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África: Défice de financiamento deve-se a maus projectos e finanças fracas

A presidente do Standard Bank no Brasil considerou hoje que o défice de financiamento para infra-estruturas em África se deve à falta de qualidade dos projectos e à excessiva dependência das finanças públicas dos países africanos.

03/11/2020  Última atualização 20H01
© Fotografia por: DR
"Não temos conseguido cobrir o défice de financiamento nas infra-estruturas em África porque existe uma falta de projectos bancáveis, isto é, com condições para serem apresentados aos financiadores e, por outro lado, existe uma excessiva ligação ao estado das finanças públicas de cada país, já que a maioria dos projectos é liderada pelos governos", disse Natália Dias.

Durante o Fórum Brasil-África, que decorre hoje e quarta-feira, a presidente da filial brasileira do maior banco comercial em África defendeu que "existem muitas oportunidades no continente na área da energia e da integração regional" e disse que o défice de investimento nas infra-estruturas é de 150 mil milhões de dólares por ano.

"A única maneira de acomodar essa procura é conseguir cativar os investidores, há muita liquidez nos mercados, nós calculamos que existam 11 biliões de dólares em activos, 450 mil milhões dos quais podem ser canalizados para investimentos em infra-estruturas no continente", disse a banqueira.

O problema do financiamento e das necessidades em África foi uma das questões que trespassou a mesa redonda sobre 'Investimento em Infra-estrutura: Oportunidades em Energia, Construção e Transportes', com os empresários presentes a queixarem-se das dificuldades logísticas que existem no continente, exemplificando com estradas pequenas que não suportam um camião que transporte maquinaria pesada para uma obra de maior envergadura.

"O que é preciso mesmo é que os governos apostem em projectos bancáveis porque de todos os projectos para África, só 20 por cento passam a fase do planeamento e implementação, e só 10 por cento chegam à parte do financiamento", acrescentou Natália Dias, vincando que "outro dos problemas para os investidores é que a maioria dos projectos é liderada pelo governo, que geralmente tem um rácio da dívida sobre o PIB muito elevado, e vai subir ainda mais a seguir à pandemia".

Actualmente, o rácio da dívida dos países da África subsaariana está acima dos 50 por cento, com a agência de notação financeira a estimar que no próximo ano pode chegar a mais de 70 por cento devido ao endividamento necessário para combater a propagação da doença e relançar as economias.

"As instituições financeiras de desenvolvimento podem ajudar a puxar o sector privado, criando projectos bem feitos que chegam à parte do financiamento; foi assim que conseguimos 'fechar' o projecto de gás natural em Moçambique, um país que mesmo tendo passado por um incumprimento financeiro recente, tem patrocinadores fortes e uma moldura legal robusta que convenceu os investidores", concluiu a responsável.

Intervindo na discussão, o presidente do Banco de Desenvolvimento da África Ocidental, Serge Ekué, defendeu que melhorar o projecto antes de o apresentar aos investidores é essencial e disse que os investidores olham essencialmente para quatro indicadores quando decidem avançar para o financiamento de um projecto em África.

"Os investidores olham para o 'rating', o formato de financiamento do projecto, a duração e os juros", elencou Serge Ekué, defendendo que "estes são os critérios onde temos de melhorar para convencer os investidores, e é a maneira de financiar o défice de investimento nas infra-estruturas que impedem o desenvolvimento económico mais acelerado" no continente, concluiu.

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