Entrevista

Dionísio Rocha: “Nasci em Benguela e fui forjado em Luanda”

Analtino Santos

Jornalista

Nas vésperas de completar 77 anos, fomos ao encontro de Dionísio Rocha para uma conversa em torno dos seus primeiros anos de vida e do seu surgimento no meio artístico, do bairro Benfica em Benguela até à sua chegada a Luanda, primeiro no bairro Marçal e depois no bairro Operário.

11/09/2022  Última atualização 09H38
© Fotografia por: Edições Novembro

Dionísio Rocha gosta de comandar a banda no seu quintal, onde ninguém resiste às paródias. No programa "Quintal do Dionísio”, na Rádio Cultura Angola,  carrega a mística do espaço do seu quintal caseiro, onde inúmeras tertúlias aconteceram. No canal principal da Rádio Nacional de Angola tem ainda no ar os programas "Recordar é Viver”, "Melodias Nostálgicas” e "Baile da Saudade”. O anfitrião não queria que a sede fizesse morada e mandou umas cervejas da marca de  que foi agente de vendas no passado e que patrocinava emblemáticos eventos culturais. No ar pairava o som imaginário de sucessos como "MucondaLemba”, "Semba sambado”, "Cidade Linda”, "Aprukutu”, "Mulher Angolana”, "Madi Madi”, "Rumba Negra”, "Pemba Lata” e "Mbua Mbua”

Dionísio Rocha é um homem dividido entre Benguela, onde nasceu, e Luanda, sua terra adoptiva...

Tenho dito a muita gente que não obstante ter nascido em Benguela fui forjado em Luanda. Numa linguagem mais correcta, a minha mãe começou a namorar com o meu pai nas Ingombotas, na Rua do Carmo. O meu pai acabou por engravidá-la e, na época, os homens não abandonavam as mulheres, porque era uma vergonha para as famílias e quase sempre os pais que não tivessem capacidade de legalizar ou casar raptavam as damas. E assim aconteceu com a minha mãe. Pouco tempo depois, o meu pai fugiu com ela para Benguela.

 

Parece que nessa fase em Benguela a presença de luandenses não era novidade...

Sim. Existiam várias famílias conhecidas originárias de Luanda, como os Correia Victor, Silva, Pacavira, Honorato, Cordeiro, Rasgado, dentre outras. Muitos tinham sido transferidos, porque fazia parte da própria política colonial a dispersão, a emigração. O meu pai conseguiu o seu emprego primeiro no jornal O Lobito, depois no Jornal de Benguela, como tipógrafo.

 

E como era a vida desses luandenses em Benguela?

Como muitos tinham uma vivência na Liga Nacional Africana, proporcionavam um ambiente semelhante àquele no novo espaço. Queriam que os filhos desenvolvessem os mesmos hábitos e tivessem o mesmo nível cultural que traziam da capital, onde havia as sessões do Ngola Ritmo, o teatro da Gexto, a dança, concursos de bailado e outras variedades culturais. Foi assim que cresci num ambiente cultural. O pai era tocador de bandolim, na companhia do amigo Lucrécio Mangueira e a mãe exibiu-se várias vezes no grupo carnavalesco Cidrália.

 

Quem foram os responsáveis pela conservação desta mística?

Moisés Mulambo, meu mestre, pertencia a este grupo obrigado a sair de Luanda. Era mecânico de caiaque (barcos pequenos de pesca). Começou a fazer uma espécie de Liga Nacional Africana, onde se faziam concursos com todas as matérias de arte, desde poesia, escrita, canto, dança, etc., etc. Assim aprendi. Depois tive a sorte de encontrar bons professores na Escola 30, em Benguela, onde participei nas primeiras peças de teatro no Cinema Monumental. Nesta fase, havia alguns grupos como o Ngola Ritmo da Catumbela e os Jacarés... Tinha uma série de grupos. Passei a ser um dos principais discípulos de Moisés Mulambo. Ele realizava as suas récitas e ensinava a fazer teatro, poesia e humor. É nessa altura que eu surjo no bairro Benfica.

 

O personagem Mulambinho do programa de TV "Conversas no Quintal” tem alguma relação com Moisés Mulambo?

Sim. Foi uma homenagem ao meu mentor. Quando criança, no bairro Benfica passaram a chamar-me  Mulambinho, ou Mulambo Júnior, que era o meu professor. Então mais tarde passei a usar o nome no programa "Conversas no Quintal”, onde contracenava com o meu primo Beto Gourgel, que fazia o Nganjeta.

 

Que outros nomes deste movimento há para realçar?

Há nomes que às vezes não são citados e eu aqui o faço pela qualidade que tinham. Havia um moço que era a admiração de toda a gente do bairro Benfica, Fernando Rá. Era um indivíduo que além de bailarino era aquele bangão constante que nós os miúdos tentávamos imitar. Outra personagem era o Tio Timóteo, o pai do falecido Calili. Eu comecei a dançar ao lado dele. Depois os que eram mais distintos das récitas do bairro Benfica eram convidados para o Lobito. Muitas vezes a convite do meu tio Correia Victor íamos para o Compão, Canata, Catumbela... Havia muitas farras. Uma vez, eu, uma bailarina chamada Ratinha e o Paulo Augusto Júnior  fomos convidados  para o Novo Redondo, hoje Sumbe.

 

Em que circunstâncias vem para Luanda?

Olha, na época era comum passar as férias com a mãe em Luanda. E às vezes, depois, na companhia de Pio do Amaral Gourgel, o pai do Beto Gourgel, íamos para o Golungo Alto, terra de onde ambos éramos oriundos. Venho definitivamente para a capital aos 11 anos de idade e fico aos cuidados da minha avó materna no Marçal, próximo do Capoloboxi. Encontro o grupo Santa Cecília, dirigido na altura pela jovem Albina Assis e o Botafogo por Lopo Nascimento, sendo o presidente da direcção Aristides Van-Dúnem. Optei por ficar no Botafogo porque havia muito mais movimento e era mais inclusivo, enquanto o Santa Cecília era um grupo cultural mais inclinado para mulheres.

 

Quem eram os seus colegas?

Recordo que o Massano foi para o Santa Cecília e no Botafogo estava todo o conjunto Kimbandas do Ritmo, o Tonito, bailarinos como o Bonga, Cireneu Bastos, Kipuka e outros. E assim dei a minha continuidade artística.

 

E nessa fase como estava a sua adaptação em Luanda?

A adaptação estava boa em Luanda. No Botafogo e noutros locais comecei a cantar sambas bonitos que aprendi em Benguela, ensinados pelo Moisés Mulambo. E como era pequenino tinha uma certa piada porque as pessoas viam-me a cantar e a dançar. Isto deu um certo destaque às minhas exibições. E aí tem algo que ensino às pessoas: que quando cantam cada frase deve ter um gesto.

 

Estava com os pais?

Não, porque  os meus pais estavam separados. Nesta altura eu vivia com a minha mãe e o meu padrasto Mandriba nas Bês. O meu pai regressa a Luanda e passa a viver no São Paulo. Nessa altura ocorre o período mais difícil da minha vida, com a luta pela minha custódia. Foi o meu primeiro caso de trauma. Eu gostava do meu padrasto, era o gajo mais bacana que conheci naquela época e a velha sabia que pelo meu padrasto eu não saía. Quase sou proibido de exibir-me porque nem o velho queria nem a velha deixava porque ficava com receio que o meu pai me levasse.

 

Como foi resolvido esse problema?

A luta pela custódia foi rija. O meu padrasto era funcionário da Administração e foi ao chefe do posto próximo a Cidadela, o Poeira, apresentar queixa. Mas o meu pai, que era tipógrafo, recusou porque o marido da minha mãe trabalhava lá. Então enviaram o processo para outra administração, próximo da ervanária do velho Sambo. Quem defendeu o meu pai foi o pai do Cassé escritor Carlos Ferreira; seu pai era o advogado e também escritor Eugénio Ferreira. Durante as investigações chegaram à conclusão que os dois tinham condições para ficar comigo. Umas semanas depois, chamaram as minhas avós e este foi o pior momento de todo o processo. Os meus pais estavam em lados opostos, a avó Laura no lado materno e a avó Chica no lado paterno. E surgiu a pergunta que teve a resposta mais difícil da minha vida, para decidir com qual dos dois eu ficaria. Fui a correr para os panos da avó Chica, que vivia no bairro Operário. Digo que esta foi a minha sentença de Salomão.

 

Porquê sentença de Salomão?

Porque eu gostava das duas, sempre fui bem querido e fiquei dividido como na Bíblia. A Chica dava-me muitos mimos, quando eu fosse visitá-la regressava com dinheiro e muitos doces, diferente da Laura no Marçal que resolvia muita coisa mas era mais rígida.


Bairro Operário, berço dos Negoleiros do Ritmo E assim penetra no ADN do Bairro Operário?

Sim, depois deste desfecho entro nos meandros culturais do Bairro Operário e de outros, com o apoio do meu pai. Ele levava-me para as actividades culturais ao mesmo tempo que era rígido com a minha formação académica, com explicações em casa e com os mais renomados do bairro.

 

E no B.O. muita coisa aconteceu, como os Negoleiros do Ritmo...

O conjunto dos miúdos do B.O, os Negoleirosdo Ritmo, surgiu em 1959. O Joãozinho Morgado juntava alguns amigos e tocava tambores e eu quando regressava do Botafogo também participava. Ele criou, sem a minha presença, os Negoleiros do Ritmo com Almerindo Cruz, Carlos Geoveth e Domingos Infeliz. Um dia, o Luís Montez estava a passar e achou extraordinário o grupo e os convidou para tocar numa actividade que realizaria no quintal da igreja que seria Wanga Feitiço. Quando aceitaram perguntou qual era o nome do grupo e eles disseram Ngola Ritmo, mas o Montez alterou e os denominou Negoleiros do Ritmo.

 

E quando integra os Negoleiros?

Acontece na semana seguinte, na Liga Nacional Africana, porque o Manuel Nunes, que viu o espectáculo, convidou o grupo, mas o Almerindo, que ensaiava com um pianista, disse que não iria com os Negoleiros e sim com o Murimba Show. Joãozinho disse que não havia problemas e que levaria o Dionísio "que tem cantado em alguns espaços”. Foi assim que entrei para os Negoleiros do Ritmo uma semana depois da sua primeira apresentação. Desde aquele dia, passei a ser o vocalista.

 

E quem mais esteve nos Negoleiros do Ritmo?

Depois, de acordo com as necessidades, fomos mudando de elementos, mas eu e o Joãozinho sempre ficamos. O Almerindo regressou. Ele praticava viola em minha casa, foi um bom ritmista. Depois fomos buscar o Mário Fernandes ao Ginga e ele trouxe o Carlitos Vieira Dias, também do mesmo grupo. Conseguimos  o Zé Fininho que tocava bem dikanza num grupo do Marçal e muitos outros passaram pelo grupo, como o Massano Júnior.  O África Show é uma extensão dos Negoleiros do Ritmo. Havia um contrato para Catumbela, celebrado com o Massano e de comum acordo ele vai. Eu fiquei no grupo até a sua extinção, ou melhor, sempre que possível nos juntamos para uns momentos.


Vida recheada  de sucessos

Dionísio Patrocínio Nogueira da Rocha, nascido em Benguela aos 26 de Agosto de 1945, baptizado e registado em  1948, na Igreja de S. Paulo de Luanda. Em 1950, iniciou a sua carreira sob orientação do músico,  compositor, professor de canto e dança e  humorista Moisés Mulambo nas récitas do bairro Benfica, em Benguela, em companhia de Fernando Rá, Timóteo, Paulo Augusto,  Ratinha, os Pacavira, os Benchimol e outros mais.

Em 1957/58, em Luanda, integrou o Botafogo, onde sob a batuta de Efigénia Mangueira, Aristides Van-Dúnen e Armando Correia de Azevedo aprendeu teatro, a dizer poesia, a cantar e a dançar. Em 1959, integrou o conjunto os Negoleiros do Ritmo, pouco depois da sua criação e estreou-se na Liga Nacional Africana no programa Pim Pam Pum, de  Baptista de Sousa, transformando-se em líder desse conjunto até o seu desmembramento total em 2002.

Em 1964, deslocou-se pela primeira vez  ao exterior do país, a Portugal, onde gravou o seu primeiro disco em companhia dos seus Negoleiros e Alba Clynton, pela etiqueta Alvorada. Entretanto, desde essa época e com o apoio do empresário e promotor cultural Luiz Montez, de quem foi delfim, desfilou, durante cerca de 17 anos, no Cazumbi, Parque Heróis de Chaves, Sindicato dos Motoristas e Cine Miramar; no Ngola Cine (Dia do Trabalhador, Aguarela Angolana); na série de espectáculos Kutonoka (realizado em todos os bairros da cidade de Luanda, ao sábado à tarde), onde foi director artístico e deu  oportunidade para se exibirem músicos de todos os géneros do music-hall angolano; exibiu-se em todas as salas de espectáculos do país de Cabinda ao Cunene. Foi apresentador dos espectáculos denominados Chá das Seis, no então Cine Restauração, hoje Palácio dos Congressos.

Gravou pela etiqueta Bonzão os discos intitulados Lemba, em 1968; e  Minha Cidade é Linda, com Os Negoleiros do Ritmo. E pela etiqueta da  Lusolanda (Angola) gravou Lamento; Vamos Trabalhar; Casaco de Fardo e Riquita, com músicos diversos (nos anos 1972/73 e 74). Gravou temas de intervenção como Desculpa  Vou Duvidar; Pouco a Pouco; A Cidade Iluminada; Eu Quero o Mar; Mundo Novo; Mandela; Pela Pátria; Unidade Nacional (com letra de Boaventura Cardoso), entre outros.

Tem vários temas gravados dedicados ao desporto nacional, desde o basquetebol ao futebol infantil; e ao seu Petro, sem esquecer o velho Benfica que também é seu, além de vários temas infantis.

De 1983 a 1987,  foi director artístico do programa infantil da Rádio Nacional, onde surgiram nomes como José Machado, Nicinha Rocha, Joseca de Brito, Ângelo Boss, Maya Cool e muitos outros. Em paralelo foi director artístico do programa Explosão Musical da TPA, onde surgiram nomes como Diabik e outros.

Em 2006, com os Negoleiros do Ritmo,  gravou um CD intitulado "Sei que tu queres partir” e em 2013, ”Luandos ao Luar”. Posteriormente gravou o CD "Mulher Angolana”, com temas de sua autoria, de Ana Maria de Mascarenhas, de Carlos Ferreira e de outros, com arranjos de Eduardo Paim.

Trabalhou durante mais de 35 anos como director artístico da Direcção Nacional de Cultura e Artes.Desde 1964 actuou em palcos de Portugal, Brasil, Cuba, Bélgica, Espanha, França, Estados Unidos, Holanda, Finlândia,  Viena D’Áustria, República Checa, Alemanha, Zaire, Congo, Moçambique e outros países. Os seus temas mais aplaudidos são "Eyené”, "MadiMadi”, "Riquita”, "Minha Cidade é Linda” e "Eu Quero o Mar”.

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