Cultura

Dialologando com Dan Izevbaye e Saul Kripke

Luís Kandjimbo |*

Escritor

Tenho um particular interesse pelos problemas que os nomes próprios suscitam. O facto de permitir associações com a tematização da identidade do indivíduo, aguça ainda mais a minha curiosidade. Não é gratuita a referência que faço a dois momentos que revelam a minha simpatia pela problemática. O primeiro tem a ver com uma comunicação “A Individualidade do Escritor.

20/06/2021  Última atualização 08H40
© Fotografia por: DR
Elemento do Projecto de Identidade Nacional”, publicado nas actas do Colóquio Internacional sobre as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, organizado em 1984 pelo Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris. O segundo decorre da leitura crítica ao romance "Yaka” de Pepetela, publicado, em 1995, na revista "Estudos Portugueses e Africanos”, (números 25/28, pp.57/74), da Universidade de Campinas. Nesse texto, o referido romance é, por mim, classificado como colonial, devido à anulação funcional do designador rígido ou da rigidez descritiva dos nomes próprios de determinadas personagens-referenciais ou históricas angolanas e de outras estratégias ficcionais daí decorrentes.


Literatura e antroponímia

Por aí se pode concluir que a conversa de hoje vai gravitar em torno das propostas e debates a que deram origem as ideias que o crítico literário e professor nigeriano Dan S. Izevbaye (1937), na imagem, verte num ensaio com o qual se propõe examinar possibilidades para a crítica de um dos elementos secundários menos populares da personagem, enquanto categoria da narrativa: o significado dos nomes próprios. Este é um tipo de problemas respeitantes à referência e à existência de personagens ficcionais com que o filósofo norte-americano Saul Kripke (1940) se vem ocupando, especialmente as teorias descritivistas e identitárias dos nomes próprios. Embora sem intencionalidade filosófica, o texto do professor nigeriano é coevo  do livro do filósofo norte-americano.

Ora, a reflexão que no artigo do domingo passado dediquei aos heróis épicos levanta vários problemas semelhantes a esses e outros implícitos na enunciação do título do presente artigo. Dois desses problemas dizem respeito à identidade dos heróis épicos e aos nomes próprios das personagens dos textos, poemas e narrativas, do género épico. Trata-se de matérias da antroponomástica e da antroponímia que, numa lógica interdisciplinar, têm vindo a mobilizar a atenção de especialistas em diferentes domínios do saber. É o caso da antropologia, linguística, história, estudos de literatura e filosofia da linguagem.

Os objectos de estudos da antroponomástica, enquanto fenómenos da linguagem são, entre nós, bastante negligenciados. Tal observação revela-se pertinente, se compararmos o desempenho das instituições públicas responsáveis pelo registo civil que lidam com assuntos respeitantes aos nomes próprios e devem cuidar da identidade jurídica dos cidadãos, de um lado, e o quadro administrativo montado para tratar do licenciamento e o cadastramento das pessoas ficcionais jurídicas, as ficções de "como se…”, na expressão usada pelo filósofo alemão Hans Vaihinger. Mas, tanto quanto julgo saber, a questão da composição do nome próprio da pessoa, que já mereceu alguma atenção jurídico-normativa, através de legislação específica, deixou de atrair interesse público. O que se explica pela ausência de uma política linguística transversal. Apesar disso, tem sido conferida projecção mediática a vozes emergentes que indiciam a existência de incipientes iniciativas de estudo e investigação.

Esse estado de coisas, que se traduz em negligente atenção prestada à produção científica no domínio dos estudos literários, da linguística e da antropologia, ou ainda da reflexão filosófica, está na origem da ignorância epistémica observável em África acerca do pluralismo linguístico dominante em Angola e matérias atinentes à sua antroponímia. Por outro lado, tal facto, que se deve à natureza exoglóssica das acções atribuídas ao Estado, pode ser ilustrado por uma pequena anedota. Em artigo publicado em 2016, numa revista da Universidade Bahir Dar da Etiópia, duas linguistas nigerianas, Gladys I. Udechukwu e Nkoli Mercy Nnyigide, do Departamento de Igbo, Estudos Africanos e Asiáticos da Universidade Nnamdi Azikiwe, situada no Estado de Anambra, seleccionaram como exemplos de antropónimos de línguas bantu de Angola quatro nomes próprios da língua portuguesa, atribuindo-lhes o respectivo significado. São eles: Aldonza "significa doce”; Aline "significa adorável”; Adelia "significa bondade”; Amindo significa "mais bonita”, Avelina significa "vida”.

Aí temos os efeitos daquilo a que designo por glossobalcanização. Para reverter a situação é necessário fazer a apologia da apropriação dos postulados de diferentes instrumentos convencionais africanos, tal como a Declaração de Harare sobre Políticas Linguísticas em África, de 1998.
A propósito do inventário dos nomes próprios, há no nosso País uma agenda por cumprir. Mas não deixa de haver excepções que nos honram. É o caso do trabalho do escritor Óscar Ribas com o seu segundo volume do "Missosso” que comporta uma secção de categorias de nomes próprios em Kimbundu. De igual modo, o "Pequeno Dicionário Antroponímico Umbundu”, de 2003, do falecido antropólogo Francisco Xavier Yambo e uma versão publicada de uma dissertação de Mestrado, defendida na Universidade de Western Ontario: "O Nome na Identidade Umbundu. Contributo Antropológico”, de 2009, livro de Jorge Simeão Ferreira Chimbinda.

 
Olhar crítico de Dan Izevbaye

No capítulo dos estudos de literatura a nível do continente africano, um dos mais fecundos textos foi escrito pelo  crítico literário e professor nigeriano Dan S. Izevbaye, que dedicou ao tópico um ensaio digno de especial atenção. "Nomes Próprios e Carácter da Ficção Africana” é o título do texto publicado em 1981, na prestigiada revista norte-americana "Research in African Literatures” em que tive igualmente o privilégio de, há catorze anos, publicar um texto traduzido por um dos mais importantes especialistas das literaturas africanas de língua portuguesa, o  malogrado professor Russell Hamilton.

Dan S. Izevbaye é um professor nigeriano emérito da Universidade de Ibadan, onde obteve o doutoramento em 1968. Com a sua actividade de ensino e investigação tem vindo a contribuir para o avanço do estudo e hermenêutica  das literaturas africanas através da prática de análise de texto em contexto.

Numa perspectiva intercultural, Dan Izevbaye reconhece que os nomes próprios representam um dos temas mais controversos da filosofia ocidental, pois já Platão o tratou em "Crátilo”, um dos seus livros de diálogos socráticos. Mas, por modéstia intelectual, Dan Izevbaye não admite que o referido ensaio seja inscrito no campo da metafísica, linguística, filosofia ou sociologia. No seu entender, estas disciplinas têm a vocação de abordar questões fundamentais como o grau de correspondência entre som e essência, nome e objecto ou pessoa, ou entre o social e o psicológico. Para o professor emérito da Universidade de Ibadan, uma das funções dos nomes próprios, que consiste em tornar possível a classificação dos fenómenos e ajudar a identificar o carácter ou a categoria de cada pessoa ou objecto, é geralmente ignorada. Por essa razão, Dan S. Izevbaye considera que devem ser tidos em conta dois tipos de contextos sócioculturais subjacentes à atribuição de nomes próprios. Em primeiro lugar, o contexto cultural arquetípico no âmbito do qual os nomes próprios são vivos e significativos, como o contexto recorrente observável em descrições das práticas de nomear nas diferentes culturas africanas. Em segundo lugar, as circunstâncias em que os nomes próprios perdem o seu significado social, revelando-se os nomes comuns mais significativos do que os nomes próprios.

Recorrendo, por exemplo, à leitura dos romances de Chinua Achebe, nomeadamente, "Things Fall Apart” ou "No Longer At Ease”, interroga-se acerca da adequação do nome próprio à personagem e à função do herói. É o caso  da tipicidade de um nome Igbo como Okonkwo ou Obi. Por isso, conclui que embora tais questões não constituam a principal preocupação da crítica literária, não podem ser completamente ignoradas. Em virtude de a atribuição dos nomes próprios ficcionais ter a sua fonte em nomes próprios usuais, as  perspectivas não-literárias podem ser úteis para o estudo da sua caracterização e do seu significado. De resto, Dan Izevbaye defende a ideia segundo a qual na narrativa literária o escritor é o demiurgo da correspondência entre o nome e o objecto nomeado.


Propostas de Saul Kripke

Tal como foi referido, o texto do professor nigeriano Dan S. Izevbaye é coevo da publicação do mais importante livro do filósofo norte-americano sobre a problemática dos nomes próprios, "Naming and Necessity” (O Nomear e a Necessidade, 1981).

 Com as propostas de Saul Kripke poderíamos especular acerca do sentido e referência dos nomes próprios de personagens literárias. Por exemplo: 1) Mutu-ya-Kevela, o herói da revolta do Bailundo de 1902, personagem-referencial ou histórica e do romance "Yaka” de Pepetela; 2) Nambalisita, personagem ficcional, autoexistente ou incriado, das narrativas épicas angolanas e do romance "Konhkava de Feti” de Henrique Abranches; 3) João Segunda, pura personagem ficcional romanesca em "Maio, Mês de Maria” de Boaventura Cardoso. Se por "designador rígido” entende-se, tal como diz Saul Kripke, o conjunto de elementos descritivos que permitem identificar o mesmo objecto em todos os mundos possíveis, tal categoria aplicar-se-ia apenas a Mutu-ya-Kevela, pois é o nome próprio da única personagem a que corrresponde um referente e, consequentemente, uma identidade cujas propriedades são irrevogáveis, independentemente do mundo possível em que existir.

A frase declarativa 1) "Mutu-ya-Kevela, o herói da revolta do Bailundo de 1902”, é um tipo de  frase declarativa necessária. Neste caso, de acordo com Saul Kripke, estamos em presença de uma frase que a) é verdadeira; b) não poderia ser de forma diferente. Já a frase declarativa 2) "Nambalisita é uma personagem ficcional autoexistente ou incriado das narrativas épicas angolanas”, é uma frase declarativa contingentemente verdadeira.

A frase 3) "João Segunda, pura personagem ficcional romanesca”, também pode ser classficada como frase declarativa contingentemente verdadeira. Segundo Saul Kripke, as frases 2) e 3) são tipos de frases declarativas em que, apesar de enunciarem esses nomes e respectivos referentes, se admite que as coisas podem acontecer de forma diferente.

Para Saul Kripke, estes dois tipos de frases declarativas são susceptíveis de serem abordadas na perspectiva da metafísica, por outras palavras, como o mundo é e como poderia ter sido. No entanto, há um tipo de frase declarativa que supõe a existência de uma verdade "a priori”, aquela que pode ser reconhecida como verdadeira independentemente de qualquer experiência. Mas o tipo de argumentação que pode sustentar a verdade "a priori” pertence à epistemologia, isto é, essa verdade a "priori” pode ser objecto de um conhecimento que o mundo real suscita, tal como qualquer outro.

Portanto, pode dizer-se que o ensaio de Dan Izevbaye, em diálogo com Saul Kripke,  é um texto seminal para a tematização dos nomes próprios na Filosofia da Literatura Contemporânea em África, sendo um contributo que se inscreve na cronologia dos debates interdisciplinares, filosóficos, linguísticos e literários, que tiveram lugar durante o século XX.

* Ensaísta e professor universitário

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