Cultura

Do fenómeno Mamborrô ao virtuosismo das Gingas

Betumeleano Ferrão

Mamborrô, Joseca, João de Assunção e Tony Stério fizeram parte da primeira geração de cantores-piô que depois de atingirem o estatuto de consagrados (era assim que eram designados quando deixavam de ter idade para permanecer na música infantil) participaram com sucesso no Top dos Mais Queridos.

20/06/2021  Última atualização 08H40
© Fotografia por: DR
A minha mente já está com vírus mas me parece que Joseca foi o quinto classificado na mesma edição conquistada por Mamborrô em 1987. O nosso Mamborrô venceu também na Cidadela o Top dos 5 (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé).

Mas essas conquistas de Mamborrô não estariam completas se passasse ao largo do estado de choque e de agitação mental que tomou conta de Luanda, quando boca-a-boca se soube que ele estava nos Adidos, fardado como mancebo das FAPLA. O serviço militar era obrigatório a partir dos 18 anos, mas a voz do povo foi soberana e o fenómeno Mamborrô nem terminou a recruta. A guerra estava intensa como nunca antes e já afectava a todos, mas o povo queria tudo menos perder um dos seus maiores motivos de alegria.

As muitas lágrimas que derramamos quando a Nova Energia realiza o Show Piô, que via de regra tem sempre muita audiência, também tem muito a ver com o impacto Mamborrô na nossa música infantil. Quando ele morreu até pessoas na casa dos 60 anos ficaram emocionadas e contaram aos seus filhos e netos o que a minha geração teve o privilégio de testemunhar em primeira mão.

O Balão Mágico e o Trem da Alegria eram rivais no Brasil, ambos tinham fãs em Angola. Quando o Trem da Alegria veio a Luanda, a convite da Sonangol, o Rádio Piô criticou os muitos adultos que tomaram o lugar das crianças no Cine Karl Marx, mas é ponto assente que o Trem da Alegria não chegou perto da loucura que Mamborrô provocava. Mesmo sem estar em palco fazia todo o mundo dançar.

Os Impactus 4 nunca abandonaram a zona de conforto da sua terra natal, Benguela, mas todos olhavam para a sua "fruta” na RNA e TPA, ainda mais porque eram a primeira e única banda infantil da nossa música infantil. Curiosamente, a banda fez a transição para a fase adulta quando os seus integrantes já residiam em Windhoek (Namíbia). "Magui” foi a porta larga de oportunidade por que reentraram na música angolana. A saudade da terra fez os manos Semedo cantar Angola com um refrão a exaltar a dança da moda, o Kuduro. Eles apareceram a dançar Kuduro no vídeo de "Magui”, gravado no Lubango; a caçula Yola Semedo, como sempre, roubou a cena aos irmãos e faz a solo uma carreira de muito sucesso. Mas não é um caso ímpar.


Isidora Campos

Ainda como promissora cantora-piô, Isidora Campos ganhou a simpatia de Chico Madne. Sem a sombra do também baixinho Eduardo Paim, à época já radicado na tuga, Chico Madne emergiu como o maior produtor da música infantil. A sua declarada simpatia por Isidora Campos não a tornou numa instrumentista, como ele ambicionava ao ensiná-la a tocar vários instrumentos musicais. Parece que foi melhor assim. Na fase adulta Isidora Campos se tornou numa jovem muito bonita e atraente, com brilho. O seu tema "Amor Proibido” – "Sambapito” é o título do povo - chegou a ser das músicas mais escutadas e cantadas em Angola.

Quando Chico Madne e Isidora Campos abriram espaço para a entrada de Beto de Almeida, a partir de 1993/94 esse triunvirato se tornou numa das referências da música feita em Angola. Se Beto de Almeida deu um toque especial ao "Amor Proibido”, é ponto assente que Isidora Campos soube retribuir em "Everybody Dance”. Nessa música se menciona o avilo Miller Gomes, rosto visível da discoteca MG, no Prenda. À época Miller Gomes ainda não tinha encerrado a carreira futebolística como sénior, iniciada em 1986 na TAAG, hoje ASA.  O legado de Isidora Campos tem de ser reconhecido e enaltecido porque ela foi a primeira da sua geração a fazer a transição para a fase adulta, sem queimar etapas na carreira musical!

Alguns cantores-piô abalaram, na juventude, para Portugal no início dos anos 90. Lá tentaram dar continuidade à carreira mas sem muito sucesso. Tony Stério desapareceu no mercado tuga. Mas acabou por ser Maya Cool, o cantor-piô Lucas de Brito, a surpreender a todos, a meio da década de 90, como exímio instrumentista. O disco "Perfume”, de Fernando Santos "Aiaia”, é talvez a sua carta de recomendação, mas algum tempo depois ele começou a cuidar da sua carreira a solo, que é exitosa. A geração do Kuduro não sabe que Maya Cool e Ângelo Boss também merecem ser reconhecidos pelo contributo que deram, a partir de Portugal, para a criação da batida do que é hoje chamado Kuduro.


Sob a batuta de Rosa Roque

Em Junho de 1993, As Gingas actuaram num show infantil realizado na Cidadela. Lito Graça também lá esteve a alegrar as bancadas com o seu "Retró”. Dias depois o Mujimbu do Quintal do Ritmo, da RNA, revelou que o baterista/cantor estava em Portugal. Em terras lusas Lito Graça se juntou a outros colegas do extinto conjunto O Facho e formaram a banda Semba Masters, numa época em que em Lisboa já se tinha concluído o silencioso, porém ruidoso, resgate da música angolana. A Kizomba tinha prevalecido ao defunto Sezou. Zé Mónica morreu mas Tony Nguxi e Jamol Lobo estão vivos e podem falar do Sezou.

Nas rádios, televisão, festas e discotecas em Angola e Portugal era a Kizomba a reinar, mas quando As Gingas deixaram de dar o ponto na boca e como adultas surgiram como seis vozes femininas, o seu disco de estreia intitulado "Mbanza Luanda” também mudou para sempre mentalidades, até em Portugal.

É quase impossível explicar isso em poucas palavras, mas foi a partir de "Mbanza Luanda” (1996), que a geração de cantores nascidos nas década de 70/80 começou a perceber que o Semba afinal não era só uma coisas de kotas. Consta que em 1993 Carlitos Vieira Dias já estava a influenciar Paulo Flores a dar uma chance ao Semba. O sucesso do disco das Gingas também colocou o Semba Masters nos píncaros da glória, tanto é assim que ir à tuga gravar com a banda, num determinado momento, fazia lembrar Os Jovens do Prenda na era colonial. Realmente, assim como sucedeu com quem gravava com os Jovitos, bastava ter Betinho Feijó e companheiros no acompanhamento para fazer logo sucesso.

Com "Mbanza Luanda” na boca do povo, As Gingas deixaram todos com água na boca. O mercado ficou agitado como nunca antes porque a fasquia foi colocada onde nunca esteve antes. As Gingas abriram um verdadeiro precedente e deixaram os colegas com motivos de queixa ao enveredarem, com sucesso, pelos géneros musicais ditos dos kotas. "Mbanza Luanda”, "Kaluanda”, "Malanje Natureza e Ritmos” e "Muenhu” são bons exemplos de "chapadas com mão” das Gingas e, sobretudo, de Rosa Roque.

As Gingas era um grupo juvenil com uma compositora versátil, inovadora e muito avançada no tempo. Desde 1975 ninguém em Angola compôs mais do que Rosa Roque. As Gingas exibiam com sucesso o testemunho do que Os Merengues, Jovens do Prenda, Semba Tropical, Semba África, e por que não, os Afra Sound Star e Eduardo Paim, só para citar estes, já faziam, ou seja, adaptar a Kizomba e o Semba aos passos dos que os queriam transformar em dança de salão, tal como a Massemba ou a Rebita, que é omitida de próposito para fazer crer que nunca existiu dança de salão made in Angola.

Quem acompanhou a trajectória das Gingas e da ímpar Rosa Roque, desde a música infantil, vai ver com facilidade a visível adaptação às tendências musicais e dançantes de cada época. É por isso que quando os jovens luandenses, na década de 80, desvirtuaram a Kabetula, que nem chegava perto da original que o carnaval de Luanda não conseguiu valorizar, As Gingas também seguiram a multidão quando lançaram o sucesso infantil "Kabetula”. Eu aceito que Rosa Roque se defenda com o mesmo argumento da Dizanda. Ela vai perceber aonde quero chegar, mas a coreografia que acompanhou o lançamento da música está dentro do espírito daquilo que desde a década de 80 é chamado de Kabetula.

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