Opinião

(Dis) sabores da Terra

Arlindo dos Santos

Jornalista

Existe um provérbio na língua nacional kimbundu que sentencia, com mais palavra menos palavra, mais ou menos o seguinte: “Do mesmo modo que numa panela se cozinha boa ou má comida, assim no ventre de uma mulher,se gera um bom ou mau filho”. Nada mais verdadeiro e profundo, nada de maior alcance que o conteúdo dessa mensagem.

13/06/2021  Última atualização 04H20
Geralmente, as máximas da sabedoria popular ancestral, transportam o significado desses ditos para a banalidade da nossa vida. A mesma vida que já foi de brandos costumes, sendo hoje, infelizmente, de bárbaros e estranhos hábitos.

Os adágios populares, quase sempre metafóricos, expressam verdades baseadas no senso comum e permitem-nos retirar desses ditados os mais diversos significados. Relativamente ao provérbio que hoje tomou conta da minha atenção, dá-me campo para muitos outros conceitos e transforma-o naquilo que eu quiser. No caso em apreço, o provérbio está circunscrito à comida e às pessoas que a cozinham e comem, sendo que, entre nós, de modo pouco igualitário e desgraçadamente, há muitos a comerem pouco duma enormíssima quantidade de comida.

Agarro-me ao simbolismo da panela onde se preparam os vários manjares de Angola, interpretando também e implicitamente, os filhos da terra e os seus apetites. E deduzo ainda do provérbio, épocas de glória desvirtuadas, que ao contrário dos tempos de hoje onde fica difícil saber se são peixe ou carne. Vou então observando que, do simbolismo representado por um imaginário panelaço de comida onde "todo o mundo”, salvo seja,cozinha, serve-se e come, com descarada primazia para os da linha da frente que ganham o direito de comer primeiro, não se sabe porquê. Enchem-se estômagos sem medida e comem o que de melhor tem a terra.

E é assim, neste ritmo, que se vão confeccionando os vários pratos da rica culinária nacional, num verdadeiro caldeirão de gostos.
Os sabores  são dos mais caros, e nas diversas mesas não falta um enorme bolo em forma de Angola.Com todos os contornos do seu mapa, como quem diz, em todas as suas áreas. E é a partir do mapa que se vão cozinhando, nem sempre com boa mão, com falhas daqui e dali, nos temperose no sal na medida certa, as inúmeras  iguarias.

Passam todas pela grande panela, entre entradas, petiscos, pratos  principais, sobremesas, quase sempre abençoados no fim com digestivos da melhor qualidade. Há um núcleo de apreciadores que os acham muito saborosos, ao contrário dos outros, coitados, que lhes tomam o cheiro ao longe mas não chegam ao tacho e, desiludidos, os classificam difíceis de tragar.


Os produtos para os banquetes viajam em contentores ou em malas com rodinhas, transportam acepipes e as melhores iguarias importadas, sobras prováveis de acordos público-privados. Concluindo e indo ao que interessa, na nossa terra, como quem diz na nossa panela, há de tudo para satisfazer os mais diversos apetites. Custa a acreditar, mas não se pode justificar que, com todas essas valências, com tanta comida à mostra, se recorra ainda à importação e, curiosamente, haja gente que passe fome de cão na nossa terra, enquanto outros se banqueteiam à grande e à francesa.

Ainda no que à comezaina diz respeito, refiro que por cá, como noutras paragens, há bons e maus pitéus, uns deixam-se azedar por deficiente aproveitamento e outros,aparentemente mais requintados, cozinhados na base de finos cardápios, são erradamente elaborados só para quem tem e pode. É um dos maiores erros da nossa suculenta culinária.

Fazem-se encomendas de acordo com as receitas que lhes vão sendo fornecidas do estrangeiro, porque é de lá que vêm os frutos secos, os queijos, salames, presuntos, caviares, e os produtos oriundos da alfarroba, de ervas exóticas e do vulgar bacon. Umas vezes com a grande panela envolta por altas labaredas, noutras ocasiões  com chama acesa para cozinhar em fogo brando, outras ainda em quentura baixa mas capaz de ferventar o ambiente onde assenta o tradicional trio de pedras rijas que sustentam firme a grande panela em ebulição.

Desses cozinhados metafóricos nasceram e vão nascendo os grandes pratos e, paralelamente, os seus alegóricos provadores e comedores,filhos nascidos de ventres sãos, de barrigas limpas, dignos de se sentarem nas melhores mesas do país.


Mas é difícil não se misturarem com comilões que cercam a enorme panela,cidadãos asquerosos, uns valentes "filhos da mãe” que detestam inclusão, misturas e aplaudem o distanciamento.Só eles contam, e por mal dos nossos pecados, comem que se fartam.


Estou em crer que a mãe  Angola nunca supôs que do seu ventre nascessem seres  semelhantes, gulosos, sempre próximos da comida, seja ela depéssimo refogado, sem gosto, com muito ou pouco sal, nunca na medida certa, seja ela do melhor que se coma na paróquia.


E é assim que nos chegam ao nariz, não o odor da mostarda, mas de caldeiradas, guisados, fritos e churrascos, vindos de animais pouco direitos, invertebrados que se lambuzam em molhos de muito mau-gosto, obrigando-os a manterem-se eternamente em sofrível banho-maria. São filhos de uma estirpe rara,chegados a pratos pouco comestíveis pelo povo em geral,difíceis de engolir nem com molho de tomate, que envergonham a mãe Angola e a todos os seus filhos de bem e a toda a engrenagem que a mantém de pé.

Consciente de que houve, inegavelmente, nestes últimos quatro anos, uma mudança inimaginável nas nossas vidas, um período que nem o meu melhor exercício de imaginação e fantasia podia fazer chegar perto do que a Covid-19 nos trouxe, fico sempre com a esperança latente no meu peito. Um dia isto vai melhorar. A comida e as pessoas. Despeço-me assim dos meus leitores, dos amigos e companheiros de luta. Com mais ou menos sol, até domingo, à hora do matabicho.
Lisboa, 12 de Junho de 2021












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