Entrevista

Castelo Malulo Samuel: O craque que passou ao lado do Girabola

Sérgio V. Dias

Jornalista

Castelo Malulo Samuel é um nome que, eventualmente, não diz nada para muitos, mesmo até no que diz respeito àqueles que acompanham a febre do futebol nacional. Porém, se se recuar no espaço e no tempo, mais concretamente aos primórdios dos anos 80, quando espoletou o célebre projecto de futebol infantil designado “Caçulinhas da Bola”, alguns, obviamente, lembrar-se-ão deste talentoso jogador

01/11/2020  Última atualização 18H09
© Fotografia por: DR
Castelo Malulo aquando do surgimento do memorável projecto levado a cabo pela Rádio Nacional de Angola e que viria a dar frutos apetitosos para o futebol angolano, foi eleito entre os melhores da época. Por essa razão, foi o escolhido para simbolizar o jogo de abertura oficial dos Caçulinhas da Bola, no Estádio Nacional da Cidadela, entre os Mini-Importadores, em que estava vinculado, e a equipa Mwana Pwó.

Castelo Malulo recorda, com alguma nostalgia, que foi ele quem desceu do helicóptero, evidenciando o seu talento a dominar a bola, para o acto que antecedia a abertura oficial do torneio. Foi, enfim, o primeiro grande passo dado pelo menino nascido nas terras cafeícolas do Uíge, mais concretamente no Bembe, no célebre torneio de futebol que revelou muitos e muitos talentos.

Castelo Malulo elege o malogrado radialista Francisco Simons como o responsável pelo seu surgimento na "explosão” de futebol que foi o torneio "Caçulinhas da Bola”, quando o Campeonato Nacional da I Divisão já levava alguns anos de história.

Tudo começou numa sexta-feira quando Malulo e outros miúdos jogavam num dos  campos pelados do Cazenga e o malogrado radialista surgiu no recinto e convidou-o a comparecer às 6 horas do dia seguinte no campo do Polivalente FC. Chegado ao local, entre várias centenas de miúdos, ele foi um dos escolhidos para fazer parte de uma das oito equipas formadas. 

O antigo talento, forjado na equipa Mini-Importadores, que actuava sob "sponsor” da Importang, assume de peito aberto que é com muita saudade que fala daquela "explosão” do futebol infantil.  "Joguei durante cinco anos nos 'Caçulinhas da Bola'. O primeiro jogo fiz no Estádio da Cidadela e o kota Salviano, que na altura já era um craque do Progresso do Sambizanga, foi o juiz escalado”.

Castelo Malulo sublinha o amor à camisola que então reinava. "Para se ter uma ideia da coisa, nem sequer chuteiras tínhamos. Quando jogávamos, actuávamos com os famosos 'João Domingos', que eram feitos na fábrica Macambira”.

 
Jogadores da época

Quanto aos jogadores daquela época e que anos depois viriam a fazer furor na maior prova do futebol nacional, o Girabola, e noutras latitudes, Castelo Malulo recorda-se que nos Caçulinhas da Bola actuou ao lado de Luís Cazengue "Luisinho”, que também representou as cores dos Mini-Importadores.  Bodunha e Manguituca, da Refrinor, foram outros talentos que então despontaram. O primeiro, que mais tarde evoluiu no Petro de Luanda, chegou a actuar no Varzim de Portugal, ao passo que o segundo foi jogar em França, onde se radicou.

Tendo sido vice-campeão pelos Mini-Importadores, o nosso interlocutor recorda ainda que na época  despontavam, entre outras equipas dos "Caçulinhas da Bola”, a Encafé, Nocal, Bolama, Pastelaria Universal e  Refrinor.
Anos depois de deixar os "Caçulinhas da Bola”, Castelo Malulo Samuel representou o Vitória do Sambizanga e actuou ainda pelos Amigos do 1º de Agosto. Brilhou ao lado de jogadores que se notabilizaram no Girabola, entre os quais recorda-se de Nelito Kwanza e Bila, ex-1º de Agosto; Abreu, ex-Sagrada e Petro; Chico Dinis, Petro de Luanda; e Salviano, que militou no Progresso do Sambizanga.

Apesar de não ter actuado em qualquer equipa do Campeonato da I Divisão nem na Selecção Nacional, Malulo recorda o imenso público, do Cazenga e não só, que "fazia vénia” às suas qualidades como futebolista.

Nesse particular, lembra-se que num jogo entre Angola e a Nigéria, em que o Akwá já capitaneava os Palancas Negras, surgiu algum público a ovacionar o seu nome. "Queremos o Malula, queremos o Malula, dizia o público. E eu, muito honestamente falando, não sei de onde e como surgiu aquela iniciativa. Aquilo emocionou-me muito”, disse, acrescentando que não chegou a integrar uma das selecções jovens que se deslocou para um torneio em Espanha, por, na véspera, ter viajado para o Uíge, sua terra natal, para tratar um documento pessoal.


"Feiticeiro da Bola”
Castelo Malulo conta que ao longo dos anos, ganhou o cognome "Feiticeiro da Bola”, muito por obra do malabarismo, sentido táctico e a forma como ludibriava os adversários. No fundo, como acrescenta, foi muito pelo poder de travar a bola, bom passe, marcar penálti sem tomar balanço e a forma como cobrava as faltas, mesmo com a barreira quase totalmente preenchida pelos atletas da equipa oponente, que lhe atribuíram esse cognome.

O menino prodígio dos "Caçulinhas da Bola” recorda ainda que durante um curto período de 22 dias, em que estagiou no Petro de Luanda, já a trilhar para os 20 anos, chegou a cobrar uma falta num jogo-treino contra a equipa A do emblema do Catetão. Diz ele que mesmo com a barreira bem apertada o esférico foi anichar-se precisamente no fundo das malhas. Não acreditando em tamanho malabarismo na execução do lance, o então treinador António Clemente chamou-o para ver o que realmente poderia ter nas chuteiras.

Nessa altura, Bodunha já despontava no plantel petrolífero como "playmaker”.  Além deste jogador, que tinha funções de armar todo o jogo ofensivo dos tricolores, já havia outros talentos no plantel, como Dário e Barriga, só para exemplificar.
No entanto, apesar de corresponder às expectativas do técnico brasileiro, que no 22º dia de testes efectivos orientara para lhe ser atribuído novo equipamento desportivo, particularmente as chuteiras de marca "Le Coq Sportif”, "por má fé de algumas pessoas” acabou por se desligar do clube. Mas Malulo lembra que antes, numa sessão de treino em que alinhara pela equipa B, depois de uma espectacular finta a Chico Dinis, este caiu incrédulo no solo e, no retorno ao lance, fez uma entrada tão viril que levou o oponente a embater nos varões em redor do campo do Catetão. "Depois daquele lance fatal, não tive moral de voltar ao Petro, apesar de outro colega de ocasião ter-me levantado e dito que aquilo era próprio para quem estava a começar”.

Se no Petro de então já pontificavam nomes sonantes como Nejó, Quim Sebastião, Chico Dinis e Chico Afonso, o preparador-fisico Man Nito e o roupeiro Kota Abuso, surgiu-lhe a chance de ir ao Kabuscorp, quando, no início dos anos 90, foi contactado pessoalmente por Bento Kangamba, presidente e dono do clube. "Ele levou-me para uma entrevista na RNA e apresentou-me como reforço e diamante da equipa”, disse.

Porém, a sua mãe não aprovou a ida para a turma do Palanca, devido a algumas bocas negativas. No entanto, no jogo de apresentação oficial dos palanquinhas no designado campo do Olimpique do Cazenga, agora convertido em Marco Histórico, ao serviço do Misto desse município fez o golo solitário da partida.
Após essa derrota do Kabuscorp, gerou-se um 'sururu' no campo e ocorreu um tremendo tiroteio, por causa do golo apontado quase a partir da linha do meio-campo.

O assédio para representar outras equipas não se restringiu ao Petro de Luanda, Kabuscorp do Palanca e ao Progresso do Samizanga. Enquanto jogador do Vitória do Sambizanga, com 19 anos e tal, houve um engenheiro do Projecto Kapanda que chegou a contactar pessoalmente Castelo Malulo Samuel, para uma eventual ida para o Paris-Saint Germain da França.  As negociações acabaram por ter uma má direcção, dado que o actual presidente da Federação Angolana de Futebol (FAF), Artur de Almeida e Silva, enquanto líder do Vitória, inviabilizaria o processo por não ter sido tido nem achado. "Essa terá sido a razão do desfecho desfavorável”, assinala.

O actual jogador das Velhas Glórias do Cariango confessa que não ganhou nada, do ponto de vista material, mas, por outro lado, aponta o prestígio que conquistou por tudo o que fez em torno da modalidade. "No fundo é isso que me conforta”, sentencia.

Perfil
Nome
Castelo Malulo Samuel


Filiação
Samuel Pedro e Isabel Flora Afonso


Local de nascimento
Bembe (Uíge)

Data de nascimento
29 de Novembro de 1971


Equipas em que actuou
Mini-Importadores, Misto do Cazenga/Edipesca, Amigos do 1º de Agosto, Vitória do Sambizanga e Velhas Glórias do Cariango


Ídolos
Ndunguidi e Paulo Futre


Hobby
Jogar futebol    

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