Opinião

Devolvam-nos as nossas férias!

Sebastião Vinte e Cinco

A abertura do ano lectivo 2022 e o regresso às aulas dos petizes, voltaram a movimentar as cidades e bairros do país que durante o cacimbo estavam numa acalmia incomum, só interrompida pela agitação própria da campanha eleitoral.

02/10/2022  Última atualização 06H30

O regresso às aulas em pleno mês de Setembro é uma novidade que os angolanos nascidos na década de  1980 nunca tinham testemunhado, uma vez que desde aquela década os anos lectivos sempre tiveram início em Janeiro/Fevereiro/Março e termo em Novembro/Dezembro.

No cacimbo, período que vai da segunda quinzena de Maio à primeira metade de Agosto, nunca tinham ocorrido, desde a década de 80, as conhecidas férias grandes.

A pandemia de Covid 19, que teve impacto negativo transversal nas sociedades de todos os continentes, não poupou o nosso calendário escolar.

Os constrangimentos causados à humanidade por esta pandemia geraram a oportunidade de se igualar o calendário académico angolano ao do ocidente (destino de muitos estudantes bolseiros angolanos há décadas). Ao que parece, este infame acontecimento terá funcionado como o factor de unidade entre a fome e a vontade de comer dos pais privilegiados que costumam obter bolsas de estudos para os seus descendentes, no sentido de passarem férias em família.

Ora, se para os angolanos privilegiados, que certamente representam um número insignificante perante o universo de estudantes angolanos que frequentam escolas públicas e privadas em território nacional, o novo calendário lectivo assentou-lhes como uma luva, para os demais (maioria), as férias deixaram de ter grande utilidade, uma vez que estas, normalmente costumavam ser aproveitadas pelas famílias para se refrescarem e passarem momentos memoráveis nas diversas praias, piscinas, rios e riachos do país.

A classe média angolana que deixou de ter poder de compra para efectuar viagens de férias ao exterior do país como ocorria no período de maior pujança da economia nacional de 2005 a 2014, descobriu que as viagens internas, apesar de trabalhosas pela má qualidade das estradas, são igualmente prazerosas, sendo prova disso as enormes dificuldades de se conseguir reservas em hotéis, resorts, lodges e hospedarias ou assim, em qualquer província de Angola, nos fins-de-semana prolongados ou no final do ano.

Se o novo calendário escolar pode, ainda que acidentalmente, ser considerado uma conquista das elites angolanas que normalmente se recusam a ver os seus filhos estudarem no seu próprio país, o que de certa forma distancia estes estudantes das culturas, dos problemas, das aspirações e demais traços identitários do seu povo – daí ser comum muitos angolanos formados no ocidente se sentirem não angolanos e imaginarem-se serem mais especiais do que aqueles que nunca saíram daqui – para os amantes de praias, rios, riachos e de piscinas como forma de lazer, o período do ano agora consagrado às férias grandes que não convida à prática dos seus hobbies.

A despeito de o impacto da Covid 19 não ter poupado países da nossa região como a Namíbia e a África do Sul, estes não sentiram qualquer necessidade de procederem à alteração dos seus calendários para ajustá-los à temporada académica ocidental.

Assim sendo, tudo indica que as operações de promoção do turismo nacional não passarão de letra morta quando as férias grandes dos estudantes ocorrerem num período que se pode considerar de baixa para o sector, aliás, não é por acaso que os próprios abastados angolanos não costumam ir de férias ao Algarve, Marbella, Cote d`Azur, Santorini e Veneza, no inverno europeu, pelo contrário, fazem-no no verão, altura em que as águas estão mais tépidas e recomendáveis para mergulhos.

O turismo angolano, maior interessado na disponibilização dos seus potenciais clientes em tempo de verão, parecer ser a maior vítima causada pelo novo calendário lectivo vigente no país. Outros perdedores serão certamente os cidadãos angolanos que, desprovidos de fundos para custearem férias muito dispendiosas no estrangeiro, se acostumaram a viajar pelo país em busca de lazer, de contacto com a natureza e com os diversos povos que compõe este potencial de diversidade cultural que Angola representa, uma vez que se inibirão de visitar as zonas costeiras e fluviais, pelo facto de as temperaturas das águas estarem, no cacimbo, abaixo das que habitualmente os banhistas encontram nos restantes 9 meses do ano.

A calendarização da época estudantil, pode ser vista também como um elemento identitário de um povo e de um Estado que se quer afirmar no contexto internacional, respeitando as dinâmicas climatéricas locais. Não parece que os ocidentais seriam capazes, um dia, de alterarem as férias grandes dos seus estudantes para que estas ocorram no inverno. Não faria sentido nenhum e deixaria os seus concidadãos atónitos com tal medida.

Não seria de todo pertinente que se corrigisse o erro cometido com a fixação de um calendário lectivo tão inoportuno para a maioria dos angolanos que não têm filhos ou parentes a estudar em países ocidentais?

Será justo que por um grupo de pessoas poderosas e privilegiadas, legitimamente ansiosas por estarem com os seus entes queridos no verão ocidental, os demais angolanos se vejam privados dos banhos de praia, de rio, de piscina e de outras diversões próprias do verão angolano porque neste período as crianças, os adolescentes e os jovens não possam acompanhar os pais, tios, avós e outros parentes nas férias por estarem na escola?

Por favor, DEVOLVAM-NOS AS NOSSAS FÉRIAS!     

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