Reportagem

Dia internacional do pai: “O pai desde sempre foi o nosso grande herói”

Alexa Sonhi

Jornalista

“Não me cabe conceber nenhuma necessidade mais importante, durante a infância de uma pessoa, que a de sentir-se protegido por um pai”, lembrou o médico neurologista e pai da psicanálise, Sigmund Freud. Com esta tese, o cientista de nacionalidade austríaca elevou a figura do pai e a importância da presença dele na vida dos filhos.

19/03/2022  Última atualização 08H40
Muitos filhos sonham em ser como os pais, tendo em conta as boas referências que têm destes © Fotografia por: Edições Novembro
Quem corrobora da mesma opinião é Etelvina Rodrigues, de 28 anos, que foi criada apenas pelo pai, desde os sete anos, altura em que a mãe passou a apresentar problemas psiquiátricos, a ponto de andar pelas ruas quase despida e a recolher lixo. 

"Foi o período mais crítico das nossas vidas, porque ver a nossa mãe adoecer e sem mais capacidade para cuidar dos seus próprios filhos foi muito desafiante nos primeiros anos, principalmente para o meu pai que estava acostumado a ser tratado como rei. Ele só saía para trabalhar, o resto a mamã cuidava”.   

Etelvina Rodrigues, que não aceitou ser fotografada, contou que, quando a mãe internou, por um período longo, o pai que não dominava as tarefas de casa, teve de pedir dispensa do serviço, para ajudar a filha mais velha, na altura com dez anos, nas tarefas da casa, dos cuidados dos meninos mais novos e levar todos os dias comida ao hospital. 

Etelvina Rodrigues já chegou à escola sem escovar os dentes e com o cabelo despenteado, porque o pai que estava, também, a desempenhar as funções comuns da mãe, se tinha esquecido dela, de tanto trabalho que tinha.  

"Também já fui esquecida  algumas vezes na escola, porque o papá teve de levar a bebé para a consulta ou fazer outras coisas e, quando se lembrava de mim já eram 15 ou 16 horas, e a professora tinha de me levar à casa dela. Era muito pequena e estava sempre a chorar, pois me custava aceitar que o meu pai ainda estava a se adaptar àquela situação”, disse.  

Como o pai de Etelvina era marceneiro de mão cheia, decidiu sair na empresa onde trabalhava e abriu o seu próprio negócio, para ficar mais tempo em casa e cuidar melhor dos cinco filhos que, na altura, eram todos pequenos, e da mulher que volta e meia estava no hospital.

À medida que o tempo foi passando, as coisas em casa de Etelvina Rodrigues foram se encaixando, pois, nesta altura, o pai já sabia cozinhar bem, tratava com esmero os filhos e, inclusive, levava o cabelo das filhas, ao ponto de fazer "puchinhos”, para irem à escola com uma imagem mais cuidada. 

"Quando as minhas irmãs e eu começámos a menstruar, foi o meu pai que nos instruiu como deveríamos proceder, apesar das dificuldades que ele tinha para falar connosco sobre sexualidade”, recordou, para avançar que "quando ficássemos doentes, o meu pai não conseguia dormir e não aceitava nos deixar sozinhos”.

A mãe de Etelvina ainda vive, mas, devido aos problemas mentais, esqueceu-se que tem casa, filhos e marido para cuidar. Das poucas vezes que se lembra disso, apenas vai para guardar lixo e pedir comida e, depois volta à rua. 

"Somos três em casa, que já estamos formadas, as duas manas mais velhas casadas e eu estou noiva. Quem nos acompanhou nesse processo todo foi o nosso pai, com ajuda de algumas tias. Tudo o que eu e os  meus irmãos sabemos da vida foi o pai que nos ensinou, por isso,  desde sempre temos o pai como nosso grande herói”.  


 

"Quando feito com amor, tudo se torna fácil” 


Se por um lado, os filhos reconhecem que alguns pais são heróis nas suas vidas, por outro, os próprios pais, igualmente, admitem que se tornaram pessoas melhores, a partir do momento que passaram a cuidar dos filhos sozinhos.

É o caso de José Carlos, que se separou da mulher, há cinco anos, e, por conta disso, ele cuida dos seis filhos sozinho. Apesar desde sempre ser um pai presente, admite que esta nobre missão lhe tornou um homem melhor. 

"Tornei-me um ser humano mais sensível e compreensível, porque lidar com crianças exige que, muitas vezes, nos coloquemos no lugar delas para percebermos bem o que elas sentem ou querem”, reconheceu.

José Carlos conta que, apesar dos meninos estarem acostumados à mãe, depois da separação, não foi difícil cuidar deles sozinho, porque quando se faz com carinho e amor, tudo se torna mais fácil. Nesta tarefa de assegurar o crescimento dos meninos, ele tem, agora, a ajuda das filhas mais crescidas.

Segundo José Carlos, às vezes, as pequenas dificuldades só aparecem quando um dos filhos fica doente, porque fica com o coração apertado e não consegue ficar muito tempo fora de casa, de tanto apego e preocupação que tem pelas crianças.  

Apesar das tarefas acrescidas desde que começou a cuidar dos filhos sozinho, pouca coisa mudou na sua rotina diária. "Continuo a sair de casa, às 7h00, deixo os filhos mais novos na escola  e  vou trabalhar, no primeiro emprego, até às 12h00. Por volta das 13h00, regresso a casa para almoçar  e saio, novamente, para labutar até à noite, sem qualquer stress”.


Realçou que usa o resto do dia para orientar os filhos nas tarefas escolares e ajudá-los com os trabalhos de casa e na resolução de coisas pontuais. 

José Carlos afirma que ninguém pede para nascer, daí os pais, até separados, têm a tarefa de  educá-los com amor e formá-los, para que sejam bons cidadãos e a ajudarem a tornar o mundo um lugar melhor para se viver.

 O Dia do Pai é uma data comemorativa que foi instituída para homenagear, anualmente, os pais. A data varia de acordo com os países. No Brasil é celebrado no segundo domingo de Agosto, em Portugal é no dia 19 de Março, nos Estados Unidos e Inglaterra acontece no terceiro domingo de Junho, e nos países ocidentais coincide com a celebração cristã do Dia de São José, pai adoptivo de Jesus Cristo.

Pais dão equilíbrio familiar

O psicólogo clínico Nunu Pimpão considerou que a figura paterna na vida dos filhos é de extrema importância, porque ajuda, em grande medida, no equilíbrio emocional do indivíduo,  principalmente, na primeira infância, onde as pessoas começam a encarar o pai como herói, um protector e espelho.

"Quando se fala de pai,  estamos a falar de uma relação além  dos laços de sangue. É muito mais profunda do que a questão genética. O termo ‘pai’ nos remete ao afecto, à protecção, segurança, sustento e ao equilíbrio no lar”, disse.

Por isso, salientou que o lar deveria ser sempre o lugar mais seguro para um filho estar, pelo facto de ser ali onde estão os progenitores, a sua essência. Mas, infelizmente, disse que não é isso que se verifica, nos últimos dias, tendo em conta que o pai deixou de representar a segurança da criança e virou um grande perigo para o menor.

Nuno Pimpão explicou que  existem quatro hipóteses que se levantam quando se está diante da violação sexual ou outro maltrato. Tem a ver com a reprodução de comportamento que sofreu na infância. "Muitos destes pais podem ter sido vítimas de abusos sexuais e, no momento em que violam, sofrem uma compulsão ou repetição de comportamento em consequência do trauma vivido”.

A segunda é a influência da cultura, em que, na procura de bens materiais, muitas  pessoas consultam quimbandeiros, que recomendam o envolvimento com pessoas virgens e crianças para conseguirem êxitos no tratamento.

Depois, há a questão da presença de uma psicopatia, uma doença mental. E, por último, é o uso de drogas, substâncias que inibem a censura e dá incapacidade de avaliar o bem e o mal.

Estudos  mais profundo devem ser feitos a volta deste mal que é a violação sexual para se saber ao certo quais as motivaçoes que levam um pai a violar a própria filha, mas sejam quais forem as reais motivações, é um acto hediondo e extremamente reprovável.


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