Opinião

Do diagnóstico ao desenvolvimento curricular

Filipe Zau |*

Músico e Compositor

Quando se constata a existência de uma profunda inadaptação do sistema educativo às reais necessidades das populações, a pergunta que, no actual contexto de planetização da economia, se coloca, é saber o que cada cidadão de hoje e do futuro próximo necessita, em termos de conhecimento, de sensibilidade e de domínio prático, para poder competir, conviver com os demais e com o ambiente?

01/09/2021  Última atualização 07H45
Face às rápidas mutações que se operam a nível planetário, o desafio reside na criação de situações inovadoras, capazes de desenvolverem o raciocínio crítico, a inteligência emocional e capacidade de acção das actuais e futuras gerações, sem que se perca de vista o contexto sociocultural em que as instituições escolares e académicas estão inseridas.

A propósito, um novo Relatório do Banco Mundial, assinado pelos peritos Jaime Saavedra, Michael Crawford e Sérgio Venegas Marin, "recomenda o ensino de crianças na língua que entendem” e afirma que "até 37 por cento das crianças das escolas do mundo são ensinadas numa língua que não falam em casa”. Consequentemente, "as políticas da língua de instrução, que deveriam criar crianças para o sucesso, condenam-nas demasiadas vezes ao insucesso, desde o início da escola primária”. Nada pior do que tratar por igual o que à partida é diferente e, neste particular, o sistema educativo angolano, apesar da multiculturalidade e plurilinguístico existentes na nossa sociedade, não prevê quaisquer adaptações de carácter regional, nem, no ensino primário, o uso de outras línguas de cultura em cooperação com a língua portuguesa.

Quando há o desejo de se ganhar uma guerra – e a luta contra a ignorância e o obscurantismo são uma autêntica guerra para se combater a pobreza, a fome, a baixa auto-estima e o subdesenvolvimento – é necessário conhecer-se o terreno onde se vai actuar, para que se possam traçar estratégias de acção, adequadas às dificuldades constatadas. Para se alterar uma realidade educacional, por mais horrível que ela se apresente, tem de se ter a coragem de olhar de frente para os resultados do diagnóstico, para que as soluções alternativas não se confundam com eventuais acções paliativas.

Agir sem um retrato preciso dos problemas existentes e dos recursos humanos, materiais e financeiros disponíveis para resolvê-los, é o mesmo que caminhar para o abismo com os olhos vendados à procura de soluções milagrosas. Apenas um bom diagnóstico inicial permitirá discernir as etapas e providências necessárias para se atingirem as metas desejadas.

Como a realidade se altera sistematicamente, há sempre novos diagnósticos a serem feitos, para que, de forma coerente, se fundamentem correctamente as soluções alternativas. O único diagnóstico realizado a uma parte do sistema educativo angolano, foi feito em 1986 e nunca mais se pensou em realizar qualquer outro. Levar por diante alterações de carácter educativo e formativo sem primeiramente se diagnosticar adequadamente a situação educacional prevalecente, é cair no erro e na ilusão das cegueiras do conhecimento, para os quais Edgar Morin faz referência, em «Os sete saberes necessários à educação do futuro».

Só depois de convenientemente se diagnosticar, nos seus diferentes níveis de escolarização e formação, uma determinada realidade educativa se poderá pensar em uma nova proposta curricular, entendendo o currículo como um conjunto de actividades institucionais de formação e educação, que afectam directa ou indirectamente o processo de transmissão/assimilação e produção de conhecimento. Mas, para tal, torna-se também necessário compreender o mundo, a sociedade e o homem a ser formado, sem deixar de estar atento ao que irá surgir no horizonte do futuro, para que se possa tomar decisões sobre o que deve (ou não) entrar no novo plano de estudos e nas grelhas programáticas das diferentes áreas de formação secundária e superior.

A planificação curricular, de acordo com Ilma Alencastro Veiga, em «Planejamento curricular», terá de se fundamentar numa concepção de educação que: "pressupõe que o aluno seja sujeito do seu processo de aprendizagem; privilegia, principalmente, o saber que deve ser produzido, sem relevar para segundo plano o saber que o aluno já possui; as actividades do currículo de ensino não são separadas da totalidade social e visam a transformação crítica e criativa do contexto escolar, mais especificamente, a forma de se organizar; essa transformação ocorre através do agravamento das contradições da acção, tendo em vista a superação das questões apresentadas pela prática pedagógica”.

Por último, a proposta curricular deve ser holística e integrada. Em termos operacionalização, um currículo holístico concorre para a correcta sequencialidade vertical dos conteúdos de ensino a ministrar, para a interdisciplinaridade e também para a transdisciplinaridade.
* Ph.D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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