Sociedade

Distrito Urbano do Zango precisa de mais espaços culturais

Teresa Cabari

Jornalista

O Jornal de Angola visitou um dos distritos da cidade de Luanda, que mais cresce, a fim de saber a onde os munícipes recorrem para se divertir

18/06/2024  Última atualização 09H21
© Fotografia por: Edições Novembro

A falta de espaços culturais e recreativos no Distrito Urbano do Zango, município de Viana, obriga os munícipes a "emigrarem" para outros pontos da cidade de Luanda, para ter momentos de lazer.

Com apenas dois centros recreativos, os munícipes debatem-se com a inexistência de espaços públicos nos quais possam achar entretenimento, por exemplo, uma sala de cinema.

A maioria dos espaços existentes é privado e não oferece a devida qualidade e condições, por se dedicarem, sobretudo, à venda de bebidas alcoólicas.

Adolescentes que pretendem assistir a um filme recorrem às "casas de vídeo", que exibem filmes a um custo baixo.

Com uma extensão territorial de 99,988 km² e uma população estimada em 700 mil habitantes, espalhados nos "cinco Zango", o distrito conta apenas com um centro cultural, curiosamente, é o Centro Cultural Municipal de Viana.

É lá que alguns munícipes recorrem para se entreter com cinema ou outras actividades culturais oferecidas, maioritariamente, por agentes privados.

Localizado no Zango II, lado A, o Centro Cultural de Viana foi inaugurado pela antiga governadora de Luanda Francisca do Espírito Santos, a 29 de Agosto de 2008.

O centro tem uma espaçosa sala de exposição, cafetaria, um auditório com capacidade para 210 pessoas, que funciona como sala de cinema nos finais-de-semana.

O espaço tem jangos no pátio, utilizados para aulas de Xadrez e um pequeno parque infantil, que está inoperante.

O director-geral do centro, Edson da Piedade, contou que a instituição tem um programa de actividades culturais e sociais, além da agenda administrativa. Tem recebido também eventos privados.

"Temos programas próprios, teatro, filmes, cinema comunitário, espectáculos de humor e uma série de eventos de carácter cultural”, explicou o responsável.

Edson da Piedade informou que os programas de cinema e o teatro são permanentes e ocorrem aos finais-de-semana.

Número de participantes

Quanto à questão do número de participantes nas actividades, o responsável explicou que tem variado, registando maior adesão aos eventos gratuitos, sobretudo, à exibição de filmes.

Para além do entretenimento, o centro promove feiras de livros, de empreendedorismo e de saúde para a população local.

No que diz respeito à educação, o centro, por meio de iniciativa privada, tem um programa de ensino do Xadrez, para idades a partir dos 7 anos.

"Todos que querem estar no centro, as portas estão abertas. Quem quiser ler um livro, pode ir até ao Jango ou à sala de leitura. A biblioteca ainda não está aberta, mas temos uma sala de leitura", esclareceu.

Edson da Piedade apontou dificuldades para a manutenção do espaço, por falta de orçamento, razão pela qual defendeu uma gestão público-privada.

 
Centro Desportivo Comunitário

Além do centro cultural municipal, o Distrito conta com o Centro Desportivo Comunitário, um equipamento social público, sob a gestão privada, que funciona como academia de formação desportiva para crianças com idades entre os 6 e 15 anos.

Localizado no Zango 4A, o centro, que está aberto ao público desde 2016, tem mais de três campos de diferentes modalidades desportivas. É lá  onde as crianças e adolescentes passam parte do tempo a praticar desporto, para posteriormente serem enquadrados em outros clubes.

Sob a gestão da Academia Kamba Sport, o Centro dá formações nas modalidades de Futebol, Basquetebol, Andebol e Judo. Apesar de comunitárias, os encarregados de educação pagam uma taxa de 4 mil kwanzas para a inscrição dos filhos.

"Formamos e lançamos os munícipes para equipas grandes como Petro e 1.º de Agosto. Normalmente, para a inscrição são dois mil kwanzas, a mensalidade 1500, o cartão 500, totalizando 4000 kwanzas", disse o secretário-geral da Kamba Sport, Edson André.

 
Campos comunitários subaproveitados

Além do Centro Desportivo Comunitário, o Zango tem outros campos desportivos espalhados pelo distrito, que estão degradados e subaproveitados.

É o caso do campo comunitário oferecido pela empresa Odebrech, que precisa de cuidados e manutenção. Alguns pontos são usados para a realização de eventos, como festas.

Outro exemplo é o conhecido Campo das Verdes, cujas estruturas apresentam rachadura nas paredes divisórias do campo, ferrugem e degradação do próprio chão.

A cargo da Comissão de Moradores do Distrito, a quadra, actualmente, não oferece condições face às actividades para as quais foi construída.

 
Creche comunitária  e parques infantis

Quanto à questão da diversão e cuidados dos petizes do Zango, o Distrito dispõe de uma creche comunitária que recebe crianças de 1 aos 5 anos de idade, filhos de funcionários públicos e famílias vulneráveis.

Apesar de ser comunitária, a creche acolhe filhos de funcionários públicos e apenas 20 vagas para crianças cujas famílias dispõem de poucas condições financeiras.

A medida, segundo explicações da responsável do centro, Anastácia Agostinho, surge devido à falta de apoio e da necessidade de fundos para a manutenção do espaço. Para o efeito, os funcionários públicos pagam mensalmente o valor de 10 mil kwanzas para terem os seus filhos na creche.

A creche tem quatro salas. As crianças são divididas de acordo com a faixa etária, acompanhadas com base num plano curricular. As crianças estão sob os cuidados de seis educadoras de infância formadas na área.

"São crianças de funcionários públicos e também temos outras de famílias vulneráveis, que não têm como pagar”, disse.

O infantário dispõe, também, de uma sala para actividades recreativas como dança.

Segundo a educadora infantil Isabel Cristóvão, o plano de ensino cobre seis áreas curriculares, tal como definido pelo Ministério da Educação. Desde cedo, os petizes aprendem matérias relacionadas com a comunicação linguística, representação matemática, meio físico-social, expressão motora, expressão plástica e expressão musical.

Isabel Cristóvão explicou que as aulas visam estimular as capacidades e criatividade dos pequeninos.

Por exemplo, no plano de aula de segunda-feira, as crianças são orientadas a recapitular, por meio de um desenho ou oralidade, tudo que aconteceu durante o fim-de-semana.

Fora as disciplinas citadas, a creche ensina, também, a importância da reciclagem, com o uso de materiais reciclados como garrafas plásticas.

 
Parques infantis

Quanto aos parques infantis, os existente no distrito são de iniciativa privada. É o caso de um parque existente no Zango 3, feitos à base de materiais reciclados.

O parque, que existe há três meses, cobra uma taxa de 300 kwanzas para usufruir de apenas cinco minutos num dos equipamentos de diversão como o baloiço, a avioneta e o "candongueiro".

Os munícipes que têm mais capacidade financeira recorrem aos supermercados que dispõem desses serviços.  Ali, aproveitam não só fazer compras, mas também se divertir e entreter as crianças nos parques infantis, como é o caso do supermercado Shoprite, no Zango 1, e Angomart, no Zango 2.


Projectos de inclusão de crianças e jovens

As administrações municipal e distrital estão a trabalhar em parceria com a Igreja do 7.º Dia, a fim de construção de centros para acolher meninas a partir dos 7 anos, em situação de vulnerabilidade.

De acordo com a administradora adjunta para a Área Técnica, Conceição Pascoal, o projecto visa criar centros abrangentes para meninas e mulheres a partir dos 7 aos 30 anos, onde podem estudar e aprender várias profissões, de modo a torná-las autónomas e facilitar o enquadramento na sociedade.

Conceição Pascoal explicou que a administração tem negociado com empresários locais para que, no âmbito da responsabilidade social, criem projectos de inclusão de crianças e jovens.

                                                        
Serviços Públicos

Os serviços públicos no distrito estão centralizados nas instalações do Serviço Integrado de Atendimento ao Cidadão (SIAC), localizado no Zango 4. Neste espaço, funcionam serviços de Notariado, Serviço de Migração e Estrangeiros, Viação e Trânsito, Conservatória dos Registos Civil e Automóvel, Instituto Nacional de Segurança Social(INSS), Autoridade Geral Tributária (AGT), Imprensa Nacional, seguradoras e banca.

Apesar disso, alguns munícipes reclamam da enchente e atendimento lento das instituições bancária para o pagamento dos emolumentos que algumas instituições cobram.

A demora no atendimento obriga os munícipes a saírem de casa às 4 ou 5 horas da manhã para ocuparem os primeiros lugares na fila e assim serem atendidos mais cedo.

Muitas vezes, até ao meio dia, ainda há pessoas nas filas a espera de serem atendidas nos serviços de Identificação ou pelas agências bancárias.


Centros de formação profissional

Quanto à formação profissional, o Distrito Urbano do Zango conta com dois centros tutelados pelo Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social (MAPTSS), localizados nos Zangos 2 e 4. Os centros ministram cursos de Corte e Costura, Electricidade de Baixa Tensão, Decoração e Pastelaria, num período de três a seis meses de duração.

No Zango 3, existe um centro de formação inoperante, construído pela Odebrech, com oito naves. Segundo o coordenador da Comissão de Moradores do distrito, Mário Ekossi, existe a ideia de transformar o espaço num centro de acolhimento para as meninas e mulheres que forem retiradas do mundo da prostituição.

A parte frontal do centro, que está sob a tutela da Administração do Distrito, foi transformada em oficina. Noutra parte, estão a ser erguidas lojas cujos donos continuam desconhecidos.

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