Sociedade

Dia Internacional da Não Violência: Masfamu pede mais pacifismo entre as famílias angolanas

Edna Mussalo

Jornalista

A busca por soluções pacíficas para os problemas das famílias angolanas tem sido, nos últimos anos, das principais referências do Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher (Masfamu), que continua preocupado com os crescentes casos de violência, disse, ontem, em Luanda, a directora nacional para as Políticas Familiares, Igualdade e Equidade do Género.

03/10/2022  Última atualização 07H40
© Fotografia por: DR

Santa Ernesto pediu, por ocasião do Dia Internacional da Não Violência, celebrado ontem, pelo mundo, uma maior promoção da paz e da tolerância entre as famílias angolanas. "O Masfamu e parceiros têm trabalhado de forma ininterrupta, através de programas e projectos especiais, feitos para educar e sensibilizar as pessoas quanto ao fomento da paz e da tolerância”, disse.

A data, acrescentou, deve servir, ainda, de reflexão, quanto ao crescente número de casos de violência, em especial entre as famílias. "É preciso reflectirmos mais sobre as consequências que o flagelo da violência tem nas famílias, do ponto de vista da integridade física, psicológica, social e económica”, pediu.

Projectos como o "Jango de Valores”, a plataforma "Conversas em Família” e o Programa Nacional de Resgate de valores, no qual estão inscritos 17.002 pessoas, das quais 10.362 mulheres e 6.640 homens, têm sido, para Santa Ernesto, uma das soluções para minimizar a situação. "A nível nacional e em alinhamento com uma campanha das Nações Unidas, o Masfamu vai juntar-se a iniciativa de 16 dias de activismo contra a violência à mulher e as raparigas em todo o país, com marchas de repúdio, palestras, assim como acções de aconselhamento familiar, jurídico e psicológico”, disse, acrescentando que a actividade acontece de 25 de Novembro a 10 de Dezembro deste ano.

 

Números preocupantes

Um total de 4.283 casos de violência foram registados o ano passado, pelo Centro de Aconselhamento Familiar da Acção Social, criticou ontem, em Luanda, a directora nacional para as Políticas Familiares, Igualdade e Equidade do Género.

Entre os casos mais frequentes de violência há a destacar os de natureza sexual, patrimonial, psicológica, verbal, física e laboral. "Os alvos, geralmente, são os jovens na faixa etária dos 15 aos 49 anos, na sua maioria mulheres e crianças”, lamentou, acrescentando que o Instituto Nacional da Criança obteve um registo de 211.583 casos o ano passado.

O centro de aconselhamento familiar, disse, teve um registo de 1.319 denúncias, feitas por homens, e 7.382, por mulheres, sendo de maior relevância as referentes ao abandono familiar. O novo Código Penal, defende, vai ser uma mais-valia neste aspecto.


Psicóloga defende acções mais concretas

A luta contra a violência e pela defesa da paz e da tolerância passa, para a psicóloga Suzana Diogo, por acções mais concretas contra todas as formas de violência. "Os cidadãos devem condenar, ve-

emente, todo e qualquer acto, ou omissão, capaz de ferir ou causar danos à integridade física, psicológica, moral, sexual, ou religiosa, próprio ou de outrem”, realçou.

A violência, esclareceu, não deve ser associada, apenas, a actos físicos, como um corte, uma bofetada ou empurrão, mas também a palavras que tendem a causar sofrimento e privação a outra pessoa.

Entre as práticas sociais muito comuns, capaz de gerar actos de violência, a psicóloga destaca a difamação, a calúnia, a discriminação, o preconceito, o assédio, a manipulação e a chantagem. Os danos causados pela violência psicológica, disse, chega até uma dimensão muito ampla, embora passem despercebidos muitas vezes.

"A violência psicológica provoca sérios prejuízos sobre a saúde mental e física e ainda constitui uma grave violação dos direitos humanos, ao ponto de causar baixa auto-estima, depressão, ansiedade, isolamento ou retraimento social e a dependência emocional”, disse.

Nas crianças, acrescentou, a violência pode interferir no ritmo normal de desenvolvimento, criando em alguns casos traumas. "Algumas delas vivem em ambientes onde a violência é diária e contínua. Às vezes, acabam por aprender que os problemas se resolvem simplesmente com recurso à força ou ao poder”, salientou.


O papel incentivador da Polícia Nacional

O incentivo a não violência tem sido um dos propósitos da Polícia Nacional, que procura, em algumas acções de sensibilização, incentivar a sociedade, em particular os jovens, a terem uma maior cultura de paz e tolerância.

Porém, a violência física tem sido um indicador comum em muitos bairros de Luanda. Manuel Agostinho, de 34 anos, já foi uma das vítimas de violência física, perpetrada por marginais. Morador do Zango 4, conta que foi assaltado quando saía de casa, às 5h00, para o trabalho.Um dos meliantes, disse, chegou a desferir golpes, no braço direito e na face, com uma faca de cozinha. Por sorte, conseguiu escapar com vida.

O trauma da violência física e psicológica assombra muitos dos moradores da capital. Até efectivos da Polícia Nacional chegam a ser vítimas. Mas, são as mulheres e crianças as mais fragilizadas.

O chefe do Centro de Atendimento aos cidadãos, da Inspecção do Comando Geral da Polícia Nacional, superintendente Mateus de Almeida, conta que são vários os casos de cidadãos a irem ao local denunciarem as várias formas de violência as quais são sujeitos. Alguns casos são resolvidos pela corporação.

O porta-voz da Polícia Nacional em Luanda, superintendente Nestor Goubel, informou que dezenas de casos de violência física e sexual têm chegado ao conhecimento da corporação, por intermédio de denúncia dos cidadãos.

Os problemas sociais, aliados ao consumo exagerado de bebidas alcoólicas, têm levado, para Nestor Goubel, muitos cidadãos a partirem para a violência física, que em muitos casos tem resultado em morte.

A última prática da juventude, que tem gerado inúmeros problemas é, adiantou, as lutas entre grupos, uma situação que cria instabilidade em alguns bairros. "No Dia Internacional da Não Violência é preciso recordar que são muitas as famílias vítimas desta prática, nos lares, ou na rua”.


André da Costa


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