Opinião

Dia Mundial da Alimentação 2022 “Como garantir que realmente não deixamos ninguém para trás”

“Não deixar ninguém para trás”, este é o tema do Dia Mundial da Alimentação deste ano e também um apelo urgente para o mundo enfrentar a realidade alarmante de que mais e mais pessoas estão a ser deixadas para trás no meio de uma crise global de segurança alimentar que se agrava rapidamente resultado de vários factores.

24/11/2022  Última atualização 06H40

Alguns deles são as repercussões de conflitos actuais e prolongados, como a guerra na Ucrânia, a pandemia da doença por coronavírus (Covid-19) e a crise climática. Outros factores que agravam os problemas são picos inflacionários e aumentos acentuados nos preços de alimentos, rações, combustíveis e energia, que ameaçam criar uma crise de acesso a alimentos no presente e possivelmente uma crise de disponibilidade de alimentos na próxima temporada.

Muitas pessoas ficaram chocadas com as imagens dos níveis catastróficos de insegurança alimentar aguda em muitas partes do mundo nos recente meses e semanas. No último relatório da FAO e seus parceiros sobre o Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo (SOFI), estima-se que, em 2021, cerca de 828 milhões de pessoas sofriam de desnutrição crónica -, ou seja, 46 milhões a mais do que em 2020 e 150 milhões a mais do que em 2019, antes do início da pandemia de Covid-19. As consequências da pandemia já tinham aumentado as desigualdades existentes, elevado a pobreza extrema e dificultado ainda mais a erradicação da fome, principalmente, em países vulneráveis.

Não há dúvida de que a tarefa de alcançar o objectivo de "não deixar ninguém para trás” já é gigantesca, apenas quando se fala de alimentar a população mundial, sem falar em oferecer às pessoas uma vida de paz e igualdade e um futuro inclusivo e sustentável. No entanto, não devemos cair no desespero ou continuar a fazer as coisas da mesma maneira e esperar resultados diferentes. Existem maneiras significativas de enfrentar esses desafios.

Vejamos um dos exemplos mais urgentes: num momento em que as emergências, situações de conflito e desastres estão a aumentar, uma das nossas principais prioridades deve ser apoiar os meios de subsistência dos mais vulneráveis e dos mais afectados. Essa ajuda precisa de ser melhor coordenada e mais substancial; também terá de chegar a tempo para as épocas cruciais de plantação e produção de gado. O facto surpreendente é que pelo menos duas em cada três pessoas que sofrem de fome extrema são produtores de alimentos em pequena escala nas áreas rurais. A tarefa crucial é ajudá-los para que possam se alimentar e alimentar a todos nós. É muito fácil as comunidades ficarem para trás quando são apanhadas entre a ajuda de emergência, o trabalho de desenvolvimento e os esforços para promover a paz em zonas de conflito e, neste  sentido, devemos melhorar a coordenação da prestação de ajuda que é tão necessária e destiná-la correctamente.

Também é essencial que a solidariedade aumente a escala mundial. Por exemplo, as nações mais vulneráveis do mundo precisam de apoio global para poder fornecer protecção social aos grupos mais pobres da sua população, para que tenham as ferramentas necessárias para serem resilientes antes que ocorram desastres. Os governos devem concentrar-se no bem comum e evitar medidas proteccionistas que possam afectar os mercados internacionais, a fim de mitigar possíveis interrupções na escassez de alimentos, mantendo o comércio aberto e as cadeias de abastecimento a funcionar.

O trabalho conjunto de governos, sector privado, academia, sociedade civil e de todas as partes interessadas é fundamental para ajudar a fortalecer o poder dos mais vulneráveis, transformando a maneira como os nossos alimentos são produzidos, fornecidos e consumidos. Para isso, é crucial fornecer insumos agrícolas básicos, formação adequada, incentivos, inovação e tecnologias para pessoas vulneráveis, especialmente mulheres e jovens. Um dos principais pontos de partida para enfrentar o problema é a necessidade de mais e melhores informações sobre quem ficou para trás e por quê. Se os governos tiverem mais dados e estudos focados nas pessoas, podem usar esse conhecimento empírico para adoptar práticas institucionais e sociais inclusivas, adequadas e responsáveis. Um passo importante seria que os governos integrassem o compromisso de não deixar ninguém para trás nas suas estratégias, planos e orçamentos para cumprir a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e alcançar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

O que podemos fazer em conjunto para tornar tudo isso uma realidade em vários níveis? O fundamental é que todos podemos agir de forma eficaz e eficiente, consistente e com mais compaixão, falando e influenciando os tomadores de decisão para garantir que ninguém  seja deixado para trás. Também podemos reduzir o desperdício de alimentos, comer alimentos nutritivos e de época,  cuidar dos nossos recursos naturais, como o solo e a água. Neste contexto, desejo sublinhar o papel vital dos nossos jovens. Pelo segundo ano consecutivo, os jovens estão no centro da plataforma do Fórum Mundial da Alimentação, que estamos a organizar em formato híbrido na sede da FAO em Roma este mês (17 a 21 de Outubro). A plataforma é composta pelo Fórum Mundial da Juventude, o Fórum de Ciência e Inovação e o Fórum de Investimentos da Iniciativa Mão na Mão. As ideias, o entusiasmo e o interesse dos jovens pelo futuro devem desempenhar um papel fundamental para garantir que a acção e a solidariedade estejam no centro do nosso pensamento e da nossa paixão, para alcançar as Quatro Melhorias (melhor produção, melhor nutrição, melhor meio ambiente e uma vida melhor), não deixando ninguém para trás.



Qu Dongyu |*

 

* Director-Geral da Organização

das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)

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