Entrevista

Índia e Angola de mãos dadas para fortalecer a cooperação bilateral em múltiplos domínios

Pratibha Parkar, a nova embaixadora da Índia em Angola, apresentou recentemente as suas cartas credenciais ao Presidente da República, João Lourenço. Na esteira da sua nova missão diplomática, o Jornal de Angola procurou saber em que ponto estão as relações bilaterais, sendo a Índia um país com grande desenvolvimento nos sectores da saúde e farmacêutico. Os pontos fortes na cooperação entre os dois países são decifrados pela embaixadora nesta entrevista. Das trocas comerciais, que oscilam um pouco acima dos 4,0 mil milhões de dólares, Pratibha Parkar fala sobre projectos no campo da saúde e educação e a intensificação das relações bilaterais através de parcerias no comércio e investimento, na agricultura e processamento de alimentos, no comércio de diamantes, nas Tecnologias de Informação (TI) e Telecomunicações, no petróleo e gás natural e sobre outras potenciais áreas em que a Índia quer intervir

04/11/2020  Última atualização 14H10
Em que pé estão as relações bilaterais entre Angola e a Índia?

Apraz-me informar que Angola e Índia completam este ano 35 anos de estabelecimento de relações diplomáticas. No entanto, é pertinente referir que a Índia e Angola partilham relações amistosas que remontam aos tempos da pré-independência de Angola, quando a Índia apoiou a luta pela liberdade. A Índia estabeleceu relações diplomáticas com Angola em 1985 e, desde então, mantém relações extremamente cordiais com o país. É com satisfação que constatamos que no seu discurso de abertura, em 2017, o Presidente João Lourenço mencionou a Índia entre os países com os quais Angola procuraria aprofundar os seus laços de amizade.
Onde isso mais se reflecte?

Tivemos poucas visitas de personalidades importantes (VIP) entre os dois países, durante esses 35 anos. O nosso Primeiro-Ministro, Narendra Modi, e o Presidente angolano, João Lourenço, reuniram-se paralelamente na Cimeira dos BRICs, em Joanesburgo, em 2018, e discutiram as formas de aumentar o comércio e o investimento entre os dois países. Fico feliz em informar que, actualmente, as relações de amizade estão numa trajectória avançada..Como perceber isso?

Ambos os países tiveram a primeira Reunião da Comissão Conjunta co-presidida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Índia, Dr. S Jaishankar, e pelo ministro das Relações Exteriores de Angola, sua excelência Téte António, no dia 7 de Setembro deste ano. Durante a reunião, ambos os ministros concordaram em continuar a intensificação das relações bilaterais, económicas, através de parcerias no comércio e investimento, na agricultura e processamento de alimentos, no comércio de diamantes, na saúde e produtos farmacêuticos, Tecnologias de Informação (TI) e Telecomunicações, petróleo e gás natural, etc.
Que resultados já foram alcançados?

Três Memorandos de Entendimento foram assinados durante a reunião, em matéria de saúde, treinamento entre institutos de serviço estrangeiro e facilitação na isenção de vistos para titulares de passaportes diplomáticos e oficiais. Ambos os países planeavam visitas extremamente importantes nos dois sentidos, no início deste ano, o que não pôde ser concretizado devido à Covid-19. Esperamos torná-las realidade, assim que a situação relacionada à Covid melhorar. Também, auguramos que Angola seja representada ao seu mais alto nível, na Quarta Cimeira Índia-África, que estava originalmente planeada para 2020, mas agora remarcada por razões óbvias.
Como avalia o estado actual das relações comerciais entre os dois países?

A balança comercial entre Angola e a Índia é favorável a Angola. O nosso comércio bilateral apresentou um aumento perceptível nos últimos três anos, em relação aos anos anteriores, e atingiu  cerca de 4,0 mil milhões de dólares a 4,5 mil milhões (4,5 mil milhões de dólares em 2017-18, 4,4 mil milhões em 2018-19 e 4,0 mil mi-lhões em 2019-20). As im-portações da Índia são de 3,7 mil milhões de dólares e as exportações de 0,3 mil milhões em 2019-20. Angola é o segundo maior fornecedor africano de petróleo para a Índia e a Índia é o terceiro maior parceiro comercial de Angola, compartilhando cerca de 10 por cento do comércio externo de Angola, principalmente por conta da compra de petróleo bruto a granel.
A expansão da Covid-19 não afecta essas trocas comerciais?

A Covid-19 impactou as nossas economias, mas precisamos converter essa adversidade em uma oportunidade, diversificando o nosso comércio bilateral para mais áreas, além das nossas parcerias comerciais em curso nos sectores petrolífero e energético. Vou trabalhar arduamente com o Governo angolano, no sentido de aumentar o nosso comércio bilateral e investimento.
Mencionou que as relações comerciais entre os dois países estão também focadas na área da energia. Quais são as outras áreas de interesse da Índia?

Presentemente, as relações comerciais entre a Índia e Angola concentram-se na área de energia. Gostaria de sublinhar que as economias dos nossos dois países se complementam. Angola é rica em hidrocarbonetos e recursos minerais, enquanto a Índia é rica em capital humano e financeiro e possui conhecimento técnico de baixo custo. A Índia pode se tornar num importante parceiro comercial nas áreas petroquímicas. O diamante é outro sector onde os dois países podem se harmonizar. Angola é um dos maiores produtores de diamantes brutos do mundo. A Índia é um grande mercado de diamantes e tem uma das melhores e mais baratas e maiores indústrias de lapidação de diamantes do mundo. A Índia está disposta a abrir o seu mercado aos comerciantes de diamantes angolanos. As exportações directas de diamantes entre a Índia e Angola poderão proporcionar uma vantagem para esta indústria e uma situação vantajosa para ambas as partes.Angola precisa de investidores na agricultura…Existe um enorme potencial agrícola em Angola. Ambos os lados podem explorar possibilidades de intercâmbio de técnicas agrícolas. Os investidores indianos ficariam felizes em investir no sector agrícola, o que ajudaria An-gola a alcançar a auto-suficiência na produção de ali-mentos. Existem amplas oportunidades de cooperação nas indústrias de processamento de alimentos, indústrias têxteis, bens de engenharia e construção de infra-estruturas. Prevejo um au-mento nos investimentos, nos sectores-alvo de Saúde e Farmacêuticos, Minerais e Mineração, Pescas e Produtos Marinhos. É bem sabido que a Índia é líder em Tecnologias de Informação (TI) e em serviços adequados para Tecnologia de Informação (TI). Teremos o maior prazer de estar de mãos dadas com Angola nos seus esforços de digitalização da Administração e da sua economia. Isso poderá ser benéfico não apenas para as nossas relações comerciais, mas poderá ser mutuamente benéfico e poderá ajudar no desenvolvimento da indústria em ambos os lados.

A Índia fez dos sectores da Saúde e Farmacêutico um dos seus pontos fortes. Onde reside o segredo?

O Primeiro-Ministro da Índia, Narendra Modi, descreveu apropriadamente a Índia como a "farmácia do mun-do”, enviando medicamentos muito necessários para vários países, durante a pandemia da Covid-19. Ao longo dos anos, a Índia tornou-se líder mundial na produção e fornecimento de medicamentos genéricos e vacinas de baixo custo, em que as famosas empresas farmacêuticas indianas criaram inovações revolucionárias, especialmente ao obter medicamentos que salvam vidas a preços mais acessíveis para a maioria das re-giões que precisam deles. A Índia aumentou enormemente a sua capacidade nos últimos meses para lidar com a pandemia da Covid-19. Hoje temos mais de 100 grandes produtores de equipamento de protecção individual (EPI), mais 25 empresas que produzem ventiladores e 10 grandes fabricantes nacionais de máscaras N-95. Temos 15.000 centros  para cuidar de pacientes com Covid-19. A Índia forneceu medicamentos que salvam vidas, kits médicos, máscaras e ventiladores a mais de 150 países, incluindo vários países africanos. A Índia emergiu como um grande fornecedor de medicamentos essenciais.
Que expectativas para Angola?

Tanto a Índia como Angola podem cooperar nas áreas da Saúde e Farmacêutica, Ayurveda e Medicina Natural. Ficaríamos felizes em trabalhar em conjunto com o Governo angolano no atendimento das necessidades de saúde e farmacêuticas da população angolana. A formação de estudantes e profissionais médicos angolanos, no âmbito da formação e-VBAB, é outra das áreas de cooperação nas áreas de Saúde e Educação.
Que outros projectos há na cooperação entre a Índia e Angola no sector da Educação?

Índia e Angola compartilham uma sólida cooperação técnica e educacional. O Governo indiano oferece capacitação regular a funcionários do Governo e outros profissionais de Angola, por meio de programas de Cooperação Técnica e Económica da Índia. Anualmente, o Governo indiano oferece 12 bolsas para ITEC a cidadãos angolanos, para cursos de formação de curta duração em diferentes áreas, como Língua Inglesa, Auditoria e Finanças, Banca, Tecnologias de Informação (TI), liderança, etc. Além disso, o Governo indiano tambémdisponibiliza bolsas de estudo anuais para ICCR a estudantes angolanos, para a realização de estudos de graduação e pós-graduação, em várias disciplinas, em universidades na Índia. Temos assistido a uma resposta tremenda a estes programas de bolsas e 34 cidadãos angolanos conseguiram vagas em universidades indianas durante o ano em curso, nas áreas de Engenharia, Ciências, Informática, Economia, Artes, Psicologia, Filosofia, etc. O programa de bolsas de estudo tem recebido uma apreciação impressionante por parte de estudantes angolanos, que têm ajudado na construção das suas carreiras.
Uma cooperação para fazer face aos desafios comuns de desenvolvimento
É importante notar que a Índia e Angola têm cooperado em vários fóruns internacionais, incluindo nas Nações Unidas. Ambos os países enfrentam vários desafios comuns de desenvolvimento. Como resultado, temos posições comuns sobre muitas questões, especialmente aquelas relativas ao  ambiente e às mudanças climáticas, segurança energética, comércio e combate ao terrorismo. A nossa parceria com Angola é impulsionada pelo desejo de Cooperação Sul-Sul, capacitação, desenvolvimento de recursos humanos, acesso ao mercado de cada um e apoio aos investimentos indianos, onde podemos aprender com as experiências uns com os outros. A Índia está ciente do facto de Angola ser um dos protagonistas do continente africano na manutenção da paz e da estabilidade. Portanto, estamos muito interessados em construir posições comuns sobre questões de interesse mútuo.
Como embaixadora, quais são as suas prioridades, no que diz respeito às relações bilaterais?

Durante o meu mandato em Angola, a minha maior prioridade será elevar os laçosde amizade já fortes entre os dois países a um novo nível, abrangendo todas as áreas de cooperação, incluindo Política, Comércio, Cultura e contactos interpessoais. No contexto de África, gostaria de destacar que é vontade da Índia basear a nossa parceria nos princípios de igualdade, respeito mútuo, solidariedade e benefício mútuo, em conformidade com os princípios de desenvolvimento "pertencentes à África” e "liderados por África”. O nosso modelo de cooperação com o continente africano é orientado pela procura consultiva e participativa, envolve recursos locais, cria capacidade e é baseado na própria priorização de suas necessidades pela África. A Índia acredita, firmemente, que nenhuma Cooperação Sul-Sul pode e deve resultar na restrição do espaço de desenvolvimento ou no futuro de nossos países. O desafio é desonerar o potencial de África sem tentar restringi-lo. Essa é a pedra de toque da política de desenvolvimento da Índia em Angola.
Perfil
A nova embaixadora da Índia em Angola, Pratibha Parkar, juntou-se ao Serviço das Relações Exteriores da Índia no ano de 2000 e iniciou a sua carreira diplomática na Embaixada da Índia em Moscovo (2002-2006), Rússia, onde completou a sua formação linguística (Moscovo) e trabalhou como segunda secretária (Informação e Cultura) durante dois anos.Trabalhou no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Nova Deli como subsecretária para Mianmar (2006-2008). Trabalhou também como primeira secretária na Embaixada da Índia em Jacarta (2008-2011), Indonésia, e como conselheira (Política) na Missão Permanente da Índia junto das Nações Unidas, em Nova Iorque (2011-14). Mais tarde, trabalhou como directora para o Bangladesh e Myanmar (2014-2017).Pratibha Parkar assumiu o cargo de embaixadora da Índia na República de An-gola no dia 28 de Julho de 2020, após renunciar ao cargo de cônsul-geral da Índia em Frankfurt, Alemanha, onde trabalhou de 3 de Agosto de 2017 a 27 de Julho de 2020.Na sua longa carreira diplomática, de duas décadas, Pratibha Parkar especializou-se em diplomacia bilateral e multilateral, especialmente nas áreas de Cooperação Económica e Comercial, questões de desarmamento global, questões de Conselho de Segurança da ONU e trabalho comunitário. A promoção da cultura indiana no estrangeiro é a sua paixão.Pratibha Parkar é pós-graduada em História pela Universidade de Mumbai. É casada com  Sugandh Rajaram, um colega diplomata, e têm uma filha de 16 anos.

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