Cultura

Dia Nacional da Alemanha pelas ondas da rádio

Analtino Santos

Jornalista

Os convidados, de forma descontraída e com diferentes níveis de expressão em português, falaram sobre as experiências pessoais e profissionais, sempre tendo como foco o intercâmbio.

10/10/2021  Última atualização 10H40
República Federal da Alemanha celebrou o seu Dia Nacional © Fotografia por: DR
Constantin Zelenty é chefe de missão adjunto da embaixada da Alemanha, Vandré Spellmeier director da delegação de economia alemã em Angola e Gabrielle Siller-Kern directora do Goethe Institut.

Constantin Zelenty é o espelho da Alemanha multicultural. De origem grega, começou por explicar a origem do feriado: "para nós, o 3 de Outubro é uma data muito importante, é o Dia da Unidade Alemã. No dia 3 de Outubro de 1990, os dois Estados (Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental) tornaram-se num só depois de 28 anos separados por um muro que foi derrubado aos 9 de Novembro de 1989”. 

O diplomata não tem ainda um ano e meio de Angola, por isso, dos três, é o que tem mais dificuldades em expressar-se em português. "Temos como prioridade o intercâmbio económico e cultural, incluindo a língua alemã”, disse. "A vida, segundo disse Óscar Wilde, é demasiado curta para aprender o alemão, mas pode-se fazer uma tentativa com a ajuda e o apoio do Goethe Institut”, acrescentou Constatin Zelenty.

O turismo também foi assunto no programa. "Infelizmente não vi muito do país, mas ainda tenho dois anos para descobrir Angola. Estamos em contacto com o Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente para encontrar uma boa estratégia para aumentar o montante de turistas alemães”, frisou Zelenty.

Vandré Spellmeier assume-se como um alemão do mundo com experiências em países como Moçambique, África do Sul e Holanda. E explica o seu português perfeito: "tenho sotaque brasileiro porque nasci lá, numa família de origem alemã. De lá saí com oito anos e estou casado com uma brasileira. Em Angola já estou há muito tempo. Estive cá pela primeira vez em 2007 e fiquei umas semanas em trabalho, depois morei de 2009 a 2010, voltei em 2012 e estou cá até hoje”.

Como director da delegação de economia alemã em Angola Vandré tem como missão articular o lado económico e empresarial. Nessa  condição, revelou alguns dados: "existem 26 empresas alemães fixadas activamente em Angola por meio de uma filial ou subsidiária, mas naturalmente existem outras que fazem negócios com Angola.

Alguns dos projectos de grande escala que se fazem no país são executados por empresas alemãs. Temos uma expectativa para os próximos anos, um novo projecto na área de energia, mais precisamente em hidrogénio, que nos últimos tempos se tornou um assunto que está na moda a nível internacional mas que está na pauta da Alemanha já há muitos anos e queremos estreitar a relação com Angola nesta área. Na agricultura, inclusive, existem alemães que vivem cá e estão activos nesta área”.

Como bom cidadão do mundo, viagens e estradas fazem parte da vida de Vandré. "Conheço algumas províncias  e  já fiz várias viagens. A mais memorável foi ao Namibe. E falo para os meus amigos mundo a fora que eu peguei o carro com a minha esposa e uma amiga e nos aventuramos, na altura a estrada Benguela-Lubango ainda nem estava construída e foi fascinante, uma das melhores viagens da minha vida. Turisticamente o pais é lindo, é fantástico”.


Cooperação cultural
Vandré finalizou a sua participação do seguinte modo: "estamos de braços abertos para receber empresários angolanos e atrair mais empresas para cá, mostrar que Angola tem um mercado com grande potencial e é um país acolhedor”.
Gabrielle Siller-Kern, directora do Goethe Institut, é uma senhora que gosta de descobrir espaços e ambientes angolanos. Nestes dois anos e meio já provou o caldo do Muzonguê da Tradição do Kilamba, funje num quintal no Sambizanga, aventurou-se em festas de Kuduro, descobriu o Kuimbila Ni Kukina Semba e tem feito um mar de coisas.

Da sua experiência, ela assim o descreve: "gosto de trabalhar e viver aqui. Como o Goethe Institut tem como maior objectivo o intercâmbio  cultural entre Alemanha e Angola, conheço muitos artistas angolanos e adoro a cultura, as pessoas, a comida, as paisagens, gosto de comer funje, não todos os dias mas a sexta-feira”.

E mais disse: "um dos nossos principais objectivos é o ensino da língua alemã e também o intercâmbio cultural. Aqui focamos na cooperação entre os artistas dos países. Pretendemos fortalecer uma troca de experiência entre eles, levando a cultura  angolana para a Alemanha e a nossa para cá. No ano passado foi difícil trazer artistas para cá, por isso trabalhamos com artistas locais, a exemplo do que está a acontecer com a nossa série de concertos intimistas.

Há Jazz no Museu, que acontece no Museu Nacional de Antropologia. É claro que esperamos que no próximo ano as coisas vão mudar e vamos poder trazer mais artistas da Alemanha para Luanda e vice-versa. Gostaríamos de levar o Jorge Mulumba e o seu grupo Nguami Maka para a Alemanha, ele já trabalhou com o baixista de jazz alemão Sebastian Gramns aqui”.

Gabi, como é tratada pelos colaboradores, realça: "não nos limitamos apenas à música. Há duas semanas, organizamos uma oficina de banda desenhada e agora estamos a preparar um documentário e uma exposição sobre o pai da banda desenhada em Angola, Henrique Abranches. Não vamos apenas apresentar no Memorial, em Luanda, mas também numa página web, para que um público  internacional possa tomar conta da vasta obra de Henrique Abranches, e isto também é uma forma de levar a cultura angolana a um público internacional”.

A directora do Goeth Institut realçou que "o nosso projecto mais importante é uma cooperação entre o Museu Etnológico de Berlim e o Museu Nacional de Antropologia, porque o museu alemão tem uma das colecções mais valiosas de objectos angolanos. Já realizamos vários eventos: uma série de palestras sobre o futuro dos museus, em que foram convidados os colegas do Museu de Antropologia para Berlim”.

Gabi aproveitou a discussão sobre o turismo para sugerir: "acho que um museu que apresenta artigos sobre a cultura pré-colonial é muito importante para atrair turistas aqui, porque cada turista de fora quer saber mais sobre a história  do país  e no Museu de Antropologia isso seria possível”.

Estudar na Alemanha 
Constantin Zelenty deu a conhecer que vive "pouco mais de duzentos alemães em Angola”.   Gabrielle revelou que em Luanda grande parte dos alemães são provenientes do Norte, mas que a cultura que mais representa o seu país no exterior é a do Sul. Como exemplo deu o Ocktober Fest, a música e a gastronomia. "Podemos confessar que a comida do Sul é bem melhor”, disse.

Recordou que há 30 anos, existia um forte intercâmbio com muitos angolanos que estudavam principalmente na RDA, alguns dos quais assistiram à queda do Muro de Berlim. "É interessante ouvirmos eles a contarem histórias e anedotas desta época. Actualmente temos 80 estudantes angolanos na Alemanha e estamos a atrair jovens angolanos para fazerem os seus estudos na Alemanha. Com a agência de intercâmbio académico internacional da Alemanha, recentemente, tivemos um processo de selecção para bolsas e esperamos aumentar ainda mais os estudantes”.

Alberto Paulo, estudante angolano na Alemanha, disse que a ideia de estudar naquele país surgiu em 2017. "Quando estava numa companhia de petróleo, nós efectuámos visitas a universidades pela Europa e a Alemanha foi um dos países  visitados. Foi aí que entrei em contacto com uma universidade técnica, e, visitando o campus da mesma, deu para ver que tinha todas as condições para um ensino de qualidade. Assim, decidi que faria o meu mestrado aqui. E dois anos depois de terminar a minha licenciatura, surgiu a oportunidade”.

O estudante enumerou outras valências do ensino universitário alemão. "Além de receber um ensino de qualidade, tens a possibilidade de participar nas decisões da universidade. Participas nas reuniões e os teus votos têm o mesmo peso do dos professores e decanos. Eu faço parte do departamento de admissão de estudantes e isto alegra-me, porque a minha voz é ouvida. Com o cartão tens o direito de usufruir de todo e qualquer transporte público no Estado em que estás. Como estudante participas em viagens de intercâmbio estudantil ou mesmo cultural, grande parte delas custeadas pela universidade ou por empresas”.

Focando na sociedade alemã, no geral, Alberto Paulo realçou que ficou impressionado com o multi-culturalismo, "a abertura dos alemães para aprender sobre outros países e origens e a forma como a pessoa  humana é tratada, não importando se és alemão ou não.
Há uma frase que os meus colegas usam: ‘somos todos iguais’. É algo que me admira e que eu aprecio muito. Gosto também da efectividade com que trabalham, são muito rígidos, estão sempre a seguir as leis e as normas, o que é muito bom, mas às vezes irrita um pouquinho”.

Alberto Paulo conta um episódio que viveu na universidade: "nós temos que nos registar para os exames com duas semanas de antecedência e eu deixei passar um dia. Quando fui fazer a inscrição eles negaram. Para eles, se a lei diz assim então tem de se cumprir. É algo que passei a admirar bastante”.
O estudante terminou a sua participação aconselhando quem queira estudar na Alemanha a participar nas várias actividades da embaixada Alemã e do Goethe Institut.


Edições anteriores 
 
A participação dos cidadãos alemães no programa da Rádio FM Estéreo do passado domingo vem na sequência de uma parceria entre a embaixada da Alemanha, o grupo RNA e angolanos amigos da Alemanha. Esta foi a terceira edição. A primeira aconteceu em finais do ano passado e contou com a presença dos cantores Lina Alexandre e Big Nelo. A segunda contou com o escritor Mena Abrantes e o músico Jay Lourenzo. Dados curiosos foram revelados. Por exemplo, Big Nelo foi introduzido no Rap por alemães de origem turca; o cantor falou, também, das suas escapadelas para o outro lado do muro para ir comprar Coca-Cola na RFA e partilhar a bebida com os colegas na RDA.

Lina Alexandre recordou, dentre outros, o concerto dos Jovens do Prenda e como os angolanos adaptaram o greeze, uma papa alemã, para funje. Falando de funje, Mena Abrantes revelou que nos anos 70 ele era o distribuidor de funge para os nacionalistas que estavam na Europa Ocidental. Jay Lourenzo, mais jovem, falou da sua formação em produção musical e participação em concertos de Rap. Em todas as edições, Moisés Luís é o moderador.     

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