Opinião

Discurso do Ondjiva e os indigestos de costume

Na terça-feira, 5 de Abril, João Lourenço presidiu, na cidade de Ondjiva, província do Cunene, o acto de massas que marcou a abertura da pré-campanha eleitoral do MPLA. Na ocasião, o Presidente do MPLA proferiu um discurso no qual descreveu a situação sócio-política em queo seu partido governou, tendo apontado as principais vicissitudes e destacando as concretizações em benefício das populações.

17/04/2022  Última atualização 08H45

No discurso, feito de improviso, houve espaço para criticar o comportamento da oposição e ressaltar a necessidade do cumprimento das regras de competição política em contexto democrático. Contudo, este discurso não foi bem digerido por todo e acabou por levantar celeumas no seio da oposição política.

Hoje, procuraremos fazer uma análise sobre as prováveis razões da indigestão política causada pelo discurso de JLo. Para efeito de enquadramento, torna-se necessário apresentar dois pressupostos. Um primeiro de carácter normativo ou objectivo e um segundo de carácter mais societal ou subjectivo. O primeiro pressupõe admitirmos que os actos do cidadão João Lourenço, enquanto Presidente do MPLA, não vinculam o cidadão João Lourenço, enquanto Presidente da República. Isto porque, num e noutro papel este cidadão pratica actos diferentes que são regidos por dispositivos normativas próprios que fundam e sustentam a sua condição diante do Estado e da sociedade. Segundo, para a avaliação de toda a conduta deste o que não venha objectivamente expressa nas normas deve-se remeter para as significações socialmente construídas a respeito dos actos que praticam.

A todos aqueles que se levantaram contra o discurso de JLo terá faltado a capacidade de compreender as nuances do desempenho dos múltiplos papéis sociais do cidadão João Lourenço. Este facto ficou patente quando, vários deles afirmaram que o cidadão João Lourenço, Presidente do MPLA havia "estragado a boa fotografia” que o cidadão João Lourenço, Presidente da República, fizera no dia anterior. Aqui estamos diante de uma grande dificuldade de recortar os espaços de actuação de actores com múltiplos papéis.

A Sociologia define papéis sociais como o conjunto de expectativas associada à uma condição. Isto é, a nossa posição no quadro das relações sociais funda um conjunto de direitos e obrigações. Mais do que isto, modela a forma como devemos agir ou nos comportar em diferentes cenários. Porém, a Sociologia também admite que um mesmo indivíduo pode exercer mais de um papel social e que nenhum deles deve prejudicar ou condicionar o outro. Um mesmo indivíduo pode exercer em contextos diferentes o papel de pai e  de polícia, o que não quer dizer que o pai que ofereceu uma motorizada ao filho, no dia anterior, por ocasião do seu aniversário, não possa no dia seguinte, na condição de agente regulador de trânsito, aplicar uma multa ao seu filho por este ter esquecido os documentos em casa. Poderíamos citar mais exemplos para demostrar que o Presidente do MPLA não fez mal nenhum ao Presidente da República. Quem quiser se aprofundar neste tópico dos conflitos de papéis sociais recomendo a leitura dos textos do sociólogo norte-americano Robert King Merton (1910-2003) sobre os papéis sociais, sobretudo o clássico texto sobre as relações médico/paciente.

Voltemos ao discurso do Presidente do MPLA e ao efeito indigesto que causou nos opositores políticos. Porquê o discurso de JLO incomodou tanto os seus opositores políticos e uma certa sociedade civil encapuçada? Podemos avançar duas causas prováveis não exclusivas.  A primeira tem a ver com a falta de capacidade de identificar os contextos de exercício dos múltiplos papéis sociais do cidadão João Lourenço e a segunda o nível de eficácia do discurso, isto é, discurso foi eficaz, cumpriu o seu objectivo.

Os indigestos fundamentaram parte das suas críticas na ideia de que JLo teria ferido os princípios republicanos, pois fez um discurso que separava os angolanos entre os do MPLA e os da oposição política. Nada mais certo, porém esqueceram-se que quem falava era o Presidente do MPLA, num acto político do seu partido cujo objectivo foi o lançamento da pré-campanha eleitoral.Por opção ignoraram este facto, fizeram interpretações como se existisse um prontuário hermenêutico do discurso político angolano. Quase não houve análise técnica circunstanciada.

Para uma análise coerente do discurso do Ondjiva deviam considerar as regras propostas pelo linguista e filósofo suíço Ferdinand de Saussure, para a partir de instrumentos próprios da semiótica linguística divisar que conflitos foram ou não criados entre os significados, significantes, emissor e receptor no discurso do JLO. Coisa que seguramente não o fizeram. Apressaram-se em influenciar negativamente a opinião pública, com suas publicações tempestivas nas redes sociais. Porque afinal não suportavam a ideia de ver o Presidente do MPLA a brilhar, depois do Presidente da República ter brilhado, no dia anterior.

É muito provável que os indigestos de costume não leram, nem ouviram mais de uma vez todo o discurso. Se o fizessem teriam notado que o JLO teve uma postura humilde ao afirmar que aconselhou o seu partidoque abandonasse a expressão "Já está”, pois reconhece que o seu partido deve trabalhar para conquistar voto do povo, o único superano. De qualquer modo, o maior erro deles foi mesmo de hermenêutica e deveu-se o facto de em momento algum considerarem que se tratava do Presidente do MPLA a falar para os seus militantes em contexto de pré-campanha. Neste particular, para melhor aprofundamento destas questões, recomendamos o estudo do modelo de grelhas interpretativas, para análise de conteúdo, proposto por George Gaskell e Martin Bauer. Este importante instrumento orienta  operações necessárias ao reconhecimento dos contextos em unidades de análise, revelando não apenas o significado das palavras utilizadas, mas sobretudo inscrevendo-as no contexto específico em que foram proferidas, atribuindo-lhes significâncias outras.

Portanto, o Presidente do MPLA não ofendeu ninguém, nem desmereceu a atenção da sua audiência. Apenas serviu-se da linguagem própria  para galvanizar as massas militantes do seu partido e instilar no seio dos seus adversários um sentimento de inquietude, algo que parece ter conseguido, tendo em conta o falatório que gerou. Chegamos aqui com a consciências de que não existem prontuários, apenas resta-nos aguardar os próximos eventos da pré-campanha. Será que o Presidente do MPLA que vimos em Ondjiva  se resguardará um pouco nos próximos dias, para permitir que Presidente da República continue a mostrar mais das obras concretizadas  pelo Executivo, enquanto a vice-presidente do Partido Luísa Damião e o resto da sua equipa continuam dar corpo às acções da pré-campanha para depois voltar na fase da campanha eleitoral, o JLO, Presidente do MPLA, com toda a sua energia e pragmatismo discursivo que lhe caracterizam? Ou o líder do MPLA começou já a sua maratona eleitoral que só terminará no dia do voto em Agosto? Delfos e nós não temos a resposta.

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