Reportagem

Dia de Cabo Verde celebrado em Luanda com música

Analtino Santos

Jornalista

O evento foi testemunhado pelo embaixador de Cabo Verde, Jorge Figueiredo, que falou da histórica relação e da forte irmandade entre os dois povos. Os ritmos Coladera, Funaná, Batuque e Morna agitaram a noite, coabitando com o Semba e outras sonoridades angolanas.

10/07/2022  Última atualização 08H05
Cantora Tchicau © Fotografia por: Armando Costa|Edições Novembro

(O trio Tchicau, Djudjuti e Adérito Pontes fez vários concertos em Luanda, o último dos quais foi ontem no MD House).   

O reportório escolhido foi uma amostra marcante do cancioneiro cabo-verdiano, com as músicas de cariz revolucionário "Labanta Abraço” e "Grita de Liberdade” do grupo Os Tubarões a ajudarem a manter o clima de exaltação propiciado pelo 5 de Julho de 1975. Outro tema desta histórica formação, um equivalente ao agrupamento angolano Kissanguela em termos de música de intervenção, foi "Nha Cansera Ca Tem Medida”, uma Coladera interpretada por Manecas, que também cantou a Morna "Rosa do Amor”.

Para abertura foi escolhido "Choro de São Vicente”, um instrumental do Conjunto os Merengues inspirado na celebração do primeiro aniversário de Cabo-Verde. O tema "5 de Julho”, conhecido como "Pato Fora”, fez vibrar a assistência. As duas músicas originais de Zé Keno foram soladas por Teddy Nsingui. A aposta por instrumentais não ficou por aí, porque as conhecidas "Boas Festas” e "Pipilita”, da autoria de Luís Morais, foram executadas pelo saxofone de Luís. O mestre Carlitos Vieira Dias brindou o público com "Benguela”, homenagem a uma província com forte presença de cabo-verdianos.

Tchicau proporcionou momentos altos de Morna, recordou Cesária Évora em "Beijo Roubado” e "Mãe Querida”, este último também refeito por Ildo Lobo, artista que igualmente gravou "Mi Cria Ser Poeta” de Paulino Vieira, outra proposta da noite da artista. Se com "Mi Cria Ser Poeta” o multi-instrumentista eternizou uma das mais emblemáticas peças de Morna, em "Prêce di um Filho” tem um forte chamado para todos os compatriotas espalhados pelo mundo, reflectido na frase "Alô alô Cabo-Verde nha terra”. Djudjuti no cavaquinho e Adérito Pontes na viola acústica transmitiram nos seus acordes a crioulidade das ilhas.

No reportório houve espaço para temas conhecidos nas vozes de nomes sonantes como Bana, Lura, Tito Paris e composições de Bleza e Pedro Rodrigues, assim como as canções de cabo-verdianos inspiradas em Angola, como "Angola Kuia” e "Cabinda ao Cunene” dos Mendes Brothers e "Angola Força”, uma composição de Ramiro Mendes, que, na voz de Cesária Évora mexeu com os angolanos e reflecte a irmandade entre ambos os povos. Tchicau fechou o espectáculo com "Coxa Redonda”, um Funaná do seu disco.  A cantora disse sentir-se como se estivesse na sua terra. "Estou em casa e prometo regressar em breve”, afirmou.

Djanira Mercedes, cantora angolana, não brincou em serviço e mostrou que é uma intérprete a ter em conta. Cantou "Padoce de Céu Azul”, uma Morna muito apreciada e cantada em Angola. De Tito Paris apresentou outro tema representativo para os cabo-verdianos, "Dance Mami Crioula”. O conjunto Dizu Dietu, que fez o suporte instrumental do concerto, também apresentou temas angolanos do passado: "Manuele”,  "Manazinha”,  "Mariana”, "Gajajeira” e "Santo António”, interpretados por Raúl Tolingas, Lito Graça e Legalize. Integram a formação Rufino Cipriano (teclados), Mias e Mogue (baixo), Teddy Nsingui (solo), Yark Spin (ritmo), Lito Graça (bateria e voz), Bucho (tambores) e Legalize (voz).

Depoimentos à quente

O embaixador da República de Cabo Verde, Jorge Figueiredo, não se limitou a assistir ao concerto. Ao som de "As ondas Sagradas do Tejo” rendeu-se e subiu ao palco para um dueto com Tchicau. O diplomata, em declarações ao Jornal de Angola, assumiu ter o gosto pela música: "Faço música em presença de amigos e noutros momentos de descontração. Hoje foi bonita esta celebração. É importante estarmos juntos aqui porque temos uma história comum. Olha que no passado muitos cabo-verdianos vieram a Angola para fugir do ciclo de seca e estabeleceram-se aqui. Agora existem muitos que optaram por viver aqui e estão a contribuir para o desenvolvimento do país”.

O diplomata apelou à reflexão de angolanos e cabo-verdianos nos seguintes termos: "É importante todos nós fazermos uma análise dos 47 anos de Independência, se de facto valeu a pena, e eu acho que sim, porque somos povos soberanos”.

 

Mogue: "Sabor especial”

O baixista Garcia Luzolo "Mogue” recordou os vários momentos em que celebrou o Dia Nacional de Cabo-Verde com a comunidade residente nos Estados Unidos da América. "Festejei vários 5 de Julho com  a comunidade cabo-verdiana porque nos Estados Unidos toquei muito com eles e hoje recordo a minha participação com músicos com muita harmonia. Na altura, quando fui com o Waldemar Bastos, não havia lá músicos angolanos e eu integrei-me no meio deles e hoje tocar nesta noite tem para mim um sabor especial”.

 

Djudjuti: "Dia importante”

Manuel Alves "Djudjuti” afirmou:  "O 5 de Julho é o dia mais importante para todos nós, porque é a nossa Independência, o dia da liberdade e da nossa tranquilidade, da nossa paz. Todos os cabo-verdianos, onde quer que estejam, no dia 5 de Julho devem festejar o dia da nossa pátria. Todos estamos felizes e eu ainda mais porque, pela primeira vez, estou em Angola. Vim por intermédio do meu irmão Kim Alves, que reside nos Estados Unidos. Já trabalhei com artistas angolanos. Coloquei o cavaquinho num tema do último disco do Matias Damásio, em Portugal toquei com Eddy Tussa, Yuri da Cunha e com Paulo Flores várias vezes no Enclave, uma casa de Morna em Alcântara, onde eu no Cavaquinho e o Zé Afonso nos teclados éramos os músicos do espaço”.

 

Adérito Pontes: "Muita luz”

Adérito Pontes estava visivelmente emocionado. "Foi um dia de muita luz e só tenho que agradecer, espero voltar outra vez. Vivi cá até aos meus 13 anos, na zona do São Paulo. Espero voltar em breve para outras actuações e colaborações, agora tudo está nas mãos de Deus”, disse.

Culturas que se interpenetram

Do Quintal do Tio Jorge ao Nha Cretcheu, ao longo dos tempos alguns espaços da comunidade cabo-verdiana tornaram-se obrigatórios no roteiro cultural luandense. Na Chicala, há duas décadas, às sextas e domingos, o Quintal do Tio Jorge é um exemplo. Mais tarde no Futungo e no Benfica surgiram outros espaços onde a presença de instrumentistas não profissionais cabo-verdianos proporcionava bons momentos. Nestes locais a presença inesperada de artistas de referência, como Tito Paris, vezes sem conta surpreendia os clientes. Actualmente Nha Cretcheu tem conquistado os habitantes da zona do Patriota e arredores. 

Roberto Fortes é um sexagenário que nasceu em Cabo-Verde. Tio Fortes, como é conhecido, era uma presença frequente nos ambientes nocturnos de Luanda, para onde levava a sua jovialidade de dar inveja a muita gente.  Foi integrante do agrupamento Kissanguela e  nessa condição participou da proclamação da Independência de Moçambique.

"Fundje na Cachupa” reflecte a mistura entre os dois povos, um tema marcante da carreira de Ary que agora retomou "Bida Di Gois”, um original dos Tubarões. Outra voz angolana que foi ao acervo de Cabo Verde é Yola Semedo em "Destino Di Belita”, canção gravada por Cesária Évora. Nany usou o crioulo para manifestar o desejo de ir à ilha em "A mi ta bai pra Cabu Verdi”. Ainda usando a mesma lingua, recentemente Mago de Sousa chamou Kim Alves para produzir "Par Perfeito”. Jojó Gouveia também usou a musicalidade do crioulo em "Meu carinho”, original dos Tropical Band.

Maya Cool e Grace Évora foram felizes em "Junta ma nós”, assim como Paulo Flores e Tito Paris no dueto "Clarice”. Tito Paris entrou em estúdio com a Banda Maravilha ("Mussulo”), Phada Mak ("Qual é a ideia”) e muito recentemente com Ivan Aleksei ("Amor que nos seduz”). Bonga tem uma versão de "Mulemba Xangola” com Lura.  A parceria entre C4Pedro e Nelson Freitas em "Bó tem mel” é um entrosamento de artistas populares nas novas tendências. Neste segmento temos artistas como Pérola e Landrick em encontros musicais com Djodje e Johnny Jonhson. O produtor Livongh com as propostas "Cola Semba” e "Angola-Cabo Verde” é outro exemplo da interpenetração das duas culturas. 

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Reportagem