Opinião

Diáspora(s) e literatura (2)

João Melo*

Jornalista e Escritor

Até que ponto e/ou em que condições os autores angolanos que vivem na diáspora podem ser considerados como “nacionais”, isto é, como estabelecer se eles fazem parte ou não do sistema literário angolano?

02/11/2022  Última atualização 06H55

A resposta não pode ser jurídica, pois, por circunstâncias várias, os escritores da diáspora podem ter ou não a nacionalidade angolana. Se a tiverem, podem ou não possuir, igualmente, uma outra nacionalidade qualquer, estrangeira. Pela cor da pele também não será, como é óbvio, pois a composição "racial” dos angolanos é diferenciada. Trata-se, na realidade, de uma questão eminentemente cultural. Será, por conseguinte, pela temática? Isso levanta a seguinte questão, que se coloca em relação a todas as literaturas: para ser "nacional”, a literatura precisa de ser "nacionalista”?

Durante muito tempo, pensou-se que sim, embora a ideia de "nacionalismo” não fosse sempre e necessariamente associada à política (a relação entre os dois termos podia ser apenas implícita). Como diz Carlos Ceia, no seu dicionário online de termos literários, o romantismo é tributário do nacionalismo. A coincidência histórica explica essa associação entre os dois movimentos. Remontando o conceito de "nação” ao século 18 na Europa, coube ao romantismo, cujo período áureo se estendeu da segunda metade do século 18 até à primeira metade do século 19, acolher a missão de construir as identidades nacionais das nações emergentes, tanto na Europa como, posteriormente, nos processos de independência das novas nações americanas.

Tal influência também se fez sentir em Angola, onde essa vinculação entre a ideia de nação e o nacionalismo literário foi comum, quer entre os autores influenciados pelo romantismo  e o nativismo, tais como o próprio José da Silva Maia Ferreira, Alfredo Trony, Cordeiro da Mata e outros, quer àqueles que, a partir de meados do século 20, contribuíram para o surgimento da literatura angolana moderna; estes, não sendo românticos como as gerações imediatamente anteriores, não deixaram – pelo contrário – de colocar a ideia de nação e de identidade nacional no centro do seu projecto estético, pois, para eles, tratava-se de usar a literatura como instrumento de luta pela Independência Nacional. No que pode, talvez, ser considerado uma coincidência com o romantismo, a ancestralidade e as tradições culturais africanas eram invocadas para afirmar a autonomia (a independência) relativamente ao colonizador.

Quase cinquenta anos após a Independência de Angola, quando não há mais colonizadores, o país não está mais dividido entre duas facções em guerra e o sistema político funciona, pelo menos, na base de princípios democráticos mínimos, ainda faz sentido discutir a questão da nacionalidade literária tal como no período da luta pela Independência Nacional? Ainda é preciso identificar nacionalidade literária e nacionalismo literário?

A resposta é "não”. Contudo, continua a haver quem o faça, com uma diferença: o nacionalismo que é advogado como condição sine qua non para ver reconhecida a nacionalidade literária angolana já não é político, mas cultural. De um modo geral, os arautos dessa posição, acreditando que as tradições são imutáveis, defendem ideias neo-nativistas e propõem visões identitárias fechadas, auto-referentes e excludentes, baseadas na "raça” e por vezes na etnia.

Os inquiridores da nacionalidade literária dos autores, qualquer que seja a origem destes últimos, o seu percurso, a sua "raça” ou os seus posicionamentos pessoais, por um lado, e vivam eles no interior do país ou na diáspora, por outro lado, definem a temática como o critério fundamental para aferi-la. Previsível e felizmente, entretanto, o trabalho dos escritores angolanos da diáspora corresponde às características dos mesmos (e dos angolanos em geral): é diversificado e plural.

Terminarei na próxima quarta-feira esta série de artigos sobre diáspora(s) e literatura em Angola.

 

*Escritor e jornalista

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