Entrevista

Entrevista

A Radiologia detecta lesões pulmonares por Covid-19 e confirma cura após tratamento

Rodrigues Cambala

Jornalista

Num dia como hoje, mas em 1895, surgiu a radiografia pelas mãos do físico Alemão, Wilhelm Conrad Rontgen. Passado mais de um século, a técnica ganhou evolução e tornou-se indispensável no diagnóstico de várias patologias. A médica radiologista Conceição Júlio afirma que a Covid-19 é, também, um grande desafio para a radiologia, apresentando fortes ferramentas auxiliares para dar resposta a situações relacionadas às doenças pulmonares. Ao Jornal de Angola, a especialista afirma que os pais não devem recear que os filhos sejam submetidos a raio X, porque este método e os equipamentos são concebidos para apresentar baixa radiação

08/11/2020  Última atualização 06H48
© Fotografia por: Contreiras Pipa | Edições Novembro
Jornal de Angola: De que forma a Radiologia, em particular, encara a situação da Covid-19, uma vez tratar-se de um desafio para as demais áreas da Medicina?

Conceição Júlio: Neste contexto, a Covid-19 coloca, também, um grande desafio à Radiologia. No contexto geral, temos duas ferramentas auxiliares exactamente para dar resposta a quaisquer situações relacionadas às doenças pulmonares. Primeiro, é a convencional radiografia do tórax, vulgarmente conhecida por chapa do peito. É o primeiro método disponível de baixo custo. Mas, também, temos outro método de alto custo, com uma eficácia alta, que é a tomografia computadorizada, conhecida como TAC, descoberta nos  anos 70, mas que, com o advento das novas tecnologias, registou uma evolução. Hoje, diante da pandemia, a tomografia é o exame de eleição, quando queremos despistar se um determinado paciente, que testou positivo à Covid-19, tem ou não lesão pulmonar. Dos casos de Covid-19, 90% dos pacientes podem ser assintomáticos. Naqueles casos sintomáticos em que o paciente apresenta um quadro respiratório caracterizado pela falta de ar, cabe ao médico solicitar exame de imagem, para saber até que ponto existe acometimento pulmonar.

Qual é o melhor método?

A tomografia é o melhor método, mas a radiografia também serve quando as lesões são bem mais extensas. Mas numa fase inicial, as lesões podem ser muito ténues e que só conseguimos ter essa percepção, visualizando essas imagens, através da tomografia. Determinados pacientes só conseguimos confirmar que têm lesões com o uso da tomografia. Tem sido uma ferramenta bastante útil nos dias de hoje, porque os pacientes que chegam com alguma queixa respiratória, o ideal é a tomografia. Sobretudo numa fase muito precoce da doença, as lesões muito incipientes podem não ser diagnosticadas pelo raio X.

Os pacientes graves da Covid-19, depois de recuperados, voltam a passar pela radiologia para saber o estado do pulmão?

Exactamente. Os pacientes na fase inicial da doença fazem um exame que pode ser uma radiografia ou uma tomografia computadorizada. Fim de tratamento, quando têm alta, porque apresentam os exames serológicos já negativos, fazem uma segunda tomografia para um estudo comparativo e saber se as possíveis lesões regrediram das possíveis sequelas da doença. Faz-se um exame inicial e outro de saída.

Alguns hospitais no país estão desprovidos de equipamentos de radiologia, a prescrição médica é realizada com algum grau de dificuldade?

Esses dois métodos são auxiliares de diagnóstico, ou seja, o diagnóstico é sempre clínico e laboratorial. O paciente chega ao hospital com uma queixa de falta de ar e outros sintomas, faz-se o diagnóstico clínico. Depois temos o diagnóstico laboratorial. Este, sim, para descartar ou afirmar que estamos diante de uma infecção por Covid-19. A TAC e a radiografia surgem como exames auxiliares de diagnósticos. Não é errado, caso não esteja disponível esses equipamentos, fazer prescrição. Se eu tenho uma história, dados clínicos, sinais e sintomas sugestivos de uma infecção respiratória que, no contexto epidemiológico actual, posso suspeitar ser Covid-19.  O primeiro exame, para confirmar ou despistar a minha suspeita é o exame serológico (que faz a detecção do anticorpo do vírus no sangue) e de laboratório (exame molecular RTP-CR). Os exames auxiliares, a radiografia do tórax e tomografia complementam e servem para nós estimarmos a extensão da doença a nível dos pulmões ou não só, porque nem todo o mundo infectado vai ter uma pneumonia viral, alguns vão ter um síndrome gripal, mal estar, febre, calafrio, fraqueza.

No quadro das doenças respiratórias, a imagem é fundamental para determinar a tuberculose?

Sempre... Se o paciente nos apresenta um quadro bem sugestivo, o primeiro exame solicitado é a bacilo- escopia e raio X do tórax. A bacilo-escopia, algumas vezes, pode dar negativa. Os exames raio X e a tomografia são os exames de eleição. E com este último vemos a extensão da lesão. Os hospitais, que tratam de doenças respiratórias, devem ter fundamentalmente o aparelho de raio X. É um método que nos oferece muita informação e é o mínimo que deve ter  um  hospital.

Sobre a Medicina Ocupacional, que actividades profissionais devem fazer exames de radiologia com regularidade?

Temos o caso de atletas. Eles fazem check up trimestrais, semestrais e anuais, conforme o tipo de desporto praticado. Precisam de uma radiografia do tórax, algumas vezes, de coluna. Também temos aqueles trabalhadores que estão em offshore, que ficam muito tempo fora de terra, bem como os que trabalham na indústria mineira, cimenteira e no ramo da construção. Estes pacientes são acompanhados por especialistas em Medicina Ocupacional e, pelo menos, uma vez por ano vêm com um encaminhamento e o check-up realizado inclui a imagem. E não precisam de fazer a tomografia, porque a radiografia ilustra muito bem do ponto de vista anatómico e de exposição de produtos químicos e metais pesados.

Quanto aos trabalhadores que fazem a recolha de lixo?

Pela exposição que eles têm com produtos bio-degradáveis, restos metabólicos devem entrar neste contexto...

Muitos pais evitam submeter os filhos a radiografia, alegando que a exposição à radiação pode causar cancro?

É uma questão muito pertinente e não é só a realização de raio X do tórax nas crianças, mas também em relação à mamografia. A Radiologia é um ramo da Medicina ou especialidade médica que utiliza radiações ionizantes. Também faz diagnóstico, tratamento, acompanhamento e controlo de doenças. Raio X é uma onda electromagnética. Nos tecidos moles, ela atravessa e nos mais duros, como o osso, é absorvido e produz imagem. Tal como o raio X, a luz solar produz radiação e todos nós estamos expostos. Existem os efeitos da radiação que são os imediatos e tardios. Tudo é uma questão do processo acumulativo. Não que o paciente faz um raio X hoje que vai ter uma alteração. Não está comprovado que a realização de uma radiografia a uma criança de seis anos, daqui a 10 anos, vai trazer alguma doença  relacionada à exposição. É preciso entendermos que do mesmo jeito, também estamos expostos ao sol. Não deixamos de apanhar sol, porque precisamos de vitamina D. Tudo é uma questão de risco e benefício.

Com que regularidade deve-se fazer a radiografia?

Com o advento de novos aparelhos, cada vez mais os de raio X, tomografia são fabricados para uma baixa dose de radiação, exactamente para determinar exposição menos prolongada do paciente. Os aparelhos vêm com artefactos e uma colimação que fazem a filtração da radiação. Os pacientes só recebem a radiação necessária para aquele exame. São métodos seguros de imagem e todos os métodos são usados com prudência. A radiologia é realizada só quando o médico pede. Existe mais benefício na sua realização do que o contrário.

Falou em mamografia, as mulheres também apresentam reticências?

As mulheres ultimamente têm reticências em relação ao exame de mamografia. Volto a dizer que estes aparelhos todos são concebidos com uma baixa radiação e não são prejudiciais à saúde do paciente. Realizar uma mamografia uma vez a cada ano ou um raio X numa criança, que poderá fazer uma em cada cinco anos ou nunca mais fazer, não acarreta riscos para o paciente.

O raio X deve ser feito sempre que solicitado...

Os exames são feitos por indicação clínica. Se tiver uma criança internada com um quadro grave de uma infecção, essa deve passar por três, quatro ou mais raio X durante o seu internamento. Ainda assim, a dose de radiação com que são preparados esses equipamentos são baixas. Tinha um professor que dizia que se o paciente afirmar que não pode fazer raio X porque tem medo que a radiação vai fazer mal, este paciente não pode andar na rua quando tiver sol. É essa analogia para desmistificarmos essa ideia de que se fizer um raio X hoje, aos 20 anos vai ter um câncer. Não é só em Angola, os pacientes têm sempre dúvidas. Os pacientes devem exprimir as suas dúvidas na sala com o médico, às vezes, saem e se aconselham com outras pessoas e deixam de fazer o exame. Esses exames foram concebidos para diagnóstico, tratamento, rastreio e controlo da doença.

Há perigo caso as mulheres grávidas façam raio X ?

As mulheres grávidas é um capítulo à parte. Existe um período de organogénese, que são os dois primeiros meses de gestação, em que não pode fazer raio X, salvo se existir condições muito especiais em que se avalia risco e benefício. Nessa fase não deve. Não é uma proibição absoluta. Para ser feito existe aventais de chumbo que são postas na direcção na região do útero para proteger da radiação. Impedem a passagem da radiação. Numa situação normal, em caso de um entorse e precise necessariamente de fazer um raio X, vai ser direccionado no tornozelo, por exemplo, onde teve entorse. Usa-se um avental de chumbo com protecção. A fase de risco são os dois primeiros meses... O raio X em grávida é feito quando se descura a possibilidade dela fazer uma ressonância ou uma ecografia que não são evasivas.

A ecografia pode ser a melhor opção...

Se a grávida tiver uma inflamação na perna, por exemplo, não precisa de radiografia. Existe a ecografia, que é, também, um método de imagem auxiliar de diagnóstico. Ao contrário da radiografia, a ecografia não usa a radiação ionizante, usa ondas ultrassonográficas, que são captadas por cristais na sonda. Não só para acompanhamento gestacional, as grávidas beneficiam da ecografia com frequência para diagnóstico de outras patologias. Se me aparece uma mulher com a falta de ar e eu pensar que ela pode ter uma pneumonia com líquido a nível da pleura (líquido que se instala no saco que reveste os pulmões), com uma ecografia é possível chegar a este diagnóstico. E não precisa de raio X. A radiografia na grávida só se for condição sine qua non e não tiver outro método para diagnosticar a patologia. Outro método para não expormos a mulher à radiação, temos o aparelho de ressonância magnética.


O país já tem um número considerável de especialistas em Radiologia?

Ainda não somos muitos. Estamos em número de 30. É uma especialidade que, para nós, ainda é nova e está a crescer. Quando eu decidi fazer Radiologia nem sequer éramos vinte. Estamos a ter um crescimento que vale a pena encorajar as próximas gerações de médicos a apostar na especialidade para dar cobertura assistencial. Provavelmente, temos algumas províncias sem especialistas...

Faltam radiologistas em hospitais de referência em determinadas províncias do país...

São exames auxiliares de diagnósticos.. O ideal era termos, mas, dadas as condições de formação, nem sempre conseguimos ter cobertura em todas as províncias. Sendo um método auxiliar de diagnóstico,  não nos podemos esquecer que o diagnóstico é sempre clínico e estes métodos vêm para confirmar o resultado do exame. Não podemos deixar de medicar um paciente porque não temos uma radiografia para confirmar uma pneumonia. Existem métodos auscultadores que nos podem levar ao diagnóstico. Ainda não temos o ideal, mas vamos caminhar para isso... As especialidades de Radiologia estão disponíveis no Hospital Militar Central, Clínicas Girassol, Multiperfil e Sagrada Esperança.

Como é utilizada a Radiologia de Intervenção?

A Radiologia de Intervenção, além de ser diagnóstica, é terapêutica, diferente das outras. Por exemplo, se o paciente tiver um abcesso no fígado ou na coxa, não necessariamente precise de uma cirurgia. A abordagem pode ser feita por Radiologia de Intervenção. O radiologista vai lá na lesão com cateter e drena o abcesso. E temos dado os primeiros passos, ao invés de fazer aquela cirurgia aberta. Essa é a área da Radiologia que muitos não conhecem. Em resumo, os principais métodos de imagem usados em Radiologia para diagnóstico, tratamento e terapêutico são a Radiologia Convencional, comummente chamado por raio X, ecografia ou ultrassonografia, a tomografia computadorizada, anteriormente chamada de TAC, ressonância magnética nuclear,  mamografia e a radiologia de intervenção. Tanto o raio X, como a tomografia utilizam radiações ionizantes, a ecografia utiliza ondas ultrassonográficas, a ressonância magnética utiliza ondas de rádio frequência. Estes dois últimos não usam radiação e, por este motivo, são considerados métodos de eleição para examinar crianças, mulheres grávidas e em idade fértil.

Quantas solicitações a área de Radiologia recebe, por dia, na Clínica Girassol?

Agora estamos num período atípico devido às restrições. As pessoas só procuram os serviços de saúde quando é necessário mesmo.
Noutra época, conseguíamos ter à volta de 150 exames de Raio X, que vai desde o crânio até ao pé. Ecografia em torno de cem exames. Tomografia, conseguíamos ter 50 exames por dia, Ressonância 20. Estamos com uma baixa de exame e, no total de todos, estamos a fazer em torno de 180 a 200 exames por dia.

Há sempre o feedback dos relatórios dos exames que enviam para outros colegas?

Temos sempre o feedback, sobretudo aqui na clínica. Se o colega que encaminhou o paciente tiver alguma dúvida pode aparecer para obter algum esclarecimento. Mesmo pacientes que vêm de outras unidades para fazer o exame, temos sempre essa possibilidade, deixamos claro que se o colega tiver alguma inquietação pode ligar para a área de relatório. Trocamos impressões. Em relação aos relatórios da Radiologia, não é só aqui, sempre os clínicos ficam com alguma dúvida e, às vezes, têm alguma dificuldade em entender e ligam. Aqui conseguimos ter as imagens armazenadas e os colegas vêm olhar, para fazer essa abordagem multidisciplinar. Temos essa troca de informação. Mas, além do relatório físico, levam em disco compacto (CD) para o médico que receber olhar a imagem. Quem fez o exame tem uma apreciação diferente de quem recebe o relatório.

Perfil
Conceição Irene Esteves Júlio

Nascida a 17/09/78

Natural de Luanda

Estado civil: Casada

Filhos: 3 filhos

Licenciatura em Medicina pela Faculdade de Médicina da UAN, 2006

Especialidade:

Radiologia, (iniciada em Angola, no Hospital Militar Central, mas, por via de uma bolsa de estudo da Clínica Girassol, concluída na Universidade Federal de São Paulo, Brasil)

Futuro:

Fazer sub-especialização em Neuroradiologia

Prato preferido:

Como de tudo...

Leitura:

 Focada em artigos de especialidade. Estou a ler sobre lesões musculares em recém-nascidos

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