeke, que separa Angola e o Congo, para definir a estratégia de luta contra o ocupante.


O primeiro quartel dos guerrilheiros do MPLA foi em Mangakala, entre Dolisie e Kimongo. Infelizmente, um incidente com o rebentamento de um engenho explosivo, que matou  animais dos aldeãos, provocou a ira da população que pediu às autoridades que retirassem dali a base. Assim, o MPLA retirou-se de Mangakala e instalou-se em Ilupanga, na fronteira com o ex-Zaíre. A base servia para acolher os angolanos que desertavam das fileiras da UPA/FNLA e mostravam interesse em aderir ao MPLA.


Para reforçar as fileiras da guerrilha, em 1963, o MPLA fez o primeiro recrutamento militar em território congolês. Muitos jovens, idos de Ponta-Negra e de outras regiões, entre os quais Pedro Maria Tonha "Pedalé", Nzaji, Hoji-ya-Henda foram recrutados e enviados ao Km 45, em Brazzaville onde se encontrava o centro de treinamento. O Centro de Instrução Revolucionário (CIR) foi a principal base de formação dos quadros militares que foram enviados para várias frentes com o objectivo de criarem regiões militares no interior de Angola. Reforçado com novos efectivos, o MPLA criou, em Mbataluango, entre Mukeke e Mukonzi, a terceira base, que também serviu para acolher angolanos idos de Congo Leopoldville, sobretudo fugidos da FNLA.


Nos finais de 1963, o MPLA conseguiu instalar vários aquartelamentos ao longo da fronteira entre o Congo e Angola, no perímetro Mukeke e Ilupanga. Criadas as condições de luta, o MPLA intensificou as acções de guerrilha contra as tropas coloniais. O primeiro alvo foi o quartel de Miconje, próximo da aldeia congolesa de Panguí. Em 1968, Massembá Debá, defensor do "marxismo bantu”, foi deposto, por um golpe de Estado,e substituído por Marien Ngouabi, que tentou implantar o marxismo-lenenismo no Congo.


O novo Presidente simpatizou com Neto e a sua causa. Prestou todo o apoio aos angolanos na sua luta contra o colonialismo português. Os ataques aos quartéis coloniais em Cabinda, intensificarem-se. Em retaliação, os portugueses bombardeam as aldeias congolesas juntos à fronteira, provocando várias mortes entre as populações. Passaram, também, a miná-las.
Para evitar mais danos à população, Marien Nguabi aconselhou Neto a adoptar novas tácticas de luta, deslocando as bases militares do MPLA do eixo da fronteira comum para dentro do território congolês.


As operações de guerrilha passaram a ser coordenadas, a partir das bases de Kalunga, Unidade e Esperança com ataques frequentes às posições portuguesas no Alto Maiombe, nomeadamente Miconje, Caioguembo e Buco-Zau. Neste período, referiu "Mapa de Angola", as forças colonimais registaram muitas baixas em homens e meios militares, sobretudo, na famosa "Curva da Morte", no troço Sanga Planície/rio Lombe, uma zona de um relevo bastante acidentado, ladeada por um trio de montanhas, onde os guerrilheiros se posicionavam para atacar as viaturas do Exército português. "Em média eram três a quatro ataques por mês", lembrou.


Registaram ainda vários ataques ao Chimbéti, Buco-Zau, coordenados pelo comandante Ndozi, a partir da base de Bangá. O nosso entrevistado explicou que o material militar para sustentar a guerra era proveniente da ex-URSS, através da República do Congo, com o envolvimento directo de Marien Ngouabi. "Mapa de Angola" revelou ao Jornal de Angola que, o Presidente congolês teve imensas dificuldades para convencer os soviéticos a venderem material de guerra sofisticado de seu fabrico aos africanos. "Marien Ngouabi advertiu aos soviéticos que caso Angola não fosse independente seria impossível o marxismo-leninismo e o socialismo triunfarem na África central", sublinhou.


O empenho de Ngouabi no processo da luta de libertação angolana foi extensivo às negociações sobre o envio de tropas cubanas para Angola. No quadro do princípio que defendia: "Os inimigos do meu amigo também são meus inimigos", Marien Nguabi pediu ao Presidente Fidel de Castro para mandar tropas para ajudar a luta do MPLA contra o colonialismo português. No quadro dessa ajuda, Cuba enviou três mil homens para o Congo, todos  negros, que se juntaram aos guerrilheiros do MPLA, em Ponta-Negra e Dolisie.


Com a mudança do quadro político em Portugal, devido à Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974, foi decretado o cessar-fogo entre Portugal e as suas colónias em África. Fruto desta situação, em 1974, o MPLA deixa o Congo, entrou no território nacional e se estabeleceu-se na cidade de Cabinda. Nessa altura, de acordo com "Mapa de Angola”, a província vivia uma convulsão político e militar que envolvia o MPLA, FNLA, UNITA, FLEC e a administração colonial.


"Apoiada pelo Exército de Mobutu e mercenários franceses, a FLEC progredia no Sul, com o objectivo de ocupar o território e proclamar a independência de Cabinda,  a UNITA e a FNLA também intensificaram a luta contra o MPLA. "Mapa de Angola” caracterizou o ambiente que se vivia, na altura, em Cabinda como de "terror, medo e pânico" entre a população, que começou a abandonar a cidade em busca de tranquilidade em outros países”.  "Os bravos combatentes do MPLA, com o apoio das tropas cubanas, conseguiram expulsar o inimigo do território, obrigando-o a retirar-se para o então Zaíre".


O que resta de Dolisie

O MPLA chegou a Dolisie em 1963 e transformou a região na principal retaguarda, favorável em termos operacionais para as incursões dos guerrilheiros da segunda região. Aqui, aquele movimento de libertação "tinha um povo que o apoiava incondicionalmente e criou infra-estruturas importantes para o sustento da guerrilha”.


Hoje, 47 anos depois, de Dolisie resta o património humano, constituído por pessoas com sinais visíveis do peso da guerra, que manifestam contudo determinação de preservar a História que o MPLA começou a escreveu com letras de ouro no processo de luta de libertação nacional no território congolês. Estão lá os antigos guerrilheiros e as famílias que enfrentam dificuldades de vária ordem, porque lhes falta quase tudo. Estão esquecidos e atirados à sua sorte.


Actualmente a comunidade angolana em Dolisie é constituída por mais de dois mil cidadãos, de três gerações, já que a presença dos angolanos é anterior à chegada daquele movimento. Mas, a forma mais expressiva e organizada registou-se com a abertura das bases. "Temos uma comunidade organizada desde a implantação, aqui, do consulado, em 2007. Tem havido esforços no sentido de organizar a comunidade, acolher as suas preocupações e transmiti-las às estruturas centrais do país", afirmou,  ao Jornal de Angola, o cônsul-geral de Dolisie, João Viegas.


Em relação ao património material, sobretudo infra-estruturas, quase nada restou. Tudo foi perdido a favor dos congoleses. A escola, por onde passaram grandes quadros do MPLA, converteu-se numa base militar do Exército congolês. Das casas onde viveram dirigentes do movimento, como Lúcio Lara, Ndozi e Pedalé não há rasto. O consulado está a trabalhar na identificação deste património, com vista à recuperação a favor do Estado angolano.


"Há um processo de recuperação e de localização de algumas casas. Umas já não existem e outras têm outros proprietários em função do seu abandono, porque não houve o cuidado de se fazer um acompanhamento em termos de registo. Temos tido dificuldades, mesmo compulsando todos os dados a nível de cadastro, já que não há nenhuma estrutura oficialmente inscrita como património angolano", referiu o cônsul-geral, João Viegas.


A casa de Neto

O Jornal de Angola visitou a residência oficial de Agostinho Neto, na localidade de Mulende, a cerca de 10 quilómetros da sede de Dolisie. Uma casa com dormitório, cozinha, casa de banho, lavandaria e um reservatório de 500 mil litros de água. Dada a importância histórica da presença do MPLA em Dolisie, o Consulado pretende transformar a residência em Casa de Cultura, para unir os povos de Angola e Congo. De  modo a preservar este património, o Consulado tem realizado, no local, actividades comemorativas do Dia do Herói Nacional e da Independência Nacional. Junto à residência de Neto, onde viveu com a família, há uma vasta extensão de terras, onde os guerrilheiros cultivavam produtos para o  sustento e uma área onde o presidente do MPLA recebia, em audiências, os comandantes das frentes militares da guerrilha.


Um congolês que lutou pela causa angolana

Moukoko Jean Emile, natural de Kimongo/Dolisie, província de Niari, é um dos muitos congoleses que ajudou o MPLA na luta de libertação contra o colonialismo português. Era chefe de milícias, em Kimongo, o que lhe conferia um perfeito conhecimento e domínio da geografia do perímetro Kimongo/Muconzi, área onde as acções de guerrilha dos combatentes angolanos eram bastante intensas.


Servia de cicerone  aos combatentes na localização dos quartéis portugueses sempre que ocorressem operações militares na zona. Com mais de 80 anos, Moukoko Emile não frequentou a escola e lamenta o facto de não saber ler, nem escrever.Já sente o peso dos mais de 80 anos que carrega aos ombros muitos, deles dedicados à causa angolana. A relação iniciou-se logo o MPLA chegou a Dolisie, em 1963, depois de ser expulso de Kinsahsa. O objectivo era continuar a luta armada iniciada a 4 de Fevereiro de 1961.


Mesmo com dificuldades em andar, Moukoko Emile percorreu 50 quilómetros, de Kimongo a Dolisie, para contar, ao Jornal de Angola, a história da sua contribuição no processo de luta de libertação de Angola. O antigo guerrilheiro diz ter acompanhado, durante anos, as missões dos combatentes angolanos liderados pelo comandante Ndozi contra os portugueses. Era um guia indispensável cabia-lhe a tarefa de localizar os pontos do inimigo entre Kimongo, Muconzi e Londolicai. O velho guerrilheiro orgulha-se, da contribuição dada ao processo de libertação de um país africano, da colonização europeia.


Ajudar os angolanos era uma missão perigosa para Moukoko Emile, já que ocupava um cargo de chefia na milícia congolesa. "Isto podia custar-me uma cadeia", reconheceu. Mesmo assim, afirmar que a cadeia não importava, diante da nobre tarefa de ajudar outros irmãos africanos a libertarem-se do sofrimento imposto pelos europeus. O velho guerrilheiro afirmar que, durante o período de guerrilha, fez "amizades marcantes” com os angolanos, sobretudo a chefia militar. Esteve várias vezes com Agostinho Neto, na base de Manzau, sempre que o líder do MPLA se deslova à zona, para controlar as posições militares e falar com a tropa.


Ao longo da conversa, o velho guerrilheiro fez uma pausa. Puxou de uma pasta já gasta pelo tempo, onde guarda objectos pessoais de valor. Retirou do seu interior uma colher que exibiu ao repórter. "Esta colher foi de Agostinho Neto", afirmou. Perante o espanto do jornalista, acrescentou: "Não duvide! Esta é a colher que Neto usava para comer, sempre que fosse para a base de Manzau". O nome de Neto está cravado na parte côncava da colher. Questionado como adquiriu o utensílio, explicou: "Quando os guerrilheiros estavam a abandonar as bases para Cabinda, deixaram vários pertences pessoais. Desses objectos que recuperei estava esta colher de Agostinho Neto, que guardo como relíquia".


MPLA continua sólido

Apesar de ter saído de Dolisie nos primórdios da Independência Nacional, o MPLA deixou na região uma estrutura partidária bem organizada. Com o tempo, foi-se solidificando e tornou-se mais coesa. Os militantes lutam, diariamente, para manter o que o partido conquistou durante a passagem pelo território congolês, durante a luta de libertação.


Em declarações ao Jornal de Angola, o primeiro secretário do MPLA, em Dolisie, Afonso Quilombo, disse que "os esforços, neste momento, estão virados para a expansão da actividade do partido em toda província de Niari, onde conta com 1876 militantes, distribuídos por 21 Comités de Acção”. "O processo de recrutamento de novos militantes está condicionado à falta de transporte para facilitar a mobilidade dos brigadistas nas aldeias”, disse.


 Organicamente, o comité do MPLA de Dolisie depende do Comité Provincial de Cabinda. Segundo Afonso Quilombo, em breve, a dependência será directamente das estruturas centrais do partido, em Luanda. Com o aproximar das eleições gerais, os militantes manifestam-se confiantes na vitória do partido. Para que isto aconteça, de acordo com Afonso Quilombo, o partido deve organizar-se e trabalhar na preparação dos militantes para o processo de votação. "Vamos sensibilizar os nossos militantes para aderirem ao registo eleitoral, que deve iniciar-se em Janeiro", disse.

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