Entrevista

 Dinis Kebanguilako: “A História tem de congregar todas as histórias”

Matadi Makola

Dinis Kebanguilako sonhava ser engenheiro, até um dia a vida lhe proporcionar um encontro casual com a História, ciência pela qual viria a entregar-se “por amor”.

23/11/2022  Última atualização 06H05
© Fotografia por: Vigas da Purificação| Edições Novembro

Fez-se doutor e é um dos "sobreviventes” do primeiro curso de mestrado em Ensino da História pelo Instituto Superior de Ciências de Educação de Luanda (ISCED), ministrado de 2004 a 2010, naquele que considera "o mestrado mais longo da História da Humanidade”, devido a tantas dificuldades que se impuseram, até mesmo na concepção curricular do curso. Actualmente é o coordenador do curso de mestrado em Ensino de História. Será um dos oradores da Conferência Internacional da História de Angola, promovida pelo Jornal Cultura.

Fale-nos um pouco do seu percurso histórico, de discente a docente?

Falar de nós é muito difícil, porque é sempre bom quando são outras pessoas a faze-lo. Mas daquelas coisas imediatas do valor da história na minha vida, gosto de aplicar a frase de um sacerdote latino-americano que dizia que a maior tragédia da vida de um ser humano é quando ele não tem a capacidade de conhecer-se a si mesmo. Sou licenciado em Ciências de Educação na opção de História, pelo ISCED, na turma que conclui em 1997. Tenho mestrado em Ensino de História de Angola, por sinal o primeiro curso de mestrado ministrado pelo ISCED de Luanda, no ano de 2004, naquele que se constituiu num dos primeiros mestrados da Universidade Agostinho Neto. Tenho um doutoramento em Educação, pela Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, no Brasil. A minha área de formação é Educação, Sociedade e Práticas Pedagógicas. Porque a Universidade Federal da Bahia forma doutores em Educação, mas dentro do programa de formação existem várias áreas de concentração, como Gestão e Administração Escolar, Ensino Especial e outras. Como a minha licenciatura e mestrado são em História, foi consequente que no doutoramento seguisse práticas pedagógicas de História.

Sempre quis ser historiador, por gosto ou influência?

Nunca sonhei com a ideia de ser historiador, tampouco esperava ser professor de História. Eu sempre pensei que seria engenheiro, devido ao meu apego pelas ciências exactas, o que viria a consumar-se no ensino médio ao me formar em Electrotecnia. E o meu sonho sempre foi de ser engenheiro. Cheguei inclusive de ser encaminhado para a faculdade e fui beneficiado com uma bolsa para ir estudar na então União Soviética, para onde iria na área da aviação. Infelizmente o processo começou no final de 1990, mas as consequências de uma série de eventos sociais vividos na época, exactamente as transformações de um sistema para outro, Acordos de Bicesse e eleições de 1992, acabaram por ditar a minha não ida à União Soviética. Porque já na segunda República, o meu ingresso na universidade e ao curso de História foi algo puramente do acaso. À época era capitão das Forças Armadas Angolanas, colocado na direcção de logística da Força Aérea, e por lá tive um colega que gostava muito da língua inglesa, e fui acompanhá-lo ao ISCED a fim de fazer a matrícula em Ensino da Língua e Literatura Inglesa quando vi a vitrina onde estavam os tópicos para o curso de História, que eram as duas guerras mundiais, congresso pan-africano, penetração colonial portuguesa em Angola. Temas que conhecia por imperativo da minha vida militar, e assim decidi ter um pouco de atrevimento em me inscrever para o Curso de História, isto em 1993.

A sua admissão foi uma surpresa?

Eu não tinha noção daquilo que tinha acontecido. Mas tive uma ideia numa das aulas de Sociologia Geral, administrada por Victor Kajibanga, quando nos pediu que fizéssemos um trabalho sobre o homem e a sociedade. Foi o meu primeiro trabalho académico, mas nenhum dos trabalhos tinha sido aprovado pelo professor, que chegou a manifestar que esperava muito mais da turma. Dentre os alunos, três eram deputados à Assembleia Nacional, e se indignaram pelo tom usado pelo professor Victor para desqualificar o trabalho da turma. Foi por força desse episódio que o professor se viu obrigado a dizer que a maior parte da turma não atingiu sequer a exigida nota 10. Entretanto, das sete notas positivas do exame, a melhor nota foi a minha, o que me motivou bastante para que eu encarasse o curso com mais responsabilidade. Nessa altura eu já tinha noção da minha vocação pela História, o que veio a ser uma entrega por amor à camisola, por sentir que estava na minha praia.

Tinha encontrado algum desafio dentro do curso que gostaria de ver resolvido, até mesmo dentro do plano curricular?

Muitos. O primeiro desses desafios é que, na verdade, o curso de História no ISCED de Luanda, quando foi desenhando, foi para formar professores de História. É a vocação do ISCED, até neste momento, sendo a única instituição a fazê-lo. O ISCED da Huíla foi criado em 1980 e o de Luanda só na década de 1990, e nessa altura o país não tinha quadros à altura, ou seja, vocacionados, formados e preparados na área de ensino de História. Na verdade, pelo menos na licenciatura, todos os professores que eu tive eram historiadores, de História pura, e não formados para o ensino da História. O nosso plano curricular foi muito mais virado para a formação de historiadores e não para a formação de professores de História. Hoje, a realidade é diferente, porque foram colocadas na grelha curricular um conjunto de unidades que já permitem que o estudante formado no ISCED saia com um viés virado para a investigação em ensino de História. Mas a investigação que nós fizemos não é para a ciência histórica propriamente dita. O desafio neste momento é tornarmos o ISCED, pelo menos no curso de História, a instituição nuclear para formar quadros nessa área. Este mal que veio da licenciatura acabou por contagiar também o curso de mestrado no ensino de História, de 2004, 2012, 2014, estando neste momento a terminar a 4ª edição. Eu fiz parte da primeira edição, que tenho dito ser o mestrado mais longo da história da Humanidade.

Porquê?

Porque começamos em 2004 e só concluímos em 2010, tempo para fazer uma licenciatura e um mestrado. Era o primeiro mestrado e havia problemas de toda a ordem, desde a forma como o próprio mestrado foi concebido, escassez de docentes com experiência, e o ISCED teve de ir buscar professores de Cuba, Portugal e Brasil. Se, por um lado, havia problemas de concepção do curso, por outro havia também problemas de organização, inclusive dificuldades da nossa parte enquanto mestrandos. Durou o tempo que durou, mas valeu a pena. Digo isso porque hoje já temos um número considerado de docentes que já asseguram o curso de graduação aqui no ISCED, resultado desse primeiro curso.

Isso significa que já temos mais investigação em História?

Não diria que já temos mais investigação em História. Fazer um trabalho de fim de curso, para conclusão da licenciatura ou o curso de mestrado, não pode ser visto, no meu entender, como sendo investigação científica pura. Uma coisa é investigar para fins pedagógicos, outra coisa é investigar para o desenvolvimento da ciência histórica.

Mas essa safra de historiadores desses mestrados não significa maior investigação?

Na verdade, nós temos um número, que eu não diria considerável. Na primeira edição, penso que não passaram de18 mestres. Na segunda e terceira tivemos pouco mais de 20. Porém, de 2010 a 2022, são passados 12 anos mas ninguém publicou trabalhos de relevo feito por professores de História formados pelo ISCED. É bem verdade que houve uma aposta séria em termos de melhoria, não apenas da nossa formação, enquanto historiador e professor. Alguns desses mestres formados pelo ISCED de Luanda hoje já são doutores. Houve investimento. Mas, em termos de produção científica, ainda estamos muito longe de atingirmos a meta. Esse é um dos maiores problemas que temos hoje. Entre aquilo que é produzido na área de história, ainda existe um fosso muito grande. Nós continuamos a nos socorr até agora com trabalhos de estrangeiros, de investigadores portugueses, brasileiros, que chegam a trabalhar muito mais a nossa história.

Esse conhecimento produzido por estrangeiros reflecte com imparcialidade a perseguida  "verdade histórica”?

Para responder a essa pergunta teremos de entender o conceito de História. Hoje o termo tem muito significado, porque tudo que acontece nas nossas vidas faz parte da nossa história. Mas a História como ciência faz recurso ao método científico para trazer nos dias de hoje acontecimentos do passado. Entretanto, quem faz a História? Quem a faz é um homem do presente que olha para trás. Sendo assim, não tem como desassociar a sua formação intelectual, política, religiosa e cultural, que traz aquilo que acha que deve ser apresentado. Um dos maiores problemas da nossa História está exactamente relacionado com as fontes escritas sobre Angola. Antes do século XV, nas sociedades que se desenvolveram no espaço geográfico que hoje é Angola não se desenvolveu a escrita. É bem verdade que a escrita nesta região começa a ganhar corpo a partir da presença europeia, no século XV. Então, quem escreve a nossa história antes da presença europeia? Não existe. Cometeria um erro se dissesse que esses povos não tiveram história, porque basta existir o homem para haver história. Agora, a história escrita é que começa do século XV para os nossos dias. E quem escrevia? Governantes, comerciantes, missionários, aventureiros e pessoas que não tinham formação consolidada para escrever a história.

Se refere ao risco da falta de imparcialidade ou de aproveitamento?

Esse risco até nos dias de hoje continua, porque a história é feita pelo homem. Por mais que se socorra de todo o rigor científico, não deixa de ser o sujeito daquela sociedade. Esse homem que faz a História tem sentimento e convicções, pode procurar ter a máxima imparcialidade possível, mas há sempre influências determinantes. Mas isso não é o pior para nós. Foi uma história feita pelo Europeu para o Europeu, sem aqueles elementos que interessavam aos africanos. É o desafio da história contemporânea angolana.


"Pela primeira vez os alunos do mestrado do ISCED vão participar numa conferência”

Qual é o vosso maior desafio para as publicações?

Não está em causa a isenção. Mas eu diria que são vários. O primeiro de todos está relacionado com a pesquisa, porque vivemos uma letargia na investigação histórica do país. Estamos muito atrás. Não há incentivos. Muitos têm vontade, mas a nossa academia não está preparada para poder incentivar os investigadores. Diria que as políticas educativas e pedagógicas implementadas na nossa academia têm contribuído largamente para essa letargia. Por exemplo, nas outras paragens, como na Europa ou América, ninguém conclui um curso de mestrado sem publicar pelo menos dois artigos científicos. É obrigação. Porque ir matricular-se a um curso de mestrado já pressupõe do indivíduo um projecto de pesquisa. Tudo começa por ai. Por ouro lado, os programas de mestrado são sempre criados com linhas de pesquisas específicas. Apesar de que nós colocamos as linhas de pesquisa no nosso programa, não é o que acontece na prática, o que mostra a fragilidade das nossas políticas pedagógicas. Eu fico indignado como é possível que um indivíduo comece um curso de mestrado com duração de dois anos, e nesse período o mestrando termina sem participar em nenhuma conferência nacional ou internacional, muito menos um congresso, não publica nenhum artigo e simplesmente o mestrado está terminado.

Não há condições para garantir, pelo menos, uma conferência?

Para se organizar eventos de carácter científico exige uma série de condições, e uma delas é a componente financeira. Não basta ter vontade de querer fazer as coisas quando financeiramente não somos capazes. E falo isso com muita propriedade, por neste momento estar a coordenar os dois cursos de mestrado em Ensino de História no ISCED de Luanda. Vivo esse problema todos os dias. Na abertura desta quarta edição, eu tinha dito aos mestrandos que não terminaríamos o curso sem antes realizar, no mínimo, dois eventos científicos. No ano passado, no mês de Maio, tentámos organizar um colóquio alusivo ao Dia de África, mas, infelizmente, fracassamos. Não tivemos condições financeiras. Neste ano tentamos fazer o mesmo na comemoração dos 47 anos de Independência de Angola mas também não conseguimos. Aproveitaremos essa oportunidade do Jornal Cultura que surge com esta ideia, em que se junta ao ISCED para concretizar essa conferência.

A conferência, no fundo, vem dar um passo pioneiro…

Sim, e é com muita satisfação que abraçamos esse projecto. É o que nós sempre esperamos. Na verdade, em todas outras paragens pelo mundo, a academia sempre precisou de parcerias com outras instituições, quer públicas, quer privadas, interessadas em fomentar debates científicos e culturais. Aqui na academia temos a massa cinzenta, a vontade, mas que por si só não determinam os acontecimentos. Essa conferência organizada pela Edições Novembro, por via do seu quinzenário cultural, o Jornal Angolano de Artes e Letras, tem todo o nosso apoio. Aparecemos não apenas como colaboradores, mas queremos nos sentir como parte dessa actividade, como parte organizadora da actividade. Essa conferência poderá, pela primeira vez, dar essa oportunidade aos alunos do mestrado. Todos os mestrandos vão se fazer presentes. É a actividade científica dentro desse mestrado.

E nunca tinha acontecido antes…

Nunca aconteceu. Não houve das outras entidades essa flexibilidade, essa abertura em fazer, de uma instituição como o Jornal Cultura que chama a academia para juntos levarmos ao conhecimento de um público nacional e internacional sobre os avanços da ciência histórica no nosso país ao longo desses 47 anos de Independência. Esse é o caminho para consolidar a História, enquanto ciência, no nosso país.

  "Temos uma excessiva regionalização da nossa História”

Como olha para a missão da História para a afirmação do nacionalismo?

Dou aulas no primeiro ano de uma das disciplinas nucleares do curso de História, precisamente "Introdução aos Estudos Históricos”, que induz o aluno ao âmago do curso. A História, enquanto ciência, é uma disciplina que tem como missão formar valores, por congregar todo um conjunto de acontecimentos que contribuem para a formação da personalidade. Essa noção de Nação e Pátria resulta do conjunto de factos históricos que fazem parte da memória colectiva que permite que nos sintamos como parte da mesma Nação. A História serve para isso, para cultivar os ideais de pertença a um espaço ou sociedade, por tudo que foi conquistado ao longo do tempo. O nosso nacionalismo não terá como resistir se não tivermos formação consolidada em História. O executivo angolano, ainda na primeira república, teve uma grande preocupação ao criar aquilo que viemos a chamar de História Geral de Angola, porque muito da nossa história até aos dias de hoje ainda são deturpados ou omitidos. A partir de 1997, o Ministério da Cultura organiza o primeiro encontro internacional sobre a História de Angola, e mais tarde, entre 2009-2010, se repetiu, ficando expressa a vontade de construção da História Geral de Angola. Entretanto, essa História Geral de Angola não se vai criar no laboratório, e muito menos algo que um grupo de pessoas senta e fabrica alguma coisa. Não é isso. A História tem de congregar todas as histórias, onde todos nós seremos chamados, cada um na sua localidade e responsabilidade em construir parte da história. Ai sim, a História de Angola será o conjunto das várias histórias das diferentes regiões do espaço que hoje compõe o país.

Na sua visão, já temos uma História de Angola que satisfaça a academia?

Essa pergunta é bastante ambígua. Porque se eu disser não temos História de Angola, poderá questionar aquilo que tem sido ensinado nas escolas de Angola. A história constrói-se. Neste momento temos uma História de Angola de aquilo que é possível ser ensinado na base do que já foi produzido como conhecimento histórico. Mas é suficiente? Claro que não. Nós temos uma excessiva regionalização da nossa história. A ideia, às vezes, que temos da História do nosso país dá a entender que está confinada a certas regiões, o que não é verdade, contrariando do que muita gente argumenta de que Angola é uma criação portuguesa. Em certa medida, as pessoas que assim dizem podem ter uma dose de razão. Mas na generalidade não têm. Porque os portugueses não criaram algo novo, que não tenha existido antes. O português já encontrou povos organizados, com as suas próprias dinâmicas. Os movimentos migratórios dos grupos que viriam formar Angola não tinham como cunho a presença portuguesa. Os portugueses simplesmente aglutinaram no mesmo espaço vários povos, de línguas e culturas diferentes, e deram uma estrutura política a esse espaço que passaram a chamar Angola. Por exemplo, por força de um linguista, vários povos falantes de línguas aparentadas foram cunhados por bantu. Mas antes aqui neste território chamado Angola viviam outros povos, mas ficamos sempre pela famosa migração bantu. Portanto, há desafios para a História, em explicar as origens destes povos autóctones. Na interacção entre europeus e africanos, houve choque, de culturas e de interesses.

E quais foram as consequências?

Esses choques vão fazer com que emerja em Angola um grupo de populações que não se identificavam satisfatoriamente com nenhuma das culturas, africana e europeia. Dessa confluência de cultura, surgiu a elite crioula de Angola, que a uma dada altura sentiu que os seus benefícios estavam a ser beliscados pela metrópole, que de facto no passado tinham, e dessa reivindicação dos direitos dessa elite faz nascer o movimento que viria a se chamar nacionalismo. São as dinâmicas da nossa história, resultado de choques e confluências. Hoje temos o desafio de deslocar a própria História, e enriquece-la com outros depoimentos e figuras históricas omitidas pela própria História, até mesmo dentro da academia.

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